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Lula de volta a Brasília: imagem da semana

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ARTIGO DA SEMANA

GALO NO POLEIRO

Vitor Hugo Soares

Em seus noticiários de maior audiência, na noite de quarta-feira (24), as principais redes de televisão do país, cada uma ao seu estilo e enfoque, exibiram na cobertura sobre os vertiginosos ganhos de Palocci, imagens que mais pareciam retiradas de arquivos da história recente. Algo assim do tempo em que o então senador e ex-governador Antonio Carlos Magalhães deitava e rolava da Bahia a Brasília, exalando mando e poder à sua passagem.

“Pura ilusão de ótica”, como ensinava há décadas a professora Letícia Campos na escola de Santo Antonio da Glória, no vale do São Francisco. No centro da imagem que as TVs mostraram esta semana quem pontificava de fato na capital federal – deitando e rolando no meio da multifacetada tropa política ao seu redor – era o ex-presidente República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Principal esfinge do partido dominante instalado no Palácio do Planalto, a pleno vapor ele estava de volta ao cenário do qual se despedira há cinco meses. Desta vez em missão de negociador e bombeiro, duas de suas mais reconhecidas especialidades, cultivadas no sindicalismo e aplicadas na política em seus oito anos de governo. Lula tenta apagar o incêndio que grassa no gabinete do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, cujas chamas ameaçam chamuscar as vestes da presidente Dilma Rousseff.

“Que foto, que imagem!”, exclama Margarida, a provocativa e mordaz jornalista que vive ao meu lado. Sempre em alerta e em eterno estado de objeção. Espécie de consciência crítica afetiva, permanentemente de plantão, cheia de desconfianças de qualquer coisa emanada do poder ou que apareça com carimbo oficial.

O grito funciona como um despertador. Convoca para “a vida real” que a televisão anuncia como fazia antes o Jornal do Brasil de minhas mais gratas lembranças profissionais, no tempo da canção tropicalista do baiano Gilberto Gil.

Até o alerta da jornalista ao lado, o autor destas linhas prestara pouca atenção aos principais lances dos noticiários daquele dia na TV. Por sinal, notícias de estarrecer. A começar por uma das mais lamentáveis sessões da história da Câmara dos Deputados do Brasil, que aprovou o Código Florestal. Trágica mas emblemática coincidência com o assassinato do casal de seringueiros e defensores da floresta Zé Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, abatidos em mais uma emboscada nas selvas do Pará.

A desatenção tinha motivo. Estava envolto na leitura de “Contra la prensa”, uma referencial antologia de textos sobre o que se poderia chamar de o outro lado do jornalismo ou, se preferirem, da história da imprensa. Na verdade, esses escritos compõem agora uma outra história da imprensa: o descobrimento de margens sombrias e vaidosas do jornalismo, em páginas críticas deixadas por profissionais que duvidaram e gozaram ao assinalar suas deserções e excessos.

“Em muitos casos é uma história forjada também por jornalistas, espíritos travessos que com sarcasmo, ironia ou condescendente ceticismo, deixaram um feixe de lúcida incredulidade ante a epopeia da imprensa escrita”, como registra a apresentação da antologia de Esteban Rodrigues, profissional de comunicação argentino, responsável pela meticulosa compilação dos textos de primeira linha que integram o livro. Um dos vários da pilha de publicações sobre jornalismo e comunicação adquirida em recente passagem por Buenos Aires.

Por pouco não resultou em multa por excesso de bagagem na hora do embarque no aeroporto de Ezeiza, mas valeu a pena carregar o peso, correr o risco da multa e até ser acusado esta semana como um dos responsáveis pela explosão de gastos de turistas brasileiros no mês passado em viagens ao exterior. Não sei se já existe edição em português da obra que indico. Leitura essencial nesta quadra de transe e quase completa confusão na imprensa brasileira e mundial.

De volta ao começo:

Mal comparando, nas imagens em movimento da TV, congeladas em expressivas fotografias publicadas nos sites, blogs e jornais impressos do dia seguinte, o ex-presidente Lula reapareceu em Brasília “ciscando” com a segurança do galo que chega para repor a ordem no poleiro.

Paletó a ponto de ver explodir o único botão que o fecha, expressão enigmática, braço direito estendido em acenos para o alto, Lula parece não só à vontade, mas satisfeito com a tropa que vê à sua volta, depois de assumir, na prática, a articulação política do governo Dilma Rousseff, enquanto tenta socorrer o companheiro Palocci, atingido na asa.

“Lula almoçou nesta terça-feira, 24, com senadores do PT, jantou com Dilma e Palocci, no Palácio da Alvorada, deu voz de comando para a defesa do ministro e nesta quarta-feira, 25, tomará café da manhã, na casa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com os líderes da base aliada no Congresso”, resume O Globo.

A imagem que contemplo – agora atento – é de depois do café na casa do presidente do Congresso. Lula aparece diante da tropa com aquele ar típico de “missão cumprida”. Ao lado do ex-presidente aparecem Sarney, à esquerda, e Temer (vice de Dilma) à direita. Mais afastados, Humberto Costa (PT) e Renan Calheiros (PMDB). Atrás, o senador Magno Malta em sua pose típica de “papagaio de pirata”. Ao fundo, uma nuvem densa de parlamentares do baixo clero no Congresso, que se confundem com seguranças atentos.

É, ou não, uma imagem de causar espanto e admiração? Confira e responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E~mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Carlos Volney on 28 Maio, 2011 at 23:34 #

O que causa espanto, mas não admiração na minha ótica, caro e grande Vitor Hugo, é Dilma sucumbir tão cedo. Pra alguém como eu que tinha lá no fundo a esperança de que um mínimo de mudança veríamos com ela no que toca à ética, é o fim da picada. Como dizia – e certamente reafirmaria agora – nosso querido e saudoso Armando Oliveira, nada nos resta senão “jogar a toalha”.
VIVA PALOCCI, SARNEY, RENAN CALHEIROS, JÁDER BARBALHO, NEGROMONTE, LEÃO, GEDDEL et caterva.
ETA BRASIL BRASILEIRO!!!!!


danilo on 29 Maio, 2011 at 0:13 #

pô, Volney, quem não vai gostar nadica do seu comentário é um tal de Marco Lino. cuidado, camarada…


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