maio
16
Postado em 16-05-2011
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 16-05-2011 12:46

Miltinho com Zelito Abreu (copo na mão):luta e boemia

Amanhã, terça-feira, 17, completa uma semana da partida de Miltinho Carvalho. A pedido de seus muitos amigos e camaradas de lutas democráticas e boemia na Bahia – quase todos só souberam de sua morte dias depois da cremação do corpo – Bahia em Pauta reproduz o texto de tributo a este baiano que fez história, publicada semana passada. (VHS)

===============================================
Morreu na terça-feira, 10, Milton Carvalho Silva, o Miltinho, como quase todos os seus amigos e camaradas o chamavam. 82 anos de idade e uma larga história de resistência política e de grandes combates baianos, nacionais e internacionais.

Partiu assim um camarada dos melhores, ser de bem com a vida até ser vencido pela insidiosa leucemia que o levou esta semana sem permitir nem avisar a tantos amigos (como este editor do BP), que gostavam dele, bebiam literalmente suas lições e o admiravam.

Militante da vida e das melhores causas sociais e políticas, dentro e fora da Bahia e do país. Mas, igualmente, um ser humano raríssimo. Miltinho reunia, em uma figura, seriedade, coragem moral e bom humor, associados a uma invejável bagagem cultural.

Sobrevivente da clandestinidade e das torturas nos quarteis, mas igualmente um boêmio imbatível, amigo leal e sempre generoso.

Magnífico contador de casos (políticos ou não, pois conhecia como poucos Salvador e a Bahia expostas à luz do dia ou escondidas debaixo dos lençóis).

Os almoços-reuniões periódicos dos quais Miltinho participava, ao lado de antigo companheiros – Othon Jambeiro, José Gorender, Walter Lessa, Guerrinha, Zelito Abreu e tantos outros, nas mesas especialmente reservadas por Antonio Moreira no restaurante Porto Moreira – eram de encher os olhos, corações e mentes dos participantes e de quem rondava por perto. Pena quem não viu nem conheceu Miltinho, pois ele era um dos pedaços dos melhores da Bahia.

Triste Bahia, mais triste ainda sem a sua presença.

(Vitor Hugo Soares)
=====================================================
A jornalista Maria Olivia Soares, colaboradora do Bahia em Pauta, conversou com o prefessor da UFBA, Othon Jambeiro, que recebeu a notícia do grande amigo Miltinho da vida inteira, quando dirigia seu carro na estrada BR-324 a caminho do interior do estado. Da conversa resultou o texto com resumido perfil de Milton Carvalho, que BP publica a seguir:

O que posso falar de Miltinho, a partir do que Othon Jambeiro contou da estrada:

Milton Carvalho, carinhosamente chamado de Miltinho, nasceu em Paripiranga – ele sempre brincava dizendo ser natural de Parispiranga .
Mesmo sendo um cidadão do mundo, que viveu em Moscou, Praga e Bratislava, não escondia sua grande paixão pela histórica Itapicurú , antiga cidade balneária do sertão da Bahia, fonte de saber, cultura e traquinagens eróticas inesquecíveis da infância, como confessava aos amigos, não raro com visível ar de saudades.

Morreu nesta terça-feira, dia 10 de maio. Seu corpo foi cremado. A seu pedido, o mar vai receber suas cinzas

Miltinho foi aluno de Engenharia da Escola Politecnica da UFBA, mas nunca se formou devido a militancia constante e as “tarefas” que o PCB lhe impunha e ele sempre cumpriu sem queixas, a não ser a partir do momento em que descobriu todo terror e barbárie imposto por Stalin.

Foi presidente da União dos Estudantes da Bahia – UEB, integrante da UNE e representante da entidade na União Internacional dos Estudantes – UIE, período em que viveu em Praga .

Militante do PCB por longo período, trabalhou na Petrobras, com o golpe de 64 perdeu emprego, foi preso, muito torturado – a ponto de precisar ficar retido no Hospital do Exército com pneumonia braba, devido torturas na água.

Solto, exilou-se em Paris, onde conviveu com os exiliados nas articulações da resistência democrática à ditadura no Brasil, especialmente ao lado de Waldir Pires e Miguel Arraes. Miltinho trabalhou na Argelia com Miguel Arraes, e foi auxiliar e orientador destacado no governo baiano de Waldir, na área de transportes.

Voltou ao Brasil, mas já não militava mais no PC. Acompanhou de perto a volta da democracia, apoiando pessoas em que acreditava, independentemente de filiação partidária e ideológica.

Homem de enorme fibra moral, grande cultura, leitor voraz, Miltinho morreu desencantado. Estava escrevendo sobre Stalin, sua maior decepção. A cada dia se abatia e sofria mais “com as descobertas sobre este tirano”.

Muitas histórias cercam sua vida de militante e boêmio. Uma que os colegas de Engenharia contam, a do desaparecimento do busto do ex-governador e ex-chanceler Juracy Magalhães, da Escola Politécnica, que ficou escondido por mais de 20 anos…

Grande Miltinho, um pedaço de história baiana que se vai, deixando saudades para sempre.

====================================

COMENTÁRIO

Inácio Gomes
inaciogomes@atarde.com.br
187.90.65.36 12/05/2011 às 21:47

Após assistir na TV noticiario a respeito de um ucraniano que , aos 91 anos de idade, foi condenado na Alemnaha a cinco anos de prisão pela assassinato de judeus em campo de extermino li a noticia divulgada por Maria Olivia, Othon Jambeiro e Vitor, destacados jornalistas e motivo de orgulho para aqueles como eu os conheceu na luta contra a ditadura ontem e, hoje, pelo competente jornalismo investigativo e de analise politica me entristesse pecreber que na Alemanha, 66 anos depois do termino da guerra ainda se condena criminoso politico, assassino ou não.

No Brasil, o texto dos três jornalistas fazendo justiça a Milton não mereceu um comentarlio de qualquer dos esquerdistas do passado principalmente dos que estão o poder hoje. Apesar de tudo valeu a luta.

Inácio Gomes

( Pedaços de lembranças de Maria Olívia Soares, Othon Jambeiro e Vitor Hugo Soares) .

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos