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Postado em 14-05-2011
Arquivado em (Crônica, Janio) por vitor em 14-05-2011 11:12


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CRÔNICA/DULCÍSSIMA

Irmã Dulce e outros santos

Janio Ferreira Soares

Em meio a ladainhas jornalísticas que perecem não ter fim, finalmente a Bahia se prepara para a beatificação de Irmã Dulce, fato mais do que justo nesta terra repleta de santos estrangeiros, divindades diversas e entidades estabelecidas.
A beatificação, leio, é a etapa que precede a concessão da patente de santo. A partir daí, uma comissão exige a apresentação de mais alguns milagres comprovados, para só então o agraciado ser canonizado pelo Papa e aí poder ser cultuado em todo o mundo.

No caso de Irmã Dulce nem precisava esse protocolo todo, já que sua obra em vida lhe permitiu um exclusivíssimo cartão fidelidade azul-celeste, desses que vem com um chip divino que dá acesso direto a sala vip do firmamento, embora, pelo seu estilo, ela preferisse padecer como uma simples mortal na longa fila do check-in eterno.

Não tenho muita intimidade com santos tradicionais apesar de ter crescido no meio deles, vizinho que fui da igreja de Santo
Antônio da Glória. Mas lembro bem das imagens com suas bochechas rosadas parecendo sorrir toda vez que o coral comandado por minhas tias desafinava a Ave Maria. Meus santos e santas favoritos continuam sendo aquilo e aqueles que, de alguma forma, deixam a vida mais leve. E isso vale tanto para o momento em que meus filhos me dão um sorriso molhado de piscina, quanto para a vez em que ouvi Milton numa distante noite de orvalho e breu, com sua voz de zabumba saindo de um velho rádio sintonizado na Inconfidência de Minas. Merecia uma vela.

Mas agora é hora de festejar a primeira santa baiana, apesar de ela já sê-la de há muito no meu altar secreto, local onde também guardo outros baianos aureolados por mim, a exemplo de Caymmi, esse mestre de canções em forma de rezas, que além de acalentar têm o dom de espreguiçar minha alma; de Glauber, um santo guerreiro de premonições certeiras e inspirações geniais; de Jorge Amado, santo sonso do pau-oco e maioral em inventar personagens divinais; e de Raul, Wally, Gregório, Waldick…, sem falar nos vivos. Mas aí são outros caracteres.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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