Moniz Bandeira:”ressurreição do discurso
patriótico nos Estados Unidos”
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Boas respostas a perguntas cruciais que começam a ser feitas no mundo inteiro ainda atônido depois da operação norte-americana em Abbottadab, no Paquistão, em que foi morto o terrorista Osama bin Laden.É o que se pode dizer em síntese sobre a entrevista do jornalista baiano Claudio Leal com o historiador Moniz Bandeira, também nascido na Bahia, que a revista digital Terra Magazine publica esta quinta-feira, 5. Confira trechos no Bahia em Pauta e leia íntegra em Terra Magazine.
( http://terramagazine.terra.com.br/interna/ )

(Vitor Hugo Soares)

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CLAUDIO LEAL

A operação norte-americana em Abbottabad, no Paquistão, pode fortalecer o terrorismo islâmico e converter Osama bin Laden em um “mártir da Guerra Santa”, na avaliação do historiador e doutor em ciência política, Luiz Alberto Moniz Bandeira, 75 anos, em entrevista por e-mail a Terra Magazine.

Autor de mais de 20 livros, entre os quais “Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque)”, onde explica como se formou a rede al-Q’aida e o surgimento de seu princípal líder, financiado pela CIA para combater as forças da União Soviética no Afeganistão.

“Essa operação em Abbottabad, violando as normas do Direito Internacional, pode produzir consequências incalculáveis, nos países muçulmanos que ainda estão em meio a fortes turbulências, e fortalecer mais e mais o terrorismo dos fundamentalistas islâmicos”, analisa Moniz Bandeira, professor titular de história da política exterior do Brasil (aposentado) na UnB.

Crítico da “guerra ao terror”, iniciada por George W. Bush e continuada por Barack Obama, o historiador afirma que “o terrorismo não é causa”. “É efeito, consequência de uma situação, que só pode ser resolvida politicamente, removendo os fatores que o geram nos países islâmicos”, pondera, evocando a permanência das tropas americanas “onde estão os principais lugares sagrados do islamismo”, o que configura “um sacrilégio para os muçulmanos”.

A execução de Bin Laden, acrescenta Moniz Bandeira, “ainda mais desarmado, tende a torná-lo um símbolo e herói, o mártir, um shah?d, que, na literatura do Islã, significa mártir da Guerra Santa, que se dedicou à causa de Alah, mesmo à custa de sacrificar a própria vida”.

O terrorista foi assassinado por uma unidade da marinha americana, a ST6 (a equipe seis dos Seals), responsável por espionagem e operações secretas em países estrangeiros. Depois de dez anos do ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center, comandado pela rede al-Q’aida, em Nova Iorque, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a execução no domingo, 1º de maio, e recorreu a um discurso patriótico. Obama decidiu não divulgar imagens do cadáver.

Moniz Bandeira relativiza a conquista política. “Esse feito afigura uma vitória no imaginário da América profunda. Não constitui, no entanto, um golpe decisivo no terrorismo islâmico”, diz o professor.

Nesta entrevista, ele também comenta a intervenção militar na Líbia e o impasse na Síria. “O presidente Obama tratou de passar o comando das operações (na Líbia) à OTAN, para que os países da Europa assumissem todos seus custos. Mas os aviões dos Estados Unidos continuam os bombardeios e os mercenários das empresas militares Halliburton e Blackwater, contratadas pelo Pentágono, estão a treinar os rebeldes e a participar da guerra civil. O resultado da intervenção militar ainda é incerto. Pode levar à divisão da Líbia”.

A pedido de Moniz Bandeira, a ortografia em árabe – al-Q’aida e Usama bin-Ladin, por exemplo – foi mantida nas respostas.

Terra Magazine – A morte de Osama bin Laden fez ressurgir o discurso patriótico nos Estados Unidos e ampliou, imediatamente, o receio de novas ações terroristas. Quais os efeitos políticos mais claros dessa vindita?
Moniz Bandeira – O ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001, configurou um ato de guerra, de uma guerra assimétrica, que não está prevista na normativa internacional. Quem cometeu o ataque foi não nenhum outro Estado nacional, como no caso de Pearl Harbor. Não se podia identificar o inimigo para retaliar, militarmente. Ele não tem esquadras nem força aérea e sua organização militar não era e não é conhecida, nem seus recursos econômicos e o sistema de informação. Os Estados Unidos, contudo, apontaram Usama Bin Ladin, chefe de al-Q’aida – como responsável e, desde 8 de outubro, juntamente com a Grã-Bretanha, passaram a bombardear o Afeganistão, onde ele, aparentemente, se refugiava. E, adensando a construção da nova demonologia, para substituir a União Soviética e o comunismo, o governo do presidente George W. Bush e a media internacional, durante anos, apresentaram bin-Ladin como se fosse a nova superpotência, que ameaçava a segurança do país e do Ocidente.

Daí que, com a execução de bin-Ladin, pelos comandos especiais dos Estados Unidos, o discurso patriótico ressurgiu, celebrando a vitória contra o inimigo. Mas essa operação em Abbottabad, no Paquistão, violando as normas do Direito Internacional, pode produzir consequências incalculáveis, nos países muçulmanos que ainda estão em meio a fortes turbulências, e fortalecer mais e mais o terrorismo dos fundamentalistas islâmicos. E esse inimigo é difuso, está disperso e recorre ao terrorismo, à custa de suicídio, porquanto não dispõe de mísseis e outras armas para atacar os Estados Unidos.

A operação no Paquistão fortalece o presidente Barack Obama, que andava combalido em pesquisas de opinião pública?
A execução de bin-Ladin tende a fortalecer o governo de Barack Obama e sua candidatura à reeleição em 2012. Ele conseguiu, em dois anos de meio, um objetivo que o presidente George W Bush não alcançou durante os oito anos do seu mandato. Esse feito afigura uma vitória no imaginário da América profunda. Não constitui, no entanto, um golpe decisivo no terrorismo islâmico. Ela reflete a profunda contradição nas relações políticas dos Estados Unidos com os povos árabes e o movimento islâmico em geral. Em 1849, Sérgio Teixeira de Macedo, chefe da Legação do Brasil em Washington, comentou: “Não acredito que haja um só país civilizado onde a idéia de provocações e de guerras seja tão popular como nos Estados Unidos”. Mas a guerra contra o terrorismo, declarada por George W. Bush e continuada por Barack Obama, não pode ser vencida pelas armas. O terrorismo não é causa. É efeito, consequência de uma situação, que só pode ser resolvida politicamente, removendo os fatores que o geram nos países islâmicos.

Leia entrevista completa em Terra Magazine

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