O liberal peruano Vargas Llosa, Nobel de literatura…

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…Recomenda voto no esquerdista Ollanta no segundo turno

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ARTIGO DA SEMANA

PERU À MODA BRASILEIRA

Vitor Hugo Soares

Tento encontrar uma explicação para o interesse especial que desperta, no jornalista da baiana e desgovernada cidade de Salvador, na beira do Atlântico, o processo eleitoral para a escolha do novo presidente do Peru, que incendeia políticos, empresários, marqueteiros e multidões lá na costa do Pacífico.

Um incêndio – diga-se – com notórios toques à moda brasileira de política e marketing, que grassa na campanha já em seu segundo e decisivo turno na capital Lima e em todo território onde no passado se ergueu a Civilização Inca no continente latino-americano.

No entanto, há quase total desinteresse dos vizinhos brasileiros, cuja mídia prefere apostar praticamente todas as suas fichas nas narrativas das picuinhas de Brasília, ou na cobertura embasbacada, faustosa, acrítica e alienante do casamento do príncipe com a plebéia em Londres, megaevento que tenta dar uma mãozinha para tirar o Reino Unido de uma de suas mais severas crises política e econômica.

O interesse e a paixão particular começou nos primórdios dos anos 70, mas não nasceu no Peru, como se poderia imaginar, pois lá nunca estive, apesar dos muitos sonhos e planos de viagens para Lima e Machu Pichu, que jamais deram certo, desde a juventude rebelde e militante na Bahia.

A fagulha se acendeu bem depois de ter escutado, com emoção, pela primeira vez, Caetano Veloso interpretar a canção peruana “La Flor de la Canela” – cuja origem e procedência eu desconhecia então. Aconteceu quando era repórter do sucursal do Jornal do Brasil, em Salvador, em uma das primeiras estadas na Argentina, na companhia de um casal de queridos amigos pernambucanos (Samuel e Veraci ).

Resolvemos entrar em uma daquelas fantásticas lojas de discos de Buenos Aires, na florescente e livre Avenida Corrientes, no tempo em que o Brasil atravessava uma das fases mais fechadas e truculentas da ditadura implantada em 64.

“Vocês não conhecem esta cantora no Brasil?”, perguntou a surpresa vendedora ao ver a nossa reação de desconfiança quando ela mostrou e sugeriu com entusiasmo o disco intitulado “Chabuca Granda – voz e vena de América”.

Pedimos então para ouvir algumas faixas onde estavam gravadas, na insuperável interpretação da prória autora, algumas das maiores preciosidades musicais já produzidas no continente e no planeta em qualquer tempo: “La Flor de la Canela”, já citada, “Fina Estampa” – que Caetano também gravaria mais tarde, em um de seus discos mais belos – “Señor Manuel”, “Ponte de los Suspiros” e “Quizas um dia Así” (entre outras), esta última, embora jamais gravada por ele, seguramente uma das fontes mais limpas onde o artista baiano, de Santo Amaro da Purificação, bebeu.

O efeito foi imediato, como injeção na veia. Comprei aquele e todos os discos de Chabuca que encontrei naquela loja portenha e em outras por onde passei depois. E aí está explicada a origem da minha paixão peruana e do forte interesse que me desperta o debate atual sobre o destino político dos conterrâneos da saudosa e imensa artista que sigo escutando.
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A recordação me leva a outra situação que liga umbilicalmente Brasil e Peru atualmente: lá e cá o povão não pára de surpreender. Está sempre a dar nó em muitas cabeças. E não só na de políticos e bem pensantes intelectuais brasileiros, como se tem visto nos acirrados debates e bate-bocas, desde que FHC publicou a sua polêmica receita para reanimar a combalida oposição no Brasil. Agora, petistas e tucanos, ex-amigos e aliados do ex-presidente em outras batalhas, tentam transformar o ex-príncipe dos sociólogos em sapo sem barba da política nacional.

Em meio ao bafafá brasileiro, o Peru divulgou o resultado da votação em primeiro turno nas eleições presidenciais. E lá está o povão outra vez dando dribles desconcertantes e aprontando das suas até para Vargas Llosa. O escritor notável, premiado com o mais recente Nobel de literatura , quando o assunto é a política de seu país – a exemplo do brasileiro FHC – tem dado topadas de estudante de escola primária.

No primeiro turno, os peruanos afastaram da disputa, de uma só tacada, os três candidatos de discurso liberal, mais ao gosto da classe média e das chamadas elites históricas e políticas do país. Na hora de decidir quem ditará os rumos da política e da economia do Peru, os centristas e liberais de todas as tonalidades estão obrigados a fazer a escolha que mais temiam e optar entre extremos: o esquerdista Ollanta Humalla (o preferido da rodada inicial, com 31% dos votos) e a direitista Keiko Fugimori (pouco mais de 21%, na segunda colocação), mas que acredita em uma virada na hora do vamos ver.

Quando as urnas colocaram o país diante desta realidade inapelável, Vargas Llosa, que votou e fez campanha para o liberal Alejandro Toledo (quarto colocado entre os cinco candidatos no primeiro turno) gritou que estava fora, “pois isso é como escolher entre o câncer e a AIDS”

Há poucos dias, em entrevista à CNN no México, o Prêmio Nobel peruano deu meia volta no discurso e propôs um apoio “exigente e crítico” para o esquerdista Ollanta Humala. Em artigo publicado na edição dominical do jornal espanhol “El País”, Llosa assinalou que votar em Humala implica um risco “para todos que defendem a cultura da liberdade”. No entanto, o autor de “Pantaleão e as Visitadoras” destacou o fato de Humala ter moderado “de forma visível sua mensagem política” durante a campanha, distanciando-se do modelo autoritário de Hugo Chávez e aproximando-se do brasileiro Lula”. Vale arriscar um voto, acha agora Llosa.

Uma campanha à moda brasileira, já se vê, de resultados a conferir. Qualquer que seja, viva a peruana Chabuca Granda!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Marcelo Fonseca on 30 Abril, 2011 at 10:32 #

Vitor Hugo, parabéns pelo excelente texto!
“Viva a peruana Chabuca Granda!”

Fraternalmente,

Marcelo


Marco Lino on 30 Abril, 2011 at 22:58 #

Mais um belo artigo. E, melhor ainda, de alma latina.

Agora, o nosso glorioso Llosa continua perturbado com os bodes latinos.

Entretanto, os nossos brilhantes liberais esquecem-se que os “bodes” que comeram a ração dos latinos foram financiados pelos grandes liberais do norte.

Bobagem, é claro.

Mas soa estranho descer o cacete em Perón e poupar Menem…

Poupar Pinochet e Castelo Branco e malhar Allende e Goulart…

É complicado entender cabeça de liberal latino.

Paciência!


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