Humala:ex-militar esquerdista em campanha no Peru/Pilar Olivares/REUTERS)
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DEU NO JORNAL PORTUGUÊS “PÚBLICO”

Rita Siza

Não fosse a impressionante reta final de Ollanta Humala, o candidato nacionalista de esquerda que inesperadamente se converteu no principal favorito à vitória nas eleições de hoje para a presidência do Peru, e a campanha eleitoral teria entrado para a história do país como a mais apática e desinspirada de que há memória.

Esse é pelo menos o consenso entre os jornalistas, analistas e observadores internacionais que todos os dias acompanharam as atividades dos vários candidatos a Presidente. Monótona, insossa, previsível, foi como descreveram a campanha.

O escritor Mário Vargas Llosa, último premiado com o Nobel de Literatura, foi mais longe e disse que em vez de uma verdadeira campanha, onde se debatem propostas políticas, os eleitores peruanos tiveram um “espetáculo de variedades”, “um torneio em que cada um se comportou como um palhaço medíocre”.

O diário “Peru 21” não foi tão longe, mas depois do último debate televisivo entre todos os candidatos, que supostamente permitiria clarificar o estado da corrida, confirmou a tendência de marasmo da campanha denunciado por todos. “Não aconteceu nada”, foi a manchete do jornal.

Tanta crítica parece um bocado exagerada, sobretudo tendo em conta que, durante os últimos seis meses, as sondagens mostraram quatro diferentes candidatos na ponta da preferência de votos. E que na véspera da votação a diferença entre o mais bem classificado e o último da lista era de apenas sete pontos.

Antes era Chávez…

Ollanta Humala, que foi derrotado na segunda volta nas presidenciais de 2006 e lidera agora as sondagens, trocou a sua inflamada retórica anti-capitalista e proclamada simpatia pelo estilo e as políticas do Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, por um discurso mais moderado, de abertura a políticas liberais na economia.

Desta vez, a inspiração do ex-militar é outro líder sul-americano: o brasileiro Lula da Silva. Nos últimos cinco meses, Humala foi quatro vezes ao Brasil para contatos com o Partido dos Trabalhadores. Oficialmente, o partido de Lula não participa na sua campanha, mas são os chamados “marketeiros” do PT os grandes responsáveis pela sua estratégia.

Os últimos discursos de Humala têm sido descaradamente dirigidos aos investidores estrangeiros, nervosos com o passado e a possibilidade de nacionalizações das empresas de petróleo e minas. O candidato esquerdista tem deixado todas as garantias de que tal não vai acontecer se chegar a Presidente. “O modelo venezuelano não é aplicável no Peru. Farei um governo sem sobressaltos”, prometeu.

Os seus comícios, no entanto, são dominados pelo povo: apesar do impressionante crescimento económico do país, a uma taxa de 8,7 por cento em 2010, 34 por cento da população peruana ainda vive na pobreza, com menos de dois dólares por dia, e a mensagem do nacionalista Humala para os desfavorecidos assenta numa mais justa redistribuição da riqueza.

No entanto, tal como há cinco anos, a ascensão de Humala pode ser um fenómeno temporário, e não sobreviver ao voto útil contra a esquerda na inevitável segunda volta, marcada para 5 de Junho. Entre os vários candidatos de centro-direita, Keiko Fujimori, a filha do antigo Presidente que entretanto foi condenado por abusos dos direitos humanos e corrupção, é quem está em melhores condições de discutir a segunda volta contra Humala.

Vargas Llosa, que em 1990 concorreu contra Alberto Fujimori pela presidência com um programa de centro-direita, disse que decidir entre votar em Keiko ou Humala era como “escolher entre ter cancer ou AIDS”.

Leia mais sobre eleições presidenciais no Peru em PÚBLICO:
http://www.publico.pt/Mundo

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