Realengo: a tragédia que mexe com todos

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DEU ESTE DOMINGO(10) NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

A essência não é o que foi, ao contrário: a essência mesma do mundo situa-se na linha de frente.
Ernest Bloch, O princípio esperança.

O massacre de Realengo expõe a face trágica do Brasil. E não me refiro à forma espetaculosa com que o tema foi tratado pela mídia, como se fosse um filme de ficção. Não, essa é uma prática recorrente e fácil de resolver. Basta não ler os jornais e revistas, basta desligar a televisão. Se isso acontecer, a forma de tratar os dramas humanos terá de mudar ou se perdem leitores, audiência.
A tragédia é outra. Torna-se imperativo que se avaliem os acontecimentos – brutais por qualquer ângulo que se veja­ para além do fato policial ou do drama individual do atirador. Ernest Bloch, em O princípio esperança, define a tragédia como um drama cujo fim já se encontra inscrito no princípio.
Basta ver o que acontece com as tragédias gregas. Há sempre um momento seminal que o conteúdo imensurável, ou incapaz de ser conhecido, do homem se revela e vai ganhando dimensão, até o desfecho final.

Qual o princípio do drama brasileiro? Três séculos de escravidão, o massacre de Canudos, a as torturas das ditaduras do Estado Novo e do pós-64? O massacre planejado, como política de Estado, dos guerrilheiros do Araguaia?

Sim, o princípio foi esse casamento infeliz entre a violência nunca passada a limpo com o surgimento da sociedade brasileira, geralmente individualista e, também, geralmente muito seduzida pela alternância das festas e tragédias. Cidadãos têm direitos no papel, mas dificilmente na realidade. A festa camufla a tragédia, a tragédia se reproduz e se amplia porque é sufocada, tratada como se não tivesse acontecido.

Esse o nosso drama, a repetição amplificada do mesmo. Foi o que aconteceu com as crianças de Realengo? Com o atirador? Vivemos uma sociedade áspera. As reações pessoais são violentas. As cidades respiram violência nas escolas, no transporte, no trabalho, por toda a parte. Pior: a desagregação social é estimulada, mas a pulsão dos desejos permanecem vivas. E as doenças sociais se multiplicam. O dinheiro parece ser mais desejável do que nunca. O dinheiro, o emprego, o êxito pessoal. Quem discute esses temas? Quem procura colocar o ser humano no centro da vida? Por que se aponta para a noite e não para o sol da manhã?

O neo-liberalismo tem vasta parcela de culpa quanto a esse fenômeno. Cortou os laços de fraternidade e solidariedade que nos unia. Mas não deve servir de desculpas. O Brasil reencontrou o caminho da democracia desde a década de 80. Portanto, tem havido tempo para discutir quem somos nós, como vive a juventude, em especial. Ricos e pobres. Onde estamos nós que não vemos que a vida não se resume aos índices de crescimento da economia e do consumo?

Aquela parte do homem atingido pela aspereza da vida não se propõe a esperar. Deseja evadir-se, mesmo quando se revela conformista, como nos revelamos com o trânsito das cidades e a apatia que nos leva a criticar e conviver com uma mídia espetaculosa, uma mídia que discute o dia a dia, mas que não se dispõe a ver os fatos nos seus contextos e relações profundas.

Há uma relação de vasos comunicantes entre o ser e o meio ambiente em que vive. O saber social implica em reconhecer que conceitos e práticas, assim como a o sentimento de mudança, exigem o conhecimento do real. O real está aí, aos olhos da multidão. Um país trágico, que acolhe a alegria e a dor. Cada dia mais se propõe a ser o país da alegria, mas é a dor que se infiltra nas dobras da vida, nas imagens-espectros que emergem da tragédia de Realengo, mas são as mesmas imagens da tragédia ecológica que se abateu sobre a serra fluminense, matando centenas de pessoas, que é mesma tragédia dos anos das ditaduras militares (64 estava plantado no Estado Novo varguista), que é a mesma tragédia de um povo que acredita poder superar o passado com o suposto novo. Pura ilusão. A nossa tragédia, vale repetir a palavra, é que ainda somos um povo infantil. Desejamos ser humanistas e cordiais, mas estamos muito, muito distantes, do humanismo e da cordialidade. Se olharmos para frente, porém, podemos acertar o passo e ver a tragédia de Realengo sem as lentes embaçadas da alienação presente.

Leitura recomendada
BLOCH, Ernest. O princípio esperança. Trad. Nélio Schneider. Rio de Janeiro: 2005, v.1.

Francisco Viana é jornalista, mestre em filosofia política pela PUC-SP, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)

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