Sergio Cabral: De Washington para a tragédia no Rio
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ARTIGO DA SEMANA

LIÇÕES A PESO DE OURO

Vitor Hugo Soares

Há poucos dias – quando ainda pensava e propagava, igual a tantos brasileiros adultos e “brasileirinhos”, que massacres em escolas, como os terremotos, eram tragédias impossíveis de acontecer no país tropical abençoado por Deus – estava na Argentina de tantos tremores e rumores, em manhã de 13 graus de temperatura e sol brilhante.

Realengo, naquele luminoso domingo portenho, lembrava apenas o simpático bairro carioca da letra do antológico samba “Aquele Abraço”, do baiano Gilberto Gil, composto na despedida do artista ao partir para o exílio em Londres. E o mundo naquela manhã, visto das margens do Rio da Prata, parecia uma quase completa maravilha.

Sentado em uma daquelas mesinhas de rua em frente ao Bar Dorrêgo olhava portenhos, ao lado de gente do mundo inteiro, passeando, comprando antiguidades preciosas, ou dançando tango na praça principal onde se realiza aos domingos a famosa feira do histórico bairro de Santelmo, em Buenos Aires.

Aproveitei a pausa entre “una copa de viño y otra” e a enésima audição do tango “Por una Cabeza”, de Gardel e Le Pera, para passar a vista rapidamente na edição dominical do jornal “Página 12” que havia comprado, num quiosque a caminho da mesa e do bom vinho do Dorrêgo.

E lá estava o Brasil presente na notícia do diário sobre a expectativa com que era aguardada uma palestra do ex-ocupante do Palácio do Planalto prevista para breve na importante província argentina de La Plata, “sobre como fazer uma crise com tamanho de tsunami nos Estados Unidos virar uma simples marolinha no maior país da América do Sul”.

Tomado de repente da virose de pessimismo e maledicência que outra vez grassa perigosa e predatoriamente em algumas áreas – principalmente em núcleos influentes da mídia e círculos intelectuais de classe média no País, antes mesmo do massacre da manhã de quinta-feira na escola pública do Rio de Janeiro – pensei: Lula parece que achou rapidamente um novo caminho para tocar e ganhar a vida de palestra em palestra.

Ou de conversa em conversa, para dar um tom mais informal e ritmo de samba brasileiro à questão. Em resumo, do jeitinho que o ex-presidente mais gosta e provavelmente pediu a Deus e aos orixás. “Pena que seu auditório vá ficar instalado na periferia do mundo, restrito aos manjados ouvintes brasileiros ou vizinhos da América do Sul – políticos e empresários principalmente”, foi o que imaginei de imediato naquela manhã portenha no bairro de Santelmo.

De volta ao Brasil, verifico através de fatos e imagens desta semana: o pensamento de alguns dias atrás corre o risco de estar redondamente equivocado. Em Washington, capital dos Estados Unidos, Luiz Inácio Lula da Silva estreou quarta-feira (véspera da tragédia brasileira em Realengo), o circuito de palestras internacionais que fará a partir de agora.

Na cidade emblemática das decisões políticas e econômicas mais importantes do mundo, Lula fez a palestra mais noticiada e concorrida do Fórum de Líderes do Setor Público da América Latina e Caribe, promovido pela Microsoft, de Bill Gates, poderoso empresário norte-americano, alvejado por severas críticas do palestrante em tempos recentes.

Lula foi convidado – e “pago a peso de ouro”, segundo a preocupação principal de seus críticos refletida nas pautas de boa parte da mídia nacional – para falar e dar lições sobre “como combater e vencer crises” a partir das ações que desenvolveu em diferentes áreas quando governava o Brasil.

Entre os participantes na conversa de Lula com gente grande e de poder nas Américas, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Este, retornou (ainda tonto e sem saber direito o que dizer e fazer) direto para o olho do furacão de uma das maiores tragédias brasileiras. Mas voltemos ao começo da conversa para evitar desvios no final.

Leio que depois da passagem por Washington, o ex-ocupante do Palácio do Planalto seguiu para o cinematográfico balneário de Acapulco, no México, para ser conferencista de destaque em encontro de endinheirados homens de negócios do setor financeiro internacional, também alvo de críticas do brasileiro no auge da crise dos Estado Unidos e de vários países europeus.

Na semana que vem o ex-presidente segue para o Reino Unido, que também namora com a crise há um bom tempo, sem achar saída. Em Londres vai falar igualmente para empresários. E assim, enquanto boa parte da mídia concentra baterias de pautas na especulação sobre quanto Lula ganha por cada uma de suas palestras, ele vai fazendo sucesso ao levar suas lições a qualquer lugar do mundo que quiser ouvir e puder pagar. Por volta de R$ 200 mil – segundo espalham alguns, tomados de mal disfarçada inveja. “A peso de ouro”, preferem murmurar alguns críticos e adversários de bico grande, sem adiantar cifras.

Seja como for, difícil não imaginar diante dos fatos (e dos boatos): o futuro próximo parece sorrir e prometer dias de Midas para o antigo retirante da seca do Nordeste, passageiro de caminhão pau-de-arara, depois ex-dirigente sindical da região paulista do ABC que alcançou o posto mais alto de poder pelo voto em seu país e que agora – exageradamente ou não – dá a impressão de querer escalar o topo do mundo.

Resultado a conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Manoel Luiz da Silva on 10 Abril, 2011 at 0:01 #

Lula é um brasileiro carismático nato, ou seja, seu carisma começou talvez quando ele tinha 40 ou pouco mais de idade. Isso fato dele apresentar esse carisma é um fato que nem ele quando jovem sabia que ia aparecer. Os estudiosos nsobre os carismáticos explicariam melhor.
Então, quando fluiu seu carisma, digamos de um modo forte, no sentido de liderança, empatia com o povo brasileiro, decisões importantes quando da crise mundial, por exemplo, ele fez tudo ao contrário do que os outros países fizeram, demonstrando, então, ter um poder carismático muito forte e decidido.
O impresionante é que a maioria dos carismático tanto do passado como do presente são pessoas que antes de apresentarem esse carisma, não fazem nada relevante. Há casos, por exemplo, do ex-presidente John Kennedy, que era quando jovem tenente da Marinha que lutou na segunda guerra mundial. Lula não tem curso superior de economia, não fala ingles, só tem o curso primário.
No entanto, dá lições aos lideres de outros países sobre a economia mundial e outros assuntos atuais.
Outro carismático, o ex-presidente Abrahão Lincoln, só tinha um simples curso de advogacia e quando jovem era lenhador e viajava, a pé, por longos quilometros, para estudar advogacia. No entanto, foi um dos melhores presidentes que os Estados Unidos já teve. Outro ex-presidente que vivia em cadeiras de rodas, na época da segunda guerra mundial, foi um herói e tanto, utilizando-se do seu carisma para vencer os inimigos do seu país.
Enfim, a meu ver, o carisma numa pessoa acontece quando ela tem 40 a 50 anos de idade e ela é uma pessoa simples, desconhecida, etc.


tattoo removal on 2 outubro, 2011 at 1:58 #

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