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Postado em 02-04-2011
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 02-04-2011 00:14


Em BH o povo se despede de Zé Alencar

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ARTIGO DA SEMANA

O peso da morte de Zé Alencar

Vitor Hugo Soares

“Há mortes que para um país e para a humanidade pesam menos que uma pluma. Há outras, porém, que pesam toneladas” (Mao Tsé-tung).

Atiradores de plantão podem pegar pedras no meio da rua – sempre existem alguns ao alcance da mão em obras inacabada por aí – para jogar. Apesar do risco, recorro à citação das palavras do ex-líder chinês Mao Tsé-Tung na abertura destas linhas por considerá-la a mais completa tradução de sentimentos político e humano diante da partida de José Alencar.

Cremado quinta-feira, em Belo Horizonte, o empresário e ex-presidente da República foi velado duas vezes (em Brasília e Minas) em meio a demonstrações de pesar e comoção raramente vistas no Brasil, principalmente na morte e enterro de homens públicos. Registre-se, por mais raro ainda, que os tributos partiram de todas as categorias sociais e começaram ainda no hospital paulista de onde saiu o corpo de Alencar.

No caso, segue mais apropriada e atual que nunca a frase que aprendi quando frequentava ao mesmo tempo as salas de aulas das faculdades de Direito e de Jornalismo na ardente Universidade Federal da Bahia nos agitados dias dos anos 70.

A UFBA era então um emblema. Reduto de saber, ensino de qualidade e de resistência contra a ditadura que se implantava no País. Movimento que na origem unia militares e civis, se prolongaria por 21 anos até a redemocratização, mas cujas marcas que remetem à disseminação do medo e da intolerância seguem latentes, a deduzir pelos zumbidos em círculos militares nos últimos dias e as declarações de um de seus principais porta-vozes atuais, o deputado Jair Bolsonaro.

Quando li a citação pela primeira vez, o “livrinho vermelho do presidente Mao” ainda não havia sido “renegado” pelas “massas”, nem “caído em desgraça” nos círculos de comandos das “esquerdas”. Ao contrário, era sucesso total de vendas e de público no mundo inteiro: de Salvador a Paris; de Buenos Aires a Marrakesh; de Roma a Bagdá, de Londres a Tóquio. Únicas exceções: Moscou e Havana, onde a simples posse do livrinho podia dar em expulsão do Partido, cadeia ou desgraça política.

“Mas isso é passado, coisa de saudosista”, dirão os politicamente corretos de hoje. Não discuto, apenas confesso: foi no livrinho que pensei primeiro, desde o momento em que, no começo da tarde de terça-feira, vi na TV a imagem daquele médico do Hospital Sírio Libanês em visível esforço para não cair em prantos.

Desolado, dizia aos jornalistas que o cercavam ansiosos por uma notícia de nova reação do bravo paciente: “Ele está sedado, sem sofrimento, prestes a descansar”. E o doutor saiu apressado da frente das câmeras, provavelmente em busca de um lugar reservado para liberar a sensação de pesar que mexia com os sentimentos do experiente profissional da medicina. Sim, era o desfecho de uma situação previsível e natural, mas difícil de aceitar no caso de José Alencar, até para o especialista.

Em Brasília, a presidente Dilma Rousseff, comovida também, mas solene e impávida em público diante do corpo velado no Palácio do Planalto. Ao lado, o ex-presidente Lula é a outra face do mesmo sentimento: ao retornar da viagem de tributos em Portugal e ver pela primeira vez o corpo inerte do “companheiro Zé Alencar”, cai em pranto solto, assoado na manga do paletó. Em Belo Horizonte, na rua próxima ao Palácio da Liberdade, a típica mulher do povo de Minas, cabelos embranquecidos, chora como dezenas de outros cidadãos anônimos com as mãos no rosto.

Tive apenas uma experiência profissional e pessoal mais próxima de José Alencar, mas suficiente para entender todo o pesar nacional com a sua partida. Foi na Bahia, dia 12 de setembro de 2002. Já narrei o episódio marcante em outros textos, mas não custa resumi-lo aqui, por oportuno e referencial.

Fervia a arrancada final e decisiva da campanha que desaguaria na inédita escolha no Brasil de um torneiro mecânico, ex-dirigente sindical do ABC, ao Palácio do Planalto. “Naquele dia, um temporal, assustador ameaçava afogar Salvador, enquanto se aproximava uma noite daquelas em que o melhor a fazer era ficar em casa ou ao abrigo de um hotel, mesmo sendo um político à cata de votos em encardido embate presidencial. Pegar avião nem pensar, ainda mais se a pessoa ardia com febre de mais de 38 graus, e estava com a garganta estropiada por uma faringite agravada pelo excesso de uso das cordas vocais em comícios sucessivos país afora”, escrevi então.

Era esta exatamente a situação de Alencar, bem sucedido empresário – dono da Coteminas, campeã do ramo têxtil no País -, ao chegar à sede da Associação Comercial da Bahia – mais antiga e das mais conservadoras entidades de empresários da América Latina – para uma palestra com o objetivo de derrubar na terra de Antonio Carlos Magalhães, “resistências ainda fortes na elite empresarial do Nordeste, quanto a apoiar o barbudo sindicalista do PT para ocupar o mais alto posto de comando da Nação”.

Lembro bem: na cidade já corria o boato de que Zé Alencar não iria mais ao encontro na ACB: “Foi para a cama”, espalhavam adversários, com ar de troça. Puro engano, como uma figura saída de livro de Guimarães Rosa, o mineiro vestido em terno de linho branco, “garganta quase tapada, rouco e ardendo de febre, chegou debaixo do toró, falou sem parar durante uma hora e meia e levou mais de 40 minutos respondendo a perguntas dos desconfiados homens de negócios da Bahia.”

Na manhã do dia seguinte, o candidato a vice pegou o avião empanturrado de antitérmicos e foi encerrar a campanha presidencial em conversas com mais empresários em Itabuna e Vitória da Conquista. O resultado é o que todos conhecem. Uma morte com peso de toneladas, portanto.

Difícil esquecer ou não sentir pesar pela partida de uma figura assim tão rara, quanto Zé Alencar.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 2 Abril, 2011 at 6:40 #

Caro VHS

Quando o olhar pleno de humanidade comete uma pequena injustiça:

Tudo bem que a morte de Alencar foi um êxito midiático, tanto quanto a sua extensa luta contra a enfermidade que o acometeu.

Mas…

Daí afirmar que: “Atiradores de plantão podem pegar pedras no meio da rua – sempre existem alguns ao alcance da mão em obras inacabada por aí – para jogar.”

É no mínimo distorcer realidades.

Quem foi o político tardio José Alencar?

Senador por Minas, em uma única eleição, sem que reste de sua breve passagem pelo Senado algum feito de relevância, a não ser, o de lançar-se, sem nenhum risco, diga-se de passagem, posto que lhe restavam confortáveis 4 anos de mandato, à vice-presidência, ao lado de Lula, numa das eficientes maquiagens que o lider sindical produziu, a outra foi a famosa “Carta aos Brasileiros”, a explícita rendição ao Sistema Financeiro.

Resta, a luta contra a doença, e aqui funda-se, e entende-se a comoção nacional, até pela simples razão que o destino dos homens comuns, do povo, ao serem acometidos pelo mesmo mal, é outro, distinto, em que as forças as esperanças,esvaem-se nos corredores dos hospitais públicos.

Assim caro VHS, mesmo percebendo a necessidade midiática do fabrico de heróis, mesmo assim, ficam, o espanto, e a tristeza de assistir o engarrafamento das emoções ao sabor dos interesses nem tão difusos.

Abraços!!!

Tim tim, sendo que pedras, neste comentário, são apenas as de gelo imersas em puro malte.


vitor on 2 Abril, 2011 at 10:01 #

Poeta

Pedras de gelo devidamente recolhidas e acondicionadas para a utilização propícia logo mais, resta uma observação. A preocupação com as pedradas é pela citação do presidente Mao e seu livrinho vermelho, uma leitura da juventude nos anos 70, hoje escondida a sete chaves por muita gente.

Quanto a Zé Alencar, na parte que me toca , é uma opinião e a vontade pessoal e profissional de relatar uma experiência concreta, vivida em Salvador, para mim até hoje marcante e reveladora sobre a personalidade do falecido mineiro. Acato suas considerações e sigo com a admiração aos dois: ao poeta Luiz Fontana e à figura humana extraordinária (até mesmo pelos erros) do brasileiro de Minas, Zé Alencar.

TIM TIM!!!

Vitor Hugo


Mariana Soares on 2 Abril, 2011 at 11:30 #

Da minha parte, atiro flores a você e a este belo artigo, meu irmão!Assim como me associo as pedras de gelo no malte indicadas pelo nosso querido Poeta, não obstante ser mais uma fã, e ardorosa, desse inesquecivel Zé Brasileiro Alencar.
Você Hugo, como poucos, sabe transitar, com sensibilidade e verdade, entre os fatos da vida, inclusive este tão comum e, ao mesmo tempo, tão dificil de digerir, como a morte, e os fatos políticos, tanto quanto queridos para você.
Esta semana, presa em casa, sem poder me movimentar direito, em decorrência de um pequeno acidente de percurso, onde tive um estiramento nos ligamentos do meu joelho, acompanhei pela televisão, quase sempre em lágrimas, a partida desse homem, que tantas vezes me emocionou, não somente pela sua garra e luta pela vida, mas principalmente pela forma como sempre se portou diante de tantas adversidades, com alegria, bom humor e perseverança.
Pensei na minha dor e o quanto fiquei chateada por estar imobilizada por uma semana, nas dificuldades de não ter uma pessoa da familia por perto, embora estivesse rodeada por amigos queridos, que nada me deixaram faltar, e constantei, mais uma vez, a grandiosidade do exemplo do Zé Alencar, que enfrentando dificuldades infinitamente maiores que a minha, jamais titubiou ou mostrou fraqueza, como eu, achando que a minha dor era insuportável, como relatei ao doce médico que me atendeu.
Este é o grande exemplo que Zé Alencar nos deixa, o de que, independentemente do tamanho do problema, não devemos nos acovardar, mas, sim, enfrentar, com alegria, bom humor, garra, dignidade e destemor.
Todas as minhas honras a este grande homem, que nos deixa a todos uma lição de luta e humanidade.
Parabéns, meu irmão pelo belíssimo artgo!
Ao Zé Alencar, que descanse em paz, pois aqui na terra você já fez muito por tantos, legando, em vida, esperança e força aos que sofrem e lutam desesperadamente contra o cancer, esta terrível doença, que já tirou tantos de tantos, inclusive meu pai e minha mãe.


Graça Azevedo on 2 Abril, 2011 at 20:10 #

Zé Alencar era um verdadeiro ser humano: acertos e erro; mas, no somar e subtrair restou um legado de seriedade e ética, produtos raros neste mundo político.
um abraço VH, sempre coerente.


Olivia on 3 Abril, 2011 at 12:43 #

Faltou uma pessoa nas despedidas de José Alencar: Sua filha não reconhecida, muito decepcionante a atitude dele e de seus familiares!


Mariana Soares on 3 Abril, 2011 at 16:41 #

A suposta filha dele já foi reconhecida automaticamente com a negativa dele em fazer o exame de DNA, esta foi a sentença do juiz de primeira instancia para o caso em voga. Ela é sua herdeira, se este é o ponto. Resta, agora, uma duvida – se este Ze fosse mais um ninguem,como tantos, sera que esta suposta filha faria mesmo questão de ser reconhecida…


luiz alfredo motta fontana on 3 Abril, 2011 at 16:55 #

Cara Mariana

Surprende este seu comentário, não combina com sua habitual postura e meiguice.

Acredite, mesmo que sua intenção seja a de poupar Alencar, a filha não merece este descrédito, não vamos inverter polos e transformar vítimas em algozes.

Abraços!


Mariana Soares on 3 Abril, 2011 at 17:21 #

Caro Poeta, me perdoe se o decepciono com a minha opinião sobre este caso. Mas, acredite, não sei realmente quem é o algoz neste caso.
Grande abraço,
Mariana


luiz alfredo motta fontana on 3 Abril, 2011 at 17:37 #

Cara Mariana

Eu, de meu lado, desconheço qualquer detalhe, tanto que jamais toquei no “affair”.

Assim, confesso que figorou “estridente” seu comentário, destoando de sua reconhecida meiguice.

Embora até entenda, defender Alencar como “herói nacional” é tarefa que certamente pode causar excessos e deslizes.


Olivia on 4 Abril, 2011 at 15:49 #

O peso da morte de Zé Alencar, artigo magistral que indico a todos, obrigatório: http://bit.ly/hhFWUW


Olivia on 4 Abril, 2011 at 17:03 #

Olá, amigos, desculpas, coloquei o link do artigo de Vitor Hugo, tb muito legal. Agora segue o link do artigo que quero dividir com vocês: http://migre.me/4aQAy


Marco Lino on 5 Abril, 2011 at 6:50 #

Há um oceano entre Alencar e Mitterand. Atlântico, aliás, que tb separa o nosso Niemeyer do Le Pen…

Concepções de mundo diferentes.

Se bem que com todo o seu conservadorismo de interiorano mineiro/brasileiro, Alencar está (ou esteve) anos-luz à frente do Le Pen.

O arquétipo de homem perfeito é, ao que parece, apenas uma miragem dos trópicos (ou dos pólos).

Justas as homenagens.


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