mar
19
Postado em 19-03-2011
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 19-03-2011 00:02


Luto de Cristina: dor ou marketing eleitoral?
=================================================
ARTIGO DA SEMANA

POLÍTICA, CULTURA E POLÊMICA EM BUENOS AIRES

Vitor Hugo Soares

Caminhar por Buenos Aires, como fiz estes últimos dias, é respirar política, cultura e polêmica o tempo inteiro. Sempre a vi assim e segue sendo assim nesta luminosa e enigmática cidade da América do Sul a que retorno periodicamente. Enfeitiçado desde que, oriundo das barrancas baianas do Rio São Francisco, pisei nas margens do Rio da Prata pela primeira vez, há mais de 30 anos.

Primeira surpresa: de volta ao hotel depois de um passeio de reconhecimento do terreno, dentro de um táxi amarelo e preto, marca registrada do lugar, o motorista de meia idade faz ansioso ao passageiro brasileiro curioso sobre a política local, perguntas improváveis de serem feitas por um portenho até bem pouco tempo: “Como vai Lula? Por onde anda? Será que ele vem dar uma ajuda na campanha de reeleição da presidenta Cristina este ano?”.

O politizado motorista fala, evidentemente, da presidente da República, Cristina Fernandez de Kirchner, viúva do ex-presidente e ex-senador justicialista, Nestor Kirchner, que antes de sofrer o ataque traiçoeiro do coração que o matou recentemente, fincou as bases de uma tendência claramente em ascensão na Argentina destes dias: o kirchenismo. O fenômeno , uma espécie mais moderna e envernizada do peronismo sem Perón e Evita, bem à moda da família Kirchner, é reconhecido por adeptos governistas e adversários. E o jornalista o confirma a cada passo.

Na capa da última edição de “Notícias”, por exemplo, a principal revista semanal da Argentina, vê-se a impactante imagem (jornalisticamente falando) de uma espécie de esfinge de Cristina toda vestida de negro, ao fundo de um bordado de pequenas fotografias da presidente em vestimentas de luto.

“140 dias vestida de negro: El Extraño luto de Cristina”, assinala a revista na manchete de sua reportagem principal. “O uso eleitoral da dor. Os dilemas íntimos de uma viuvez prematura. O vestuário de Olivos (a residência presidencial). Plano taliban para a presidência eterna e a operação midiática do “Já Ganhou” – completa Notícias, com evidente desconforto e azedume, a sua chamada para o texto informativo, analítico, dramático e seguramente destinado a polêmicas, como é do gosto argentino.

Segundo a revista, o uso eleitoral do luto presidencial é o mínimo que pode fazer o kirchenismo para vencer a batalha eleitoral de outubro que vem. “A bateria de operações está em marcha. Uma pesquisa da consultoria Aresco, de Julio Aurélio, convenientemente amplificada pela mídia oficialista, não só tentou demonstrar que Cristina está em condições de ganhar no primeiro turno – sua intenção de votos , projetando indecisos, superaria a marca dos 50% – mas também que ela estaria largando com vantagem abissal sobre seu principal competidor, Maurício Macri (governador da Província de Buenos Aires), líder do PRO (conservador), que segundo a surpreendente medição reuniria apenas 14% das intenções de voto e estaria acima de Eduardo Duhalde e Ricardo Alfonsin, ambos patinando ao redor de 10%.”, revela Notícias.

Instigante começo de uma campanha que já saiu dos gabinetes dos políticos e dos marqueteiros, para ganhar as ruas de Buenos Aires, este ano em que os argentinos viverão votando, como registra um tablóide local. 2011 apresenta-se como um largo ano eleitoral, cuja arrancada foi dada domingo passado , com as eleições municipais em Catamarca, e se concluirá em 23 de outubro, quando se elegerão o presidente da República e o vice para os próximos quatro anos.

De volta ao começo. Diante da questão inesperada do taxista sobre Lula, a memória do ex-repórter da sucursal do Jornal do Brasil na Bahia nos anos 70, (que a exemplo do saudoso jornal impresso nem existe mais), voa de retorno ao tempo da primeira visita à capital portenha.

Então o Brasil vivia seu período mais brutal de ditadura, sob o mando do general Garrastazu Médici: um país fechado não só para seus vizinhos do continente, mas também para o resto do mundo democrático. Envolto no manto do chamado “milagre brasileiro” operado na economia por Delfim Neto e cantado em verso e prosa por seus arautos. Alguns deles ainda cantam de galo por aí, com poder no Congresso e muito prestígio no governo federal.

A Argentina daquela época, ao contrário, fervilhava de democracia. Os filmes censurados por aqui, lá eram exibidos com foco de luz néon sobre os cartazes nos inumeráveis cinemas da Lavalle e Corrientes. Os livros proibidos por cá, eram vendidos fartamente, a preço de banana, na cidade invejável para o visitante também pela fama de ter mais livraria que o Brasil inteiro.

Na política, a vibrante efervescência que tomava conta das imensas avenidas em diagonal, ruas, praças, bares, cafés e recintos públicos, na campanha eleitoral que antecipava o retorno do exílio na Espanha de Juan Domingos Peron. Os bumbos ensurdecedores no primeiro comício de Hector Campora em Santo Andrés de Gilles, com Isabelita , que voltou antes do marido, no palanque.Os grafites nas paredes de Buenos Aires convocando no provocativo estilo portenho da época: “Vuelva, Peron. Somos machos, e somos muchos”.

No outro lado, as manifestações do candidato da União Cívica Radical, Raul Alfonsin, mais densas em conteúdo dos discursos, mas não menos intensas em vibração popular, a começar pelo hino de guerra da campanha de Alfonsin, que se cantava nas ruas de Buenos na época: “Oh, luche, luche, luche/ No dejes de luchar/ Por um govierno obrero, obrero e popular”. Depois, lá e cá, vieram os terremotos, as tempestades, os desastres e a fratura irreparável de sonhos políticos e utopias existenciais. Não há espaço para dizer mais nessas linhas.

A não ser para o registro amoroso de que Buenos Aires segue linda como sempre: feiticeira, política, intensa, culta e polêmica, como nos velhos tangos ou nas páginas dos livros de Borges e Cortázar. Vale a pena ir lá. E conferir de perto.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

Carlos Volney on 19 Março, 2011 at 20:28 #

Caro Vitor Hugo, dizer do brilhantismo de seu artigo é lugar-comum, bem o sei. Você está sempre a se superar. Mas não posso deixar de registrar, o penúltimo parágrafo de sua lúcida análise acima é dessas coisas de arrepiar – basta que lembremos só um pouco da história recente.
Grande abraço.


Marco Lino on 20 Março, 2011 at 2:54 #

Assistindo a uma elite(?) cada vez mais ignorante e amante de Miami, dá um gosto danado saber que certo sentimento de latinidade permanece em alguns.


Argentina on 3 agosto, 2011 at 14:27 #

Obrigada por escrever um artigo com muito respeito. Abraço!!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • Março 2011
    S T Q Q S S D
    « fev   abr »
     123456
    78910111213
    14151617181920
    21222324252627
    28293031