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Postado em 09-03-2011
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 09-03-2011 08:57

OPINIAO POLITICA
Para começar a Quaresma

Ivan de Carvalho
.

Estava eu emergindo à força das exigências carnavalescas, para mim já bem pesadas, com o objetivo de procurar um assunto que pudesse reiniciar a rotina de um repórter de política. Mas para ser lido numa quarta-feira de Cinzas, dia em que os leitores foliões – e são eles uma alta percentagem do total – dividem suas atenções entre a ressaca, as saudades da festa e até, em casos que creio sejam bem mais raros, o arrependimento pelos excessos que podem prejudicar o corpo ou a alma.

Buscava, assim, assuntos leves, que não acrescentassem severidade ao já severo por natureza início da Quaresma. Li em algum lugar, por exemplo, que a linha 4 do metrô carioca – que, em função das Olimpíadas de 2016, ligará Ipanema, bairro da zona Sul do Rio à Barra, na zona Norte, complicou: a altura dos trens, já comprados, impedirá que passem pelos três túneis do trajeto. O Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, que critica o projeto e seu alto custo, estuda o problema. Não é um “assunto leve”, pelo peso que terá no bolso dos contribuintes, mas é uma curtição.

Senti uma forte impressão de déjà vu. Já pudemos curtir algo semelhante aqui em Salvador. Lembrei da impressionante capacidade de observação do ex-governador baiano Octávio Mangabeira. Ele garantia: “Pense um absurdo qualquer. Na Bahia tem precedente”. Pois é, ele morreu faz tempo, sua constatação continua atual. Talvez seja imortal.

Outra pessoa de quem me lembrei, não tão importante quanto Octávio Mangabeira, mas que em compensação ainda não morreu, pelo contrário, está vivíssima, foi o líder do governo na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccareza, do PT paulista. Se aquela história de Rei Momo estivesse ainda dando ibope, o Vaccareza certamente poderia reivindicar, com absoluto êxito, o título e o trono.

Afinal, ele sugeriu que estará bem empregado o dinheiro da Bolsa Família se o chefe da família beneficiária pegar a grana que sai do bolso de quase todos os brasileiros para ajudar os mais pobres entre eles (e são tantos, esses mais pobres do que os numerosíssimos pobres) se for empregado na compra de cachaça. Sustenta o líder do governo que isso ajudaria a economia brasileira, mas, como notou o blog Gama Livre, o potencial do conselho era bem mais o de resultar numa “bebedeira geral neste carnaval”.

Talvez, ao contrário do que na semana passada acreditei haver demonstrado neste espaço, o mal não seja tanto a cachaça, apesar dos seus “efeitos colaterais” pessoais, sociais e econômicos. Afinal, Jesus ensinou que “o mal não é o que entra pela boca do homem, mas o que sai da boca do homem”. Se Ele quisesse individualizar a crítica – o que não era do seu estilo nem da sua natureza – poderia ter dito “da boca do Vaccareza”.

É verdade que o Vaccareza ainda não estava disponível, mas Jesus sabia de coisas futuras, sabia que ele nasceria um dia, seria eleito deputado no Brasil e se tornaria líder do governo Dilma Rousseff, quando daria ao povo “abaixo da linha da pobreza” conselhos sobre como gastar o dinheiro do Bolsa Família comprando cachaça e “ajudar a economia”.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 9 Março, 2011 at 16:38 #

Caro Ivan de Carvalho

Talvez seja o cansaço, talvez seja a alegria que perdi em algum caranaval passado, talvez seja apenas o tédio…….

Mas….

Nesta quarta de cinzas, o que resta é o enfadonho bloco dos “Meninos do Copom”, e a mesma marcha, quase fúnebre, marcando o ritmo do sangramento dos cofres públicos, via juros além de qualquer fantasia.

Vaccarezas, Dilmas, lideranças baianas, ou não, nada podem, ou nada fazem, apenas fingem não perceber a sangria.

Ironia, é que esta marcha começou quando Itamar, o do “fusca”, em um arroubo senil, aprovou o óbvio, ou seja, economia é ciência, certas regras são óbvias, e deu luz verde ao “real”.

Acabou ali mesmo, os alquimistas da época enriqueceram ao manobrar o câmbio, brincando de real forte contra o dólar maldito.

Depois veio FHC e sua retórica barroca, anos de tédio e falta de graça.

Lula, por sua vez, rendeu-se em carta aos brasileiros, que todos falam, e ninguém leu, ao menos ninguém leu em voz alta as entrelinhas.

E aqui estamos, sob Dilma, a que nunca teria sido, caso não existisse um cansaço e um marasmo de proporções gigantescas.

Continuaremos assim, modernos na teoria, e medievais na submissão ao tal mercado financeiro.

Confesso, a ressaca já é para mim um fardo formidável.

Embora guarde em algum verso, o encantamento do primeiro trago.

Abraços!!!

Quem sabe um dia veremos no Fantástico, ou na Ana Maria Braga, ou até mesmo na Hebe Camargo, uma entrevista com algum destes célebres, porém desconhecidos “Meninos do Copom”.

Tim Tim!


Carlos Volney on 9 Março, 2011 at 19:54 #

Genial o artigo do Ivan de Carvalho e não menos brilhante o comentário do poeta Fontana. Mesmo consciente da minha insignificância, associo-me aos dois.
Só uma coisa, caro Ivan. A Barra da Tijuca fica no lado oeste do querido e inigualavelmente lindo Rio de Janeiro. Imitando o poeta, Tim, Tim.


Ivan de Carvalho on 11 Março, 2011 at 20:17 #

Pois é, Volney. Já estive na Barra da Tijuca, mas isso foi há muito tempo e não estava preocupado, como visitante da cidade, em saber em qual região estava (está) a Barra. Aí li isso de “Barra, na Zona Norte”, numa matéria sobre os tais trens crescidinhos e não fui consultar um mapa. Talvez devesse: repórter tem que apurar…
Abraço


Carlos Volney on 13 Março, 2011 at 0:49 #

Caro Ivan, estive fora, por isso só agora o agradecimento por sua atenção.
Que fique claro que o que quis foi só fazer uma homenagem ao Rio de Janeiro, nunca demais cantado e decantado. De resto, norte e oeste são contíguos, separados apenas por meros 90 gráus.
Mas que bom que você levou na esportiva. Por fim, sou sempre seu admirador. Grande abraço.


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