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CRÔNICA/MOVIMENTOS

A volta do Carnaval na praça

Janio Ferreira Soares

Assim como acontece no Natal e no São João, quando as velhas canções de Roberto e os forrós de Luiz Gonzaga me levam a parques e ruas que não existem mais, no Carnaval os frevos de Moraes Moreira e Armandinho fazem a festa no meu interior. A diferença é que agora não preciso mais dos frenéticos passos que os acordes exigem, já que também faço parte daqueles que balançavam o chão da praça vestidos de mortalhas e macacões Lee – com os bolsos cheios de vapor barato -, e hoje preferem passar a folia numa boa, bebendo um vinhozinho entremeado por ansiolíticos matinais e antiácidos noturnos, reflexo dos molejos e solfejos de outrora.
A propósito, não sei se pela distância ou pelo alheamento, ainda não percebi nenhum dos inéditos movimentos pélvicos que costumam invadir Salvador nestes dias momescos. Pelo andar do trio, o grande sucesso deste Carnaval deverá ser mesmo Minha Mulher Não Deixa Não, que Ivete, com o seu incomparável estilo da baiana-porreta-que-pode-falar-o-que-quiser-que-ninguém-liga, é bem capaz de oferecê-la ao prefeito João Henrique.
No mais, Bell e Durval continuarão tirando milhares de pés endinheirados do chão, Daniela prosseguirá com suas inovações artísticas que eu não compreendo muito bem, enquanto Claudia Leite fará de um tudo para mostrar ao mundo que é a fiel depositária dos trejeitos e das curvas que até outro dia demarcavam a silhueta de Ivete, muito embora La Sangalo as esteja reconquistando na tora.
Pra terminar, leio nos jornais que este ano teremos a volta do encontro de trios. Para os mais novos, um parêntese. No tempo em que cordeiro era apenas aquele que tira os pecados do mundo, os trios seguiam livres para a Praça Castro Alves onde acontecia o “gran finale” da festa com sensacionais duetos improvisados, tudo sob a guarda da mão do poeta. Agora, mesmo encabeçado pelo velho baiano Moraes Moreira, temo por essa tentativa de ressurreição patrocinada. Lembre-se de que Woodstock foi o que foi porque não tinha nenhum banner de banco atrás de Hendrix. Um bom Carnaval a todos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco

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