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OPINIÃO POLÍTICA

A ovelha negra

Ivan de Carvalho

A rebelião ou revolução na Líbia vem tomando um caráter diferente e muito mais perigoso que nos demais países árabes, destacadamente a Tunísia e o Egito, onde mobilizações populares conseguiram levar forçar a queda ou renúncia de dois presidentes que governavam com poderes de ditadores há décadas.

Nos países árabes onde esses movimentos surgiram com mais força, tudo pareceu uma espécie de festa cívica, ainda que com resultados políticos decisivos. As grandes manifestações na Praça Tahrir, no Cairo, foram o mais notório exemplo disso.

Mas na Tunísia e no Egito havia estrutura estatal e da sociedade suficientes para assumir o poder imediatamente após a queda de seus presidentes-ditadores. E havia exércitos organizados, que não se desintegraram e também não massacraram os rebeldes e muito menos a população em geral. Exemplo mais evidente disso é que no Egito o Exército, por seu comando, assumiu ostensivamente o poder, em cujo núcleo incluiu também o presidente da Corte Suprema.

Agora, tanto no Egito quanto na Tunísia, os novos tutores desses países prometem se manter no poder apenas durante um período de transição, que terminará com eleições próximas e a posse dos eleitos para exercerem o poder dentro de parâmetros democráticos. Na teoria, e tendo em consideração as circunstâncias, trata-se de um plano perfeitamente aceitável tanto para a democracia em termos mundiais quanto para os povos do Egito e da Tunísia.

Vários outros países, a exemplo de Bahrein, Iêmen, Argélia, Marrocos, Jordânia e mesmo a extremamente estratégica Arábia Saudita responderam a manifestações populares mais ou menos amplas (modestíssimas em alguns casos, como na Arábia Saudita e na Jordânia) com promessas de reformas políticas e econômicas, o que parece ter aquietado, ao menos momentaneamente, uma grande parte (não todos) dos manifestantes.

Mas havia que se apresentar a ovelha negra e a ovelha negra é a Líbia. Ontem, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, disse que o governo americano teme que a Líbia mergulhe no caos e se torne, como a Somália, um “refúgio” para a Al-Qaeda. Um refúgio, aí, significa não somente um lugar para terroristas da organização de Bin Laden se esconderem, mas um país-base, como antes foi o Afeganistão dos Talebãs. Apenas, tendo em vista as lições do passado recente, uma base menos ostensiva.

Hillary tem razão. E têm razão todos os que vêm advertindo para a hipótese de que a situação na Líbia acabe levando a uma guerra civil entre oponentes severamente espatifados, o que naturalmente pode gerar a situação de caos a que se referiu a secretária de Estado dos EUA. Na Tunísia e no Egito, as manifestações contra o regime foram pacíficas e inicialmente apenas combatidas moderadamente por forças policiais. O Exército, nos dois países, se conteve e, na sequência, até forçou a saída dos dois ditadores.

Na Líbia, porque houve reação violenta do regime de Gaddafi (há uma dez maneiras supostamente corretas de escrever este nome em idiomas não árabes) contra as manifestações e porque os instrumentos de comunicação e expressão foram quase totalmente suprimidos, grupos armados rebeldes logo apareceram. No momento, pedem socorro na forma de um ataque aéreo estrangeiro a forças de Gaddafi. Mas a Rússia e a China, que têm o direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, são contra qualquer tipo de ação militar.

E preparam assim, os dois lados dentro do país, e a geopolítica das potências, os elementos necessários ao pior cenário. Ali, na Líbia, a ovelha negra da “primavera árabe” está tentando botar o rebanho a perder.

E com boas chances de êxito.

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