Semana que vem Dilma vai falar na Bahia …
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…para clientela do Bolsa Família
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ARTIGO DA SEMANA

VISITA AO ANDAR DE BAIXO

Vitor Hugo Soares

Na terça-feira que vem desembarca na Bahia, em sua primeira visita oficial ao estado depois da posse, a presidente Dilma Rousseff – ou presidenta para quem preferir, sem querer jogar mais fogo na fogueira de vaidades linguísticas que cerca o assunto desde antes de receber a faixa, em 1º de janeiro deste complicado e intrigante 2011.

A expectativa é de que Dilma trará um saco de guloseimas para adoçar a boca dos habitantes do andar de baixo, a começar pelo anúncio do novo teto do pagamento do programa Bolsa Família, pedra de toque do governo na área social, apontado como crucial para a ascensão de uma mulher pela primeira vez ao posto mais elevado da Nação.

Pela programação oficial, a presidente descerá na capital para uma cerimônia de inauguração ao lado do governador Jaques Wagner (PT) e aliados. Seu destino principal, no entanto, é a cidade de Irecê, a pouco menos de 500 quilômetros de Salvador, em pleno sertão baiano.

Dilma pisará o solo de uma região emblemática de contrastes e confrontos da política e da economia no Nordeste: dos jogos mais pesados e rasteiros de poder nos períodos de chuvas ou de secas; do mandonismo aberto no tempo dos antigos coronéis e chefes políticos , das pressões e tentativas de amedrontamento feitas pelos mandantes atuais, que seguem ameaçando e tentando intimidar os que se opõem, opinam ou simplesmente informam sobre desmandos éticos, políticos ou mazelas administrativas dos poderosos da vez.

É bem o caso das pressões levadas a efeito há duas semanas pelo prefeito petista do município, que, de dentro de um hospital da cidade, ameaçava por telefone um radialista. Este, no ar, apresentava um programa de notícias e comentários de grande audiência na região, e deu informações concretas sobre o abandono do hospital público e dos programas e atendimentos de saúde em Irecê.

As ameaças do prefeito petista ao radialista para que lhe fosse revelada a fonte da informação colhida no hospital caiu na web, graças a um vídeo postado no You Tube. O elevado número de acesso acabou dando ao fato repercussão estadual e nacional na semana passada. E ainda causa tremores e muito desconforto em arraiais do PT às vésperas da visita da presidente Dilma.

A chegada da presidente (a) no Estado e na cidade governados por seu partido, está programada para acontecer exatamente dois meses depois de receber a faixa de comando do País. Dias depois de obter do Congresso sem muita conversa a aprovação do salário mínimo de R$ 545, ao mesmo tempo em que faz acenos de máxima austeridade nos gastos públicos, independência na política externa, defesa plena da liberdade de expressão e de imprensa, tudo envolto em discursos e acenos simpáticos e de linguagem agradável aos ouvidos dos habitantes do andar de cima.

Não só no âmbito da frágil e desconectada oposição, mas principalmente em setores mais nervosos e preocupados da aliança governista, já há quem enxergue semelhanças com a personagem de uma narrativa fantástica do argentino Julio Cortázar, incluída no livro “História de Cronópios e Famas”: a membro da família que tinha medo de cair de costas.

“Há anos que a família luta para curá-la da obsessão, mas chegou a hora de confessar nosso fracasso. Por mais que nos esforcemos, a tia tem medo de cair de costas; e sua inocente mania nos afeta a todos, a começar por meu pai que a acompanha fraternalmente a toda parte e vai olhando o chão para que a tia possa andar despreocupada, enquanto minha mãe se esmera em varrer o pátio várias vezes por dia, minhas irmãs apanham as bolas de tênis com que se divertem inocentemente no terraço, e meus primos apagam todos os rastos atribuídos aos cachorros, gatos, tartarugas e galinhas que proliferam lá em casa. Mas de nada adianta, a tia só resolve atravessar os quartos depois de prolongada vacilação, intermináveis observações oculares e palavras desaforadas a qualquer menino que passar por lá nesse momento”, escreve Cortazar em trecho marcante de sua narrativa impagável e exemplar.

Voltemos a Irecê, onde a presidente Dilma anuncia no dia 1º de março os novos valores para pagamento do Bolsa Família, em ato pensado para abrir as atividades relacionadas ao Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, e ao qual este ano o governo, por motivos óbvios, pretende emprestar relevância especial.

Dados do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome revelam que 93% dos usuários do cartão são mulheres. Por isso, o governo considera o programa crucial para melhorar a situação econômica das mulheres.

O Bolsa Família foi reajustado pela última vez em setembro de 2009. Os valores pagos hoje pelo programa variam de R$ 22 a R$ 220, dependendo da quantidade de filhos e da renda de cada família beneficiada. O valor médio pago pelo Bolsa Família é R$ 94. O valor do novo reajuste ainda não está definido. O martelo será batido em reunião da ministra de Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Tereza Campello, com Dilma Rousseff, antes da viagem para o anúncio oficial.

Olhos na Bahia, portanto, que na terça-feira Irecê – antigo bastião do carlismo no sertão, tomado agora pelo PT – vai ferver.
A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:
vitor_soares1@terra.com.br

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