fev
25
Postado em 25-02-2011
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 25-02-2011 18:10


Berlusconi:”acabou se dando mal”

=====================================================

DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

João Carlos Teixeira Gomes

Do Rio de Janeiro

A Itália é o país das maravilhas, dizia, no século XIX, o poeta Gonçalves de Magalhães, que amava as ruínas de Roma. Mas não é preciso ser poeta para concordar. Basta evocarmos o que, em termos de criação cultural, a Itália deu ao mundo desde que o Império Romano se espalhou por toda a Antiguidade Clássica.

Até o velho western nascido nos EUA ganhou uma feição “spaghetti” com as criações de Sérgio Leone, o italiano que consagrou o bang-bang com filmes magistrais como “Era uma vez no Oeste”, com a bela Claudia Cardinale. E com o mesmo pendor pelas palavras fortes e sonoras, outro italiano, um político senil, Berlusconi, criou também o que já se tornou internacionalmente conhecido como o “bunga bunga”, ou seja, as orgias sexuais do premier com belas jovens do seu vasto harém, ao qual não faltam menores de biquíni.

Só que Berlusconi, que às vezes parece herdeiro de Mussolini, acabou se dando mal. Pois não é que toda a Itália se uniu para exigir a renúncia do velho líder, que corre o risco de ser julgado por um tribunal de três circunspectas juízas? A imprensa noticiou que mais de um milhão de manifestantes encheram as ruas de várias cidades italianas exigindo a saída do D. Juan do Palácio Venezia. Dado surpreendente: não eram apenas mulheres a engrossar a massa dos iracundos. Muitos homens também lá estavam, a gritar em uníssono: “A Itália não é um bordel!”. Quem diria! Logo na Itália, cujos homens têm a fama de viver beliscando o traseiro das turistas nas ruas.

Berlusconi deve ter exagerado nas investidas galantes. Pois alguém já se esqueceu de que, ainda recentemente, um cidadão lhe atirou no rosto uma miniatura da catedral de Milão, partindo-lhe o nariz e vários dentes? Leio que as manifestantes recusam a pecha de “moralistas”, mas combatem o primeiro-ministro para “recuperar a identidade feminina esvaziada pela vulgarização”. Quer dizer, não estão contra o sexo, o que seria espantoso na Itália e num mundo de todas as permissividades, mas sim contra a banalização do sexo. Também contra o machismo enquistado no poder. Houve quem não perdesse o bom humor. Um grupo de mulheres levava um cartaz, dizendo: “Sílvio, calma, só temos inveja de não poder participar do bunga bunga!”.

Todas eram maduras, o que faz supor que não terão a menor chance: está patente que Sílvio tem clara preferência por franguinhas.

Em suma, ninguém se iluda com o poder de um grupo de mulheres decididas a acabar com os privilégios sexuais dos homens, investindo contra o que denominam de “o modelo político e cultural da linha machista e patriarcal”. Aliás, em todo o mundo e em todas as épocas, nunca se pôde duvidar do prestígio ou da imensa força das mulheres, sobretudo quando hábeis no uso da beleza ou da própria astúcia sexual. Quantas na história chegaram a derrubar governos, apear ministros, sujeitar reis e imperadores, não se furtando a recorrer ao poder das artimanhas do sexo para governar, reinar e impor sua vontade a monarcas e governantes transformados numa legião de mamulengos? É só conferir.

O mais curioso nessa história que envolve Berlusconi é que os protestos contra o bunga bunga não se limitaram à Itália, espalhando-se por Tóquio, Madri, Atenas, Amsterdã, Nova Iorque e até Honolulu! Não deixa de ser intrigante tal fenômeno, que poderia ser interpretado como uma súbita onda universal de moralismo, numa época que, em matéria de sexo e liberação dos costumes da alcova (ou fora dela) é difícil crer que ainda haja o que ocultar. Afinal, estão aí a internet, os blogs, as redes sociais, os chats, o cinema, a televisão, os big brothers da vida e toda a parafernália da comunicação social para bombardear dia e noite a sociedade com mensagens sexuais de todo o tipo, sem excluir o envolvimento publicitário maciço, a proclamar, enfaticamente, que fora do sexo não há salvação.

Em suma, toda essa odisséia envolvendo o incontrolável Berlusconi me faz lembrar a manchete da reportagem de uma revista nacional que, na década de 50, analisando as dificuldades do governo de então para controlar a crise da carne verde, simplesmente anunciou, com argúcia e sentido dúbio: “A carne é fraca, mas derruba governos”.
===================================================
João Carlos Teixeira Gomes é escritor, jornalista e membro da Academia de Letras da Bahia. É autor de “Gregório de Mattos, o Boca de Brasa”, “Glauber Rocha, esse vulcão”, “Memórias das Trevas” e “Assassinos da Liberdade”.

Be Sociable, Share!

Comentários

gilson on 26 Fevereiro, 2011 at 7:29 #

Joca, do Rio de Janeiro para o mundo, o velho Joca, sempre ele, brilhante, inigualável!!! Apareça, gigante!!! Grande abraço


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • Fevereiro 2011
    S T Q Q S S D
    « jan   mar »
     123456
    78910111213
    14151617181920
    21222324252627
    28