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Postado em 20-02-2011
Arquivado em (Crônica, Janio) por vitor em 20-02-2011 10:54


Usina de Paulo Afonso: poder de iluminar
e desligar as luzes do Nordeste
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CRÔNICA/LUZES

Apagão, Ronaldo e estrelas

Janio Ferreira Soares

Passava da meia noite de sexta-feira, 04 de fevereiro, quando as luzes de Paulo Afonso desapareceram. Pensando tratar-se de um problema local, imediatamente abri a janela para ver até onde ia a extensão do breu e calcular o tempo em que a turma da Coelba iria me devolver os compressores que abrandam minha insônia e climatizam meus medos. Porém, ao ver o complexo das usinas da Chesf completamente apagado, percebi que o problema era mais sério que uma simples canela arriada num transformador qualquer, o que foi logo confirmado por uma rádio pernambucana que anunciava todo o Nordeste às escuras, inclusive com algumas tentativas de saques a lojas de Recife. Como aqui é outra onda, coloquei meus óculos de avivar distâncias e fui para o quintal contemplar o lado bom do apagão.

Lembrando uma peneira gigante vazando luzes, lá estava o firmamento qual uma imensa concha acústica reverberando latidos distantes acompanhados de pios de corujas e ruídos de aviões mais além ainda, formando sons perfeitos para ouvidos que até há pouco eram torturados por um “valei-me Deus, é o fim do nosso amor”, mais gritado do que cantado vindo de um clube próximo. Aos poucos, mulher e filhos foram chegando e ficamos um bom tempo desplugados de telas e demais vícios eletrônicos, apenas curtindo os vagalumes, que lembravam pequenos leds diante da imensidão de estrelas e galáxias que quase nunca aparecem por conta dos clarões das cidades, mas que, assim como o outro lado da Lua, continuam lá.

A propósito, uma estrela de admirável grandeza felizmente percebeu que o hidrogênio que habitava seu núcleo rareava cada vez mais e, antes de virar uma simples nebulosa, decidiu não mais iluminar os gramados do mundo. Ronaldo, um dos maiores atacantes que eu já vi jogar, enfim foi vencido pelas dores e pela gravidade, e sabiamente antecipou o seu crepúsculo. Uma pena.

Voltando ao apagão, aqui mesmo neste espaço eu já alertei que se o governo não desse a devida atenção a Paulo Afonso a gente podia apertar um botão e desligar o Nordeste. Viu só o teste?
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Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo da cidade de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco, sede da CHESF, um dos maiores complexos hidrelétricos do País, responsável pelo abasstecimento de energia do Nordeste.

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