Ana de Holanda, Jaques Wagnee e Fátima(D)
com Mãe Stela no Axé Opô Afonjá
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ARTIGO DA SEMANA

ESSA MENINA VAI LONGE…

Vitor Hugo Soares

A receita é infalível. Desde que o jornalismo é jornalismo é assim: primeiro, encontre um repórter. Desses atentos até a neurose, com os cinco sentidos ligados em tudo que se passa ao seu redor e seja profissional decidido a transformar-se a qualquer momento em olhos, ouvidos e palavras dos que não sabem o que aconteceu, não veem o que se passou, e não têm onde contar o acontecido, como ensina Carlos Ferreira na entrevista do livro “Entre Periodistas”, do argentino Teódulo Dominguez.

Em seguida, é fundamental encontrar uma boa fonte: a primeira-dama da Bahia, Fátima Mendonça, por exemplo, não só disposta, mas tendo o que dizer. Esse é outro ingrediente essencial, pois o repórter, por melhor que seja – mesmo um Bob Fernandes, como no caso do prato em pauta – não faz nada sozinho.

Se a mistura for feita em Salvador, em um terreiro de santo do candomblé, então não tem erro: daí sairá um prato delicioso e picante, mesmo na temporada de verão, período em geral pobre e insosso, no qual o jornalismo local e nacional parece decidido a investir suas melhores fichas no exotismo ou nas proezas das “celebridades” da vez no Big Brother Brasil.

Foi isso, bem ou mal contado na introdução dessas linhas, o que aconteceu na capital baiana, no território sagrado do centenário terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, comandado pela venerada Mãe Stela, mais famosa ialorixá da Bahia desde a partida há décadas de Mãe Menininha do Gantois. Repórter e entrevistada se encontraram no cenário que fervilhava, pois alí se realizava a cerimônia de reinauguração das casas de Iemanjá e Oxalá, fato com força religiosa e política suficiente para mover até o estado natal dos ex-ministros da Cultura, Gilberto Gil e Juca Ferreira, a nova ministra Ana de Hollanda, que a petista Dilma Roussef escolheu para ocupar em seu governo o posto que foi dos verdes baianos nos anos Lula.

Presentes também ao ato marcado pelo sincretismo, o governador petista nascido e criado na religião judaica, Jaques Wagner, cinco deputados federais da bancada baiana na Câmara, a senadora socialista e ex-prefeita da capital Lídice da Mata (PSB), secretários de estado e dirigentes do Patrimônio Histórico. Gil e Juca , antigos frequentadores e reconhecidos defensores da transformação do terreiro de Mãe Stela em patrimônio cultural, não foram vistos da cerimônia.

Fora isso, saltava aos olhos de observadores mais atentos, entre estes Bob Fernandes, o burburinho em forma de frisson causado pela passagem da primeira-dama da Bahia no terreiro. “É a Maria de Fátima Mendonça, a Fatinha, que se dirigem filhos e filhas de santo, o ‘povo do candomblé’. Ela, de vestido branco no dia de Oxalá”, conta o editor-chefe de Terra Magazine, na apresentação da entrevista, ao falar das exortações à Fátima para que seja ela a candidata de oposição ao evangélico prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, nas eleições municipais do ano que vem.

O prefeito também estava ausente da concorrida cerimônia no Axé Opô Afonjá.

Mas existiam os ingredientes principais para a provocativa conversa do repórter com a primeira-dama, postada no começo da semana em TM. Reproduzida em vários sites e blogs baianos e nacionais, gerou polêmicas em vários terreiros da política local, motivou ciumeiras e reações de todo lado (principalmente nas sombras dos bastidores), incomodou do ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) ao líder do DEM na Câmara, ACM Neto (ambos de olho desde já no palácio Thomé de Souza). E ainda sobrou fogo para os próximos dias, principalmente depois da entrevista de Bob Fernandes, na quinta-feira, 17, no programa radiofônico de Mario Kertész, o mais ouvido e comentado da Bahia.

Filiada ao PV, Fátima é casada com Jaques Wagner. Aí estaria o principal obstáculo –”no caso, legal”, como assinala Bob – para “Fatinha” levar ou não adiante a candidatura a prefeita. Enquanto advogados e juristas estudam o caso, ela vai preparando o terreno. Em seu estilo “rápido e caceteiro”(como dizem os baianos), vai direto ao ponto, e ataca o calcanhar de João, “num momento em que o prefeito da terceira maior capital do País dispensaria maiores desqualificações”.

“Além dos tradicionais índices de miséria e desemprego, da sujeira, abandono, do desrespeito ao bom senso e às leis, a transformação da cidade num pasto para apetites imobiliários fala por João Henrique e sua Era. Um tempo que marca negativamente a história de Salvador e que irá custar caro, muito caro à cidade”, como Bob destaca. “Ele é um dirigente medíocre”, dispara a primeira dama.

“Eu sou a esperança”, completa uma vaidosa e confiante Fátima Mendonça. Entre um ponto e outro da conversa, muitas revelações sobre a relação afetiva e política da entrevistada com o governador Wagner. Um papo solto e esclarecedor, salpicadas de bom humor e malícia bem soteropolitana, sobretudo nas comparações com o prefeito João Henrique e a esquentada primeira dama municipal e deputada estadual Maria Luiza. Mais não digo para não quebrar o suspense e tirar o prazer de quem ainda não leu o conteúdo completo da entrevista.

Para terminar, recorro a um escrito do saudoso deputado pessedista Raimundo Reis, um dos maiores cronistas do cotidiano da Bahia. Certa vez, conta no livro “Malhada do Sal”, ele almoçava em Paris, “em companhia de Pámela, uma sexual italiana de Perúgia”, quando a moça perguntou de repente.

-Quem é você?

Olhando as águas calmas do Sena, Raimundo respondeu:

-Um menino de Curral dos Bois (antiga cidade de Glória, na margem baiana do Rio São Francisco, onde as aguas desciam turbulentas vindas de Paulo Afonso)

O cronista relata que, quase chorando, lembrou do avô, o Coronel Petro, que dizia orgulhoso.

– Este menino vai longe…

Ao encerrar estas linhas sobre a primeira-dama da Bahia e sua entrevista a TM, sou tentado a repetir como Raimundo Reis em suas crônica parisiense:

– Esta menina vai longe…

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail; vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 19 Fevereiro, 2011 at 7:53 #

Caro VHS

Olhando desta mesa de bar, distante do burburinho, em meio ao aroma suave do malte, é possível perceber que:

Mesmo que a Bahia não tenha sequer motivo para tanto, a mídia já resolveu e tenta ser antena da raça, qual artista, lançando e inflando a “primeira-dama” travestida de “primeira-candidata”.

Wagner deve estar feliz.

Ao mais, aproveito o espaço para sugerir, posto que é sábado, dick Farney, “Alguém Como Tu”

aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=KGcNMe7fWek


rosane santana on 19 Fevereiro, 2011 at 9:30 #

Caro Vitor,

Não foi o acaso quem reuniu Bob Fernandes e Fátima Mendonça no Ilê Axé Opô Afonjá. Um abraço, rosane


rosane santana on 19 Fevereiro, 2011 at 9:35 #

Correção: não foi o acaso que os reuniu


Ivan de Carvalho on 19 Fevereiro, 2011 at 19:55 #

Rosane,

Que bom saber que você também sabe que o acaso não existe.
E, inexistindo, não pode reunir ninguém.
No terreiro, na política, na mídia, nem em qualquer outro lugar.
Tudo tem um propósito.
Abraço


Marco Lino on 19 Fevereiro, 2011 at 21:45 #

Que essa menina vá longe. Longe…


rosane santana on 20 Fevereiro, 2011 at 9:01 #

Caro Ivan, não se trata de coisa mística, cármica, como queira, se trata de coisa mundana mesmo, que na pós-modernidade não existe, principalmente, na política e na mídia.
abraço, rosane


rosane santana on 20 Fevereiro, 2011 at 9:03 #

Melhor explicando, na pós-modernidade, o acaso na mídia e na política são acontecimentos raros.


rosane santana on 20 Fevereiro, 2011 at 9:05 #

Completando: e não foi o caso.


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