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CRÔNICA/ TEMPO E CIDADE

PROSA&VERSO

Gilson Nogueira

“Hoje tem o Barco da Bossa, com Ana Karla cantando as mais belas bossas acompanhada do violão virtuose de Roberto Souza. O Barco da Bossa sai às 20h30 do Terminal Marítimo de Salvador (Comércio). Os ingressos custam R$ 60,00 por pessoa, com comida e bebida incluídos. O trajeto é : Forte São Marcelo, Museu de Arte Moderna da Bahia, na Gamboa de Baixo, Iate Clube e Porto da Barra, onde o barco para e depois retorna ao Terminal Marítimo. A viagem dura cerca de três horas.”

A nota que antecede a crônica, postada pelo jornalista Jolivaldo Freitas, no site Notícia Capital, do qual é o editor, tem muito a ver com a Salvador que não existe mais. A Salvador de João Gilberto morando na Mouraria e dos anos do Barroquinha Zero Hora, do Vat 69, bloco carnavalesco que inventei, aos primeiros minutos da manhã de uma dia mágico, vendo a Ilha espreguiçar-se, no Porto da Barra, em 1968, depois de uma noite regada a beijos da mulher amada e escocês legítimo, na Boite Baloon, na Senador Costa Pinto, e do eterno Broco do Jacu, do genial Waltinho Queiroz, só para ficar em poucos e, concomitantemente, grandiosos exemplos de Salvador com o mistério da fantasia, que não mais existe, como o Carnaval, na capital dos absurdos e dos feitiços que a fazem, apesar de tudo, tão atraente aos olhos do mundo quanto a candidata a rainha da festa de Baco de bunda tão bonita quanto a Baía de Todos os Santos.

No entanto, por conta da nota lá em cima, que fala do Barco da Bossa, aquela Salvador dos cheiros de saveiros chegando na Rampa do Mercado existe, ainda, na memória dos saudosistas de plantão, ou não, como registro afirmativo do tempo em que a chama do Jornal da Bahia era uma das marcas do jornalismo desassombrado da imprensa baiana, hoje e sempre, referência, no país, por sua independência e talento dos que nela atuavam e atuam.

Como espécie de naufrágo de si mesmo, se é que isso que acabo de digitar venha a corresponder ao que tento exprimir, agora, Salvador devora-se, canibaliza-se, por ignorância urbana motivada por sórdidas mordidas dos que dilapidam seu patrimônio, natural e arquitetônico, no banquete dos famintos por dinheiro.

Do abacate técnico-político-religioso-cultural-comportamental batido no liquidificador do tempo, do cheiro de merda em suas esquinas e do descaso com suas tradições culturais,Salvador é, para gente da terra e de fora, uma piada, de péssimo gosto, a fazer rir os que só pensam em abocanhar o vil metal para gastar em Punta Del Este e em outros lugares turísticos. Do pastoso creme de agressões à sua identidade e à imagem, a outrora cidade hospitaleira, cede lugar à primeirona no ranking da violência das grandes cidades brasileiras. Dái, bate a vontade de não sair de casa, sob pena de não voltar, por conta de bala na cabeça ou facada no estômago.

Graças a Deus, e aos homens de bom gosto musical, um barco singra as águas do Atlântico, perto das canelas da morena dos trópicos, tocando e cantando Bossa Nova. Nem tudo está perdido!, exclamo, enquanto surge-me a idéia de promover um festival, tipo esse que foi realizado, há poucos dias, no Parque de Exposições, para que a população soteropolitana seja a única atração do palco e, ali, a plenos pulmões, possa gritar, para todo o mundo ouvir:”Eu quero minha cidade de volta!”ou, a depender dos números de mortes, por assassinato, nas estatísticas,”Socorro!”

“ O Barquinho”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli,com Maysa, musa eterna, como a Bossa, serve de fundo musical deste texto, no momento em que penso em dar uma chegada no Farol da Barra para adquirir, sob o sol de verão baiano, O Globo.Adoro o seu caderno Prosa & Verso. Bem que, no particular, Correio e Tribuna da Bahia poderiam imitá-lo. Não faz mal.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do Bahia em Pauta

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Comentários

Marco Lino on 12 Fevereiro, 2011 at 14:45 #

“Eu quero minha cidade de volta!”

E quando devolverem, por favor, devolvam-na com o Esquadrão de Aço – vivo, é claro!


regina on 12 Fevereiro, 2011 at 17:01 #

Ô Gilson, que pena que nossa Bahia chegou a esse ponto! E eu que apostava, botando a mão no fogo, que isso não sucederia….
Vamos resgata-la! JÁ!!!!
Vamos botar nosso bloco na rua “Os velhinhos do VAT69” ou do “Jacu”….


gilson on 13 Fevereiro, 2011 at 12:18 #

Oi, Regininha, que prazer rever você!!! Ah, amiga, quem dera!!! O lance é o seguinte: Aqui, na terrinha, confunde-se, no meio político, ” A praça é nossa!” com a nossa praça. Bj


Gilson Nogueira on 5 julho, 2015 at 11:50 #

VIVA ALBERGARIA!!!


regina on 5 julho, 2015 at 14:05 #

VIVA!!!!


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