Syilvio Simões: “se tiver
ação à venda, eu compro”
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O repórter Claudio Leal, da revista digital Terra Magazine , foi na fonte esta quarta-feira, 9, e ouviu o diretor de A Tarde, Sylvio Simões, sobre a crise sem precedentes que grassa no mais antigo jornal baiano, fundado em 1912 por Ernesto Simões Filho.

A situação no diário da Avenida Tancredo Neves (Caminho das Árvores) ficou ainda mais crítica desde ontem, com a demissão do repórter de Política Aguirre Peixoto, seguida da reação dos jornalistas da redação que em Carta Aberta , acusaram a direção de A TARDE de entregar a cabeça do repórter em uma bandeja, sob pressão do mercado imobiliário .

Bahia em Pauta reproduz a entrevista de Terra Magazine:

(Vitor Hugo Soares )
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Claudio Leal

O mais antigo jornal baiano em atividade, “A Tarde”, fundado em 1912 pelo ex-ministro do governo Getúlio Vargas Ernesto Simões Filho, vive uma das suas mais intensas crises, num conflito que envolve os jornalistas e o setor imobiliário de Salvador. Depois de publicar uma reportagem sobre crimes ambientais denunciados pelo MPF (Ministério Público Federal) numa obra realizada pelo governo baiano em parceria com as empresas Patrimonial Saraíba e Construtora NM, o repórter Aguirre Peixoto foi demitido pelo jornal.

Em protesto, a redação emitiu uma carta aberta e fará paralisações diárias de duas horas. Terra Magazine ouviu o diretor-executivo do Grupo A Tarde, Sylvio Simões, que procurou esclarecer o episódio. Segundo Simões, a demissão se deve “muito mais (a) uma questão de relações de poder interno, do que (a) qualquer tipo de penalização por fazer qualquer tipo de matéria”. Ele rejeita a informação de bastidores, frequente na blogosfera e nas redes sociais, de que o jornal recebeu pressões de empreiteiros.

– Obviamente, é bom que se saiba, “A Tarde” não sofre pressões, ninguém tem nos pressionado porque sabe da nossa conduta e do nosso comportamento. Foi muito mais um problema de relações da atividade empresarial – afirma Sylvio Simões.

Os repórteres relatam que um dos membros da família proprietária, Ranulfo Bocayuva, teria posto seu cargo à disposição, em desacordo com os primos. O fundador do antigo vespertino, Ernesto Simões, deixou três filhos (Regina, com 50% das ações, Renato e Vera, 25% cada um); o jornal é administrado, atualmente, pelos seus netos Sylvio, Ranulfo e Renato. O IVC (Instituto Verificador de Circulação) indicou que, pela primeira vez na história, a tiragem de “A Tarde” foi superada por um concorrente, o “Correio”, da família do ex-senador Antonio Carlos Magalhães.

O diretor-executivo, Sylvio Simões, desmente ainda a venda de ações de “A Tarde” para empresas do mercado imobiliário, principalmente dos construtores Francisco Bastos e Carlos Suarez:

– Não. Meu amigo, eu vou lhe dizer assim: se por acaso tiver uma ação à venda, do grupo A Tarde, eu e meu sócio compramos (risos).

Ele afirma que a demissão pode ser reparada “no futuro”, e “não agora”. Confira a entrevista.

Terra Magazine – O que ocorreu no episódio da demissão do repórter Aguirre Peixoto?

Sylvio Simões – Foi uma atitude da direção em relação a um redirecionamento da nossa atividade de comunicação. É só esse o ponto. É uma coisa que estão dando uma dimensão na qual não faz A Tarde. A Tarde tem uma posição muito clara, muito nítida, muito transparente, em relação aos seus propósitos. É um momento de mudanças muito grandes na empresa. O mundo está mudando e nós estamos mudando. As coisas estão se estabelecendo de uma maneira que, às vezes, há um nível de conflito interno, natural. A gente tem que tocar o barco. Obviamente, é bom que se saiba, A Tarde não sofre pressões, ninguém tem nos pressionado porque sabe da nossa conduta e do nosso comportamento. Foi muito mais um problema de relações da atividade empresarial.

O que a redação argumenta é que o repórter foi demitido depois de publicar uma matéria sobre a questão imobiliária, em Salvador. O que vocês dizem?

A razão não foi essa, foi muito mais uma discordância dentro da dinâmica da gestão da empresa. Por ventura, tentaram evidenciar uma carta dando exatamente esse sentido, que não é verdadeiro e o tempo vai exatamente demonstrar que foi muito mais uma questão de relações de poder interno, do que qualquer tipo de penalização por fazer qualquer tipo de matéria, seja em relação ao mundo imobiliário, em relação ao governo, em relação ao mundo agrícola. Sempre tivemos um princípio muito claro: nós temos um compromisso substantivo com a cidadania. Temos a obrigação na construção de um novo mundo civilizatório.

E por que Aguirre Peixoto foi escolhido?

Isso, na realidade, é que é lamentável. É lamentável que tenha acontecido essa questão com Aguirre, é lamentável. Mas a gente lamenta o que aconteceu com Aguirre, foi um desentendimento em relação à questão da visão diretiva do grupo. Isso pode ser reparado no futuro. Não agora, porque aí seria acatar uma posição diretiva de total discordância no centro de decisões da empresa.

Não há acordo com os jornalistas? Ele estão numa paralisação de duas horas.

Rapaz, eu acho que não. Eles estão obviamente conversando com o sindicato e amanhã nós vamos ter uma conversa exatamente explicitando todos esses pontos que estamos falando. Porque há uma Porque há uma afetividade muito grande dos jornalistas com A Tarde. Na realidade, foi muito mais um problema de ordem diretiva da empresa, do que estão tentando afirmar. A Tarde não tem nenhum tipo de problema natureza de problema com qualquer área da atividade econômica, porque nós temos uma independência muito clara e todo mundo sabe na Bahia disso.

Não houve um corte de anúncios do setor imobiliário?

Nunca houve corte de anúncios. Não é verdade. A construção civil, aqui no Estado da Bahia, neste ano que passou, os insumos subiram muito e houve uma redução da atividade imobiliária. Houve uma redução da atividade imobiliária. Isso aí, se você puder pesquisar, eu até lhe agradeço. Por exemplo, no governo também houve uma redução de publicidade. Porque, você sabe, nas eleições para governador e para presidente da República, fica limitada a possibilidade de fazer publicidade. Teve duas reduções: uma redução do mercado imobiliário, as construtoras pararam de construir como estavam fazendo; e tem a questão da retração do próprio governo. E na área de telefonia também houve um ajustamento.

E as notícias que estão nos blogs, de que A Tarde…

Essas notícias que estão nos blogs corre, exatamente, de uma posição adotada, antagônica à posição da direção.

O jornal não está à venda? Circula que o jornal estaria negociando a venda de parte das ações para o mercado imobiliário, com os empresários Francisco Bastos e Carlos Suarez.

Não. Meu amigo, eu vou lhe dizer assim: se por acaso tiver uma ação à venda, do grupo A Tarde, eu e meu sócio compramos (risos) Compramos na mesma hora. Eu mesmo to doido pra comprar. Se você conseguir aí alguns sócios pra eles venderem, eu compro? Então, a questão foi muito mais do fórum de conflito diretivo, do qual realmente a gente adotou uma posição. Lamentavelmente, surgiu esse problema, no momento em que estamos fazendo grandes mudanças. Estamos, por exemplo, montando uma nova concepção estratégica. Estamos nos preparando para a festa dos 100 anos. Uma máquina nova, um sistema de governança, com a empresa alinhada para os próximos 20 anos.

Como foi tomada essa decisão de demitir Aguirre? Isso não fica restrito à redação, à secretaria de redação?

Olha, houve uma discordância aí realmente. A parte do corpo diretivo…

Seu primo, Ranulfo Bocayuva?

Não vejo como uma questão de parente, não. Vejo como questão de executivos. Que é uma questão nossa, no primeiro momento. Na área dos executivos, realmente, a gente acabou tomando uma decisão majoritária e aconteceu esse episódio. Mas, obviamente, a gente desenhou a questão do comando da empresa em relação à política da qual a empresa tem estabelecido ao longo de todos os anos. A Tarde nunca teve uma posição sistemática. A Tarde sempre foi crítica, no momento de ser crítica, e no momento de se elogiar a gente elogia. A gente não pode adotar posições sistemáticas em relação a coisa alguma. Nesse novo Brasil, é preciso muito mais competência, porque você fazer as mudanças, as transferências de renda, com sensatez, é muito difícil. É o que a gente está tentando fazer aqui. Estou fazendo apenas uma analogia. Esse pano de fundo está sendo divulgado não é verdadeiro.

Como o senhor vê as críticas à expansão imobiliária em Salvador? É muito agressivo para a cidade?

Olha, essa questão imobiliária em relação à cidade de Salvador não advém de agora. Ela agora tomou uma dimensão maior. O que está faltando é um PDDU bem desenhado e bem definido. Isso cabe à atividade pública, à Prefeitura da cidade do Salvador. Ela precisa sentar com todos os atores e desenhar um plano que acolha a questão do meio ambiente e que acolha também a questão das pessoas. O grande problema do jornal brasileiro é que ele é absolutamente factual. O fato ninguém discute. Mas os jornais da Europa e da América do Sul são analíticos e críticos. Essa é uma grande discussão que a gente precisa ter. A gente não pode transformar o mercado imobiliário como se fosse uma coisa unívoca. Tem empresas que atuam com seriedade, com responsabilidade, etc., e tem outras que muitas vezes não atuam e precisam ser criticadas.

A Tarde vai continuar publicando matérias críticas em relação a essa expansão imobiliária?

Ah, sem dúvida, sem dúvida, desde que haja motivo e razão a gente vai tomar posição crítica em relação ao mercado imobiliário e em relação a qualquer mercado. Agora, o que nós temos levantado é o seguinte, em relação a todos os jornais, não só do Brasil, mas do mundo. A gente está perdendo leitores porque o mundo mudou de paradigma e a gente não mudou. Qual é o paradigma? Qualquer atividade é gratificante. Existe uma coisa mais bonita do que trabalhar para construir as coisas? Então, os jornais precisam começar a atividade de imóvel. E criticar a operação. O sujeito fez uma ponte errada? Você chega e baixa o cacete, porque a ponte foi mal construída. Sabe o que vai acontecer? Aqueles que constroem pontes erradas, até um Estado socialista vai dizer. Agora, se você transforma aquela ponte quebrada em todos os construtores de ponte constroem pontes ruins, aí é um problema. Até para a relação humana. A nossa reflexão é focar numa análise crítica. Isso é inabalável.

Aguirre foi demitido por causa do posicionamento editorial em relação à construção civil?

De forma alguma, foi muito mais por uma questão de discordância do corpo diretivo, que adotou uma posição. E essa posição não estava sendo estabelecida. As coisas estão caminhando dentro da dinâmica sistemática, e aí transformava todo mundo em japonês. Isso não é possível. A gente só é sistemático quando a gente não tem razão. Quando a gente tem razão, uma matéria bem dada resolve o problema.

Tem lhe incomodado o fato de os jornalistas falarem da vinculação da família Simões com negócios imobiliários?

Não há vinculação nenhuma. Não temos nenhum negócio no mercado imobiliário.

Eles falam de uma empresa de venda de imóveis de sua família.

Nós não temos nenhuma empresa imobiliária. Se tem, é de minha mulher e eu não participo. O jornal, ao contrário, não traz nenhum benefício, nem também nenhum malefício à atividade dela. Por quê? Ela é uma empresa de porte, associada a uma empresa de São Paulo, é a segunda empresa da Bahia. É meu segundo casamento, portanto não tem nada a ver com meu negócio.
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Leia mais em Terra Magazine:
http://terramagazine.terra.com.br/

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Comentários

Augusto on 20 Fevereiro, 2011 at 18:45 #

Justiça Baiana concede liminar inédita contra a OAS na Bahia

Publicada no dia 11 de fevereiro 2011, a liminar concede a um grupo de moradores do empreendimento Vila Allegro que entraram na justiça, o direito de receber o valor de um aluguel por mes ate a conclusao da obra, uma grande vitória para os consumidores !

A obra da poderosa OAS, que está bastante atrasada, foi embargada desde o ano passado pela justiça federal (MPF) por falta de alvará ambiental e fica na av. paralela, numa área de preservaçào de mata atlantica.

A imprensa local, estranhamente, nada noticia sobre o problema que atinge mais de 300 familias…Será medo de demissào assim como o jornalista do Jornal A Tarde?

http://vilaalegro.blogspot.com


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