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Postado em 29-01-2011
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 29-01-2011 12:14


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OPINIÃO POLÍTICA

A crise no Egito e a paz

Ivan de Carvalho

O Egito, literalmente, pega fogo. Edifícios, veículos, especialmente veículos policiais. Mas o fogo principal está principalmente na mente das pessoas, as que protestam contra o regime do presidente Hosni Mubarak e as que integram sua estrutura de poder ou são a favor de seu governo.

Este segundo tipo de fogo alastra-se, além das fronteiras do Egito, para todo o Oriente Próximo, que as pessoas e os meios de comunicação insistem e continuam insistindo em chamar de Oriente Médio.

Até ontem, além do toque de recolher, o governo egípcio produziu o apagão dos celulares e da Internet (não havia o sinal nem para uma coisa nem para a outra) e proibiu a mídia clássica (jornais e emissoras de rádio e televisão). A intenção era a de não permitir a articulação dos protestos e impedir que a população tomasse conhecimento dos que acontecessem e de outros fatos incômodos ao governo. Assim, eliminou-se provisoriamente a possibilidade de liberdade de expressão – mas os protestos continuaram.

O regime chefiado pelo presidente Hosni Mubarak é autoritário e um dos mais estáveis da região. E o Egito é o alvo mais cobiçado dos radicais islâmicos. O discurso dos que desde a terça-feira protestam nas ruas contra o governo egípcio é o de exigirem, além de melhores condições econômicas, um regime democrático, em que a liberdade tenha o lugar que lhe cabe e haja justiça social.

O discurso é correto. É, aliás, aquele discurso ideal que algumas vezes é realizado em parte e raríssimas vezes no todo. E com certeza também é sincero da parte de muitos que o fazem. Mas não de todos ou, talvez, nem mesmo sequer da maioria. Os valores democráticos não são, infelizmente, um elemento relevante da cultura árabe, com exceção – há tempos atrás, hoje já não dá para dizer a mesma coisa, depois que a Síria violentou o país – do Líbano.

Grande parte da oposição a Mubarak é articulada por pessoas bem mais autoritárias do que ele e certamente muito mais mal intencionadas. Essas pessoas, usando a demogagia em suas várias facetas, inclusive e, no caso, com insistência, uma distorcida argumentação religiosa, conseguem atrair multidões e dominá-las, como ocorre hoje no Irã e como ocorreu há não muito tempo no Afeganistão dos talibãs, dois países muçulmanos, ainda que não árabes.

O que acontece agora no Egito é crucial para o curso e o desfecho do conflito entre Israel, de um lado, e os palestinos e outros nações árabes, do outro lado. O Egito de Mubarak tem sido – depois do acordo de paz que fez com os hebreus o então presidente egípcio Anwar el-Sadat, por isto assassinado, após a guerra árabe-israelense de 1973 e do qual participa ainda a Jordânia – uma âncora da paz na região, que a Síria, o Irã, o Hamas, o Hizbollah e outros atores tentam incendiar.

Fechando o dia, ontem, sob a irresistível pressão dos fatos, Mubarak fez um pronunciamento em que prometeu assegurar ao Egito mais democracia, melhorar a economia e começar tudo isso demitindo e substituindo todos os seus ministros. Será suficiente esta promessa?

O que vai acontecer no Egito e, também por causa disso, na região e no mundo? Em minha trevosa ignorância e sem saber o que prevê a CIA, melhor ir buscar informação na Bíblia, onde o Senhor, pelo profeta Isaías, fala ao povo de Israel: “De nada valerá buscardes o auxílio do Egito, porque não haverá paz; e Israel deve confiar apenas no Senhor”.

Meu Deus…

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Comentários

Jader Martins on 30 Janeiro, 2011 at 12:56 #

Grande parte da oposição a Mubarak é articulada por pessoas bem mais autoritárias do que ele e certamente muito mais mal intencionadas?????????????????????????????
uma âncora da paz na região, que a Síria, o Irã, o Hamas, o Hizbollah e outros atores tentam incendiar.?????????
Hilário !!!. Veja os massacres na região de Gaza !!!!


Ivan de Carvalho on 30 Janeiro, 2011 at 18:29 #

Bem, Jader, experimenta por no lugar do Mubarak alguém como o Ahmadinejad ou o ayatollah Khamenei e você vai ver o que NÃO É hilário…
Boa noite.


Jader Martins on 30 Janeiro, 2011 at 19:58 #

Por que os Estados Unidos temem democracia no mundo árabe
por Luiz Carlos Azenha

Vamos começar deixando de lado a ideia de que o que se passa no mundo árabe é uma revolução do twitter, do facebook, da Al Jazeera ou das mídias sociais.

O Vinicius Torres Freire acertou, na Folha. “De acordo com esses correspondentes, não seria possível haver Revolução Francesa, Russa, maio de 1968, Diretas-Já ou as revoluções que derrubaram as ditaduras comunistas, dado que na maioria dessas revoluções não havia nem telefones”, escreveu ele.

Voltarei ao tema.

Vinicius acerta de novo, mais adiante, quando toca no ponto central: os milhões de jovens desempregados e sem perspectivas de vida que vivem no mundo árabe.

Não tenho muita experiência de reportagens na região, a não ser por algumas semanas trabalhando no Iraque, na Jordânia e no Marrocos.

Em todos esses lugares testemunhei a frustração dos jovens árabes (na periferia de Casablanca, no Marrocos, fui a uma favela cercada de altos muros brancos, onde a pobreza era devastadora mesmo pelos padrões africanos).

Nunca me esqueço do desabafo de um jovem palestino, morador de Amã, na Jordânia, sobre o drama pessoal que enfrentava: a falta de condições para pagar o dote, casar e conseguir morar com a esposa em endereço próprio.

São esses dramas pessoais, multiplicados por milhões, que movem hoje o que se costuma chamar de “rua árabe”. Dramas que se desenrolam diante de governos autoritários, corruptos e completamente desligados da realidade das ruas.

Aí, sim, é preciso notar o impacto das tecnologias da informação, mas muito mais da telefonia celular e da TV via satélite do que propriamente das mídias sociais, muito embora as lanhouses fervilhem em quase todas as grandes cidades do mundo árabe.

Depois de um rápido processo de urbanização, a frustração dos jovens árabes agora se dá num cenário em que eles são expostos diariamente aos objetos de consumo e ao padrão de vida que “recebem” via satélite, especialmente nos intervalos das transmissões de futebol europeu (no norte da África há mais torcedores do Manchester United do que no Reino Unido, por exemplo).

Washington sustenta o governo egípcio à base de cerca de 5 bilhões de dólares anuais.

É muito pouco provável que o governo Obama vá além de declarações vazias a respeito do governo ditatorial de Hosni Mubarak, ou de “platitudes” em defesa da liberdade de expressão da população.

A reticência dos Estados Unidos — e de todos os governos ocidentais — em relação ao Egito tem relação com o fato de que qualquer democratização para valer dos países árabes aumentará o poder dos partidos islâmicos (a Irmandade Islâmica, por exemplo, no Egito).

Foi prometendo combater a corrupção e promovendo serviços sociais que o Hamas e o Hizbollah ganharam legitimidade respectivamente em Gaza e no Líbano.

Notem, nas próximas horas, como os governos ocidentais vão enfatizar a necessidade de “preservar a estabilidade” e a “segurança” dos governos árabes que estão na defensiva.

Democracia nos países árabes resultaria em governos menos submissos aos Estados Unidos, mais “antenados” com as ruas e, portanto, muito mais agressivos em defesa dos direitos e dos interesses dos palestinos — para não falar em defesa de seus próprios interesses.

Será muito curioso observar, nos próximos dias, a dança hipócrita dos que defendem apaixonadamente a democracia no Irã mas se esquecem de fazer o mesmo quando se trata do Egito. Inclusive no Brasil.

PS do Viomundo: Vamos ver se o governo Obama deixa de fornecer gás lacrimogêneo e outros equipamentos de “segurança” ao governo Mubarak, por exemplo.


Ivan de Carvalho on 31 Janeiro, 2011 at 1:36 #

Jader, veja, isto é, leia: o Azenha não disse NADA errado. O mal não está, claro, na luta dos jovens árabes por melhores condições econômicas. Nem por democracia e por liberdade, para Mario Vargas Llosa, a palavra mais bela que existe. Eu diria que é a segunda, a primeira acho que é AMOR.
O mal está no que o próprio Azenha reporta: a instrumentalização da luta dos jovens árabes (e dos muitos não jovens, acrescento) por políticos mal intencionados, que preferem a amor ou liberdade a palavra destruição. Destruição de Israel, destruição dos EUA, destruição de qualquer coisa que os desagrade ou os embarace.
É por isto que se esse pessoal muito mais mal intencionado chegar ao poder no Egito e, em efeito dominó, na Jordânia, Emirados, Arábia Saudita, produzirá realmente o que não raro proclama abertamente – a destruição. Dos que detestam e deles mesmos, junto com seus povos e os outros povos, mesmo os que pouco tenham a ver com os aterradores ideais deles. Hitler, Stalin, que perfeitos precedentes…


Marco Lino on 31 Janeiro, 2011 at 11:10 #

Pois é, Ivan

Outro dia fui apedrejado (risos) aqui quando falei que era hipocrisia do Ocidente falar em democracia no Oriente (especialmente no Médio).

Os EUA (especialmente) não ligam para democracia fora de seus limites territoriais; querem parceiros (submissos, especialmente). A história da AL na segunda metade do século passado mostra isto claramente.

Sobre o Egito hoje, vale citar (para deleite do Danilo) o grande e longevo Oscar Niemeyer: “Quando a vida se degrada e a esperança foge do coração dos homens, só a revolução.”

Sobre o “Senhor e Israel”, acho que Israel trocou de senhor há muito tempo. Se o Cristo histórico continua o mesmo (a Bíblia diz que sim e as doutrinas cristãs dizem que Ele e o Javé dos hebreus são o mesmo Deus) desconfio que ele esteja (continue) com os oprimidos palestinos. Roma morreu e o opressor hoje da região chama-se Israel. Quem tem sede e fome hoje na terra em que Cristo nasceu é o povo palestino, pois Israel controla até a própria água (pouca) que brota no território (?!) palestino.

Abs


danilo on 31 Janeiro, 2011 at 14:06 #

vê se me erra, Marco Lino. vai morar em Cuba pra ver o q é bom pra tsse…


Marco Lino on 31 Janeiro, 2011 at 14:18 #

Cuba está abrindo, meu caro…

Internet, praias, morenas, dólares morenos do Obama chegando, o Estado diminuindo, a livre iniciativa crescendo, saúde pública bombando, Fidel morrendo… enfim, se a economia brasileira continuar crescendo e os juros caírem, vou sim dar um pulo sim na Ilha.

Quem sabe em 2014? Quando vcs estiverem na nova Fonte Nova (Lulão?) de Wagner vendo a Venezuela de Chavez, estarei em Cuba, sob o olhar humano e atendo de Guevarra.
Abs


Marco Lino on 31 Janeiro, 2011 at 14:20 #

Guevara, é claro.


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