Gil: entrevista para ler e guardar /Fernando Vivas/MUITO
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ARTIGO DA SEMANA

Simone de Beauvoir e Gil: Arte de envelhecer

Vitor Hugo Soares

Há alguns anos recebi de presente de aniversário o livro “A Velhice”, de Simone de Beauvoir, mais importante e referencial ensaio contemporâneo que conheço sobre as condições de vida dos idosos. O regalo – como dizem os portenhos – veio de uma querida irmã jornalista – fã de carteirinha da escritora francesa, mas preocupada, também, com o avançar da idade do mano. A obra, publicada em 1970, segue mais atual do que nunca, principalmente no País de pouco cuidado – para não dizer desprezo escancarado – com os seus velhos.

Mas o jornalístico e factual nesse “nariz de cera” é a oportunidade de dizer que desde então não lembro de ter lido mais nada tão interessante e revelador sobre o envelhecer, que as reflexões do artista Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura do Brasil, esta semana em Salvador.
Estão na entrevista concedida pelo cantor e compositor de 68 anos à jovem repórter Emanuela Sombra, publicada como matéria de capa de “MUITO”, a revista da edição dominical do jornal A Tarde.

Não recordo igualmente de ter lido nada melhor nos jornais e revistas nacionais nesses últimos dias. Sei que afirmativas como essas são perigosas e incomodam muita gente do meio. Mexem com vaidades e ciumeiras tolas do cada dia mais estranho e egocêntrico modo de pensar e fazer jornalismo, ultimamente.

Devo acrescentar, a bem da verdade e da qualidade da informação, nestas linhas, que a entrevista do ex-ministro da Cultura do Brasil não é mais um daqueles tratados insuportáveis sobre velhice, cheios de obviedades e lições hipócritas e “politicamente corretas” de como vencer achaques e limitações.

Gil faz um balanço quase completo da carreira. Fala da vida, da juventude, dos atritos durante sua atuação no ministério do governo Lula (a polêmica demissão do ator Antonio Grassi, que acaba de voltar com Ana de Holanda no governo Dilma, por exemplo). Conversa livre e abertamente, também, sobre amores passados e presentes, da mãe Claudina (a “negra baiana cem por cento” da maravilhosa canção na volta do exílio), da relação com Flora e Sandra (Drão) – mulheres para as quais compôs duas de suas músicas mais belas e expressivas -, dos filhos, netos e amigos. E, obviamente, do show do CD “Fé na Festa”, que ele apresenta domingo (amanhã,30) , na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador.

Já se vê por esta “palinha” que a conversa do autor de “Parabolicamará” com a repórter baiana não é coisa de velho saudosista – como alguns apressadamente podem pensar – maldosamente (ou não) – mesmo que a saudade atravesse as palavras do artista de vez em quando, mas quase sempre daquele jeito bom de que falava o genial sanfoneiro e cantor pernambucano, Luiz Gonzaga, em seu baião antológico.
Mas o forte e eloquente da entrevista é mesmo o jeito original e marcante de Gilberto Gil encarar a velhice, na atual etapa de sua vida e de seu trabalho. Aproximando-se dos 70, o artista não esconde nem evita falar sobre as limitações dos anos nas costas, mas ensina com doçura e realismo como essas limitações estão sendo transformadas por ele numa nova juventude.

Ah! Antes que esqueça por uma traição da memória: As fotos, da capa com o título “Tempo Rei”, e das páginas internas são assinadas por Fernando Vivas (de tantas jornadas ao lado de Bob Fernandes e Ricardo Noblat, pela Bahia e país afora, as vezes também deste que vos escreve, no tempo da sucursal da Veja ). Imagens que impactam, encantam, informam e fazem pensar nessa matéria quase completa em termos de bom jornalismo.

Gil com a palavra, sobre as limitações do envelhecer e seu jeito de encarar o passar do tempo:
“Muda o sentido de atenção, de cuidado. O desempenho físico é outro, as tarefas, os afazeres são afetados. E isso também afeta o desempenho psíquico. A memória é uma coisa que é afetada drasticamente, ela começa a ter menos resposta do que antes. Envelhecer implica uma outra maneira de viver, uma outra arte de viver, novas autorresponsabilidades. Você passa a ter que responder a si próprio de maneira diferente, a dizer sim de maneira diferente, a dizer não mais severo, com mais intensidade, mais frequência. Passa a aceitar o sentimento de renúncia com mais resignação”.

Um pouco mais de um dos motores mais vibrantes da revolucionária Tropicália na entrevista a Muito, quando a repórter pede que ele explique melhor: “Renuncia a muita coisa que você não pode fazer mais, como subir uma escada, que era um ato inconsciente e irresponsável. Hoje em dia envolve todo um desempenho e um empenho, um cuidado ao subir ou descer uma escada que me obriga a renunciar a tudo aquilo, à espontaneidade, ao desleixo, a uma impetuosidade”. Subir em um trio elétrico no Carnaval de Salvador, para passar horas como no passado, também é algo impensável atualmente, confessa Gil.

Tem mais, muito mais na entrevista para ler e guardar. Como o livro que Simone de Beauvoir escreveu nos anos 70 para rasgar o véu de hipocrisia e “quebrar a conspiração do silêncio” em relação à velhice, assunto que aparece para os homens e para a sociedade como uma espécie de “segredo vergonhoso”.
Grande Simone! Bravo Gil!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Olivia on 29 Janeiro, 2011 at 8:39 #

Magistral artigo, assim como a entrevista de Gil à querida e competente jornalista e amiga Emanoela Sombra, nossa Manu, Gil e Simone de Beauvoir, bravos!!!


luiz alfredo motta fontana on 29 Janeiro, 2011 at 9:55 #

Caro VHS

Quando o pasteleiro esquece o que não compreende e fala das coisas que lhe são caras, o belo se estabelece, merecendo inclusive a atenção do teu olhar.

Belo texto, delicado, sensível, e como é próprio de tua alma, generoso.

Grande VHS, quis o fado que teu texto encontrasse, na Folha de São Paulo, Ruy Castro, falando sobre o outro Gilberto, o João, que ouso colecionar aqui neste espaço de comentários:

———————————————–

RUY CASTRO

Pra que discutir com madame?

RIO DE JANEIRO – Deu no jornal: João Gilberto, o cantor, está ameaçado de despejo do apartamento alugado em que mora no Leblon. A proprietária é uma senhora da sociedade carioca e internacional, com título de condessa e dona de vários imóveis. O problema não envolve dinheiro, mas o que a senhoria acha um abuso: ele não deixa ninguém entrar ali, nem para fazer obras que ela julga necessárias.
O que, para muita gente, pode ser uma surpresa é a revelação de que João Gilberto, que fará 80 anos em junho próximo, não tem casa própria. Não tem, nunca teve. É verdade que, em mais de uma ocasião, fez contratos que lhe teriam permitido comprar à vista o que quisesse e resolver o problema. Mas a volúpia da propriedade não é seu estilo.
Nem de outros do seu círculo. Vinicius de Moraes passou a vida morando nas casas de sua família na Gávea ou pagando aluguel. Lucio Alves, um dos dois ou três maiores cantores da história deste país, estava sendo despejado no ano em que morreu, 1993. E não me consta que, algum dia, João Donato, Johnny Alf, Newton Mendonça, fossem proprietários -a ideia de assinar escrituras, pagar imposto predial e votar em reuniões de condomínio parecia não combinar com o ideário da bossa nova.
João Gilberto não gosta de interferências no seu dia-a-dia. Eu também não gosto, assim como você e todo mundo. João Gilberto talvez apenas radicalize esse gosto pela reclusão, no que está no seu direito. Em compensação, nunca processou jornalistas ou escritores que ousaram “violar” sua intimidade.
A condessa devia conhecer João Gilberto quando o aceitou como inquilino. Cabe-lhe, portanto, relaxar e, no futuro, orgulhar-se de que ele morou num de seus imóveis, entre cujas paredes quantas maravilhas não criou ao violão. Mas, se madame não vê isto, diria o samba, pra que discutir com madame?

————————————————-

Abraços

Tim Tim

temperado com memórias


luiz alfredo motta fontana on 29 Janeiro, 2011 at 18:45 #

Caro VHS

Retorno ao teu texto, após uma tarde prenhe de preguiça, após reassistir o documentário “Uma noite em 67”, e após cometer mais um poemeto que dedico a estes “encontros de verão”.

O GAROTO QUE JÁ FUI

(luiz alfredo motta fontana)

Teu viço,

já não possuo

Teus sonhos,

de quase todos acordei

Teus medos,

deram-me certezas

Tuas lutas,

desenharam minhas cicatrizes

Tua verdade,

meu credo

Teu sorriso,

ainda guardo

Teu olhar,

meu guia

Tua tristeza,

minha assinatura


Graça Azevedo on 29 Janeiro, 2011 at 21:02 #

Havia lido a entrevista de Gil no domingo passado e agora leio o seu texto, ambos maravilhosos.
Sobre subir escadas: que metáfora tão linda sobre rever a vida na maturidade!
Grande abraço


Carlos Volney on 29 Janeiro, 2011 at 21:44 #

Vitor Hugo, você é um acidente da natureza!!!!!!! Tenho dito……


jamio on 29 Janeiro, 2011 at 22:23 #

Beijos, Vitor. (Ia corrigir meu nome, mas deixa pra lá. Afinal, olhos cansados quase não distiguem traços).


vitor on 30 Janeiro, 2011 at 0:00 #

Janio: Nada a corrigir querido amigo e brilhante cronista deste site blog. Só agradecer.

Inclusive o fato de que o Bahia em Pauta começou a nascer naquela farra memorável que fizemos na beira do lago de uma das barragens de Paulo Afonso – acho que a que cobriu com as águas do São Francisco a nossa querida cidade de Santo Antonio da Glória de minha infância- em uma festa de São João.

Presentes Margarida, Gracinha (que virou sua fã) e o psiquiatra Lauro Tonhá, único são da cabeça naquela mesa de loucos sonhadores. Deu muita saudade agora. Precisamos repetir a farra o mais breve possível, “antes que seja tarde”, como aconselhou aquele vaqueiro a Raimundo Reis , o grande cronista baiano nascido em Glória como vc, quando ele revelou que pensava escrever um livro de memórias.

-Escreva logo, doutor, antes que seja tarde, aconselhou o sábio vaqueiro.

Raimundo seguiu o conselho à risca. E o livro que escrevou, você sabe bem, ganhou o título: “Antes que seja tarde”.

Em nosso caso, espero que a farra se repita com o paladar ainda capaz de aproveitar todo sabor do peixe fritato na hora, da cerveja e da Rosca de umbu com cachaça cortando a garganta. E os olhos ainda podendo contemplar toda maravilha do lago e tantas belezas de Paulo Afonso e do meu São Francisco , que você vê todo dia de sua varanda privilegiada na beira do rio.

Com saudade, daquela boa de Gonzagão.

Vitor Hugo


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