Um certo toque de Exu…

…Na comunicação de Gal no tuiter
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ARTIGO DA SEMANA

Gal: preguiça baiana e polêmica nacional

Vitor Hugo Soares

“Laroyê, Mojubá!”. Direto da Bahia, abro as linhas deste artigo semanal com uma saudação a Exu, para anunciar que a temporada de verão 2011 começou por aqui do jeito que mais gosta o orixá brincalhão e polemista dos cultos afro-brasileiros – do candomblé principalmente. O pau está quebrando – na defesa e no ataque – em relação ao mais novo bafafá que se alastra de Salvador para o resto do País, e, desta vez, nem o ex-presidente Lula nem o cantor e compositor Caetano Veloso, podem ser responsabilizados de nada.

Na verdade depois de entregar a faixa à presidenta Dilma, Lula ainda não passou por estas bandas nordestinas, embora tenha prometido o que deve acontecer provavelmente no Carnaval. O santamarense Caetano Veloso também ainda não soltou o verbo na praia do Porto da Barra e adjacências (como costuma fazer sempre nesta fase do ano), mas o bafafá que promete tomar conta do Verão-2011 já corre mundo afora.

Exu não dorme no ponto quando o assunto é criar uma boa confusão. O orixá festejado por Jorge Amado e escolhido para guardar a área em torno da Fundação que leva o nome do escritor baiano no Pelourinho – um dos pontos mais visitados por turistas na capital baiana – se encarregou de mandar Gal Costa e assim não deixar ninguém na mão, em tempo de jornalismo sonolento e de poucas notícias, salvo as ruins – também anuais no Brasil de norte a sul – como as da tragédia da região serrana do Rio, onde o número de mortos já beira os 800 nesta sexta-feira em que escrevo.

Quem sabe dos cultos de santo por aqui, não tem dúvida: só pode mesmo ser coisa dos exus, esses chefes de terreiros, “lixeiros alegres que passam pelas ruas recolhendo todas as ‘sujeiras’. Vêm com brincadeiras e algazarras, mas fazem um trabalho enorme em benefício da sociedade, que diga-se de passagem é muito pouco reconhecido”, como assinala um especialista em Guia sobre cultos afro-brasileiros na web (http://www.guia.heu.nom.br).

Vejam o caso e tirem vocês as próprias conclusões:

A cantora Gal Costa, que em geral vive calada e só gosta de falar através das letras das canções que interpreta (quase sempre maravilhosamente), decidiu soltar o verbo esta semana, ao ver dar tudo errado nas obras de reforma de sua casa em Salvador e nas relações trabalhistas com o operário da terra encarregado da execução.

Contrariada, a doce bárbara de outras épocas na MPB partiu para uma abordagem meio sociológica “meio senhora de engenho do antigo Recôncavo Baiano” (o achado da frase é de um querido amigo jornalista cujo nome evito citar por falta de autorização e por não querer jogar mais lenha na fogueira) via Web – ou seja, para a Bahia, o Brasil e o planeta – de tema recorrente em tempo fraco de notícias, mas sempre muito delicado em qualquer época: a preguiça dos baianos.

Na verdade, o operário queixou-se de uma forte dor de cabeça que o impedia de concluir no dia e prazo combinados entre as partes a instalação do aparelho de ar condicionado na casa da cantora. Seguramente também sob o efeito do forte calor que faz estes dias na capital baiana, a mana e conterrânea Gal desabafou na mensagem postada em seu endereço no Twitter:

“Como na Bahia as pessoas são preguiçosas! Técnico do ar-condicionado ñ pode terminar o trabalho pq está com dor de cabeça. Essa é a Bahia!!!”, reclamou, no impulso. “Ela costuma tuitar a partir de um iPhone”, contou a revista digital Terra Magazine na matéria assinada pelos repórteres Claudio Leal (baiano) e Dayanne Sousa, em suite jornalística do assunto que então já pegava fogo na Bahia e se alastrava país afora, via Internet.

Foi o toque dos exus que faltava no caso. Na quarta-feira à noite, pouco tempo depois de postado palpite infeliz, a cantora já havia arrebatado mais de 39 mil seguidores no Twitter. Muitos deles fãs que a acompanhavam e que se consideraram ofendidos também com a pecha de “preguiçosos”, lançada por Gal na briga com o técnico de ar condicionado. Não faltaram acusações de preconceito e até “racismo” jogadas sobre a cabeça da doce bárbara.

Espantada com a repercussão inesperada, Gal tentou dar tudo por encerrado, como governantes e velhos políticos quado se vêem diante de fatos e situações incômodas e embaraçosas, mas sem desistir da tese desatrosa, certamente com Exu ainda soprando em seu ouvido: “Ñ é racismo meu filho, é REALIDADE!!!!”. “Tem gente mais preguiçosa em cidades q tem mar”, teorizou a cantora, ressaltando no tuiter que também morou 23 anos no Rio de Janeiro e tem autoridade para falar.

Aí todos os raios e trovões e até algumas flechas de São Cristovão desabaram de vez sobre a cabeça e o peito de Gal, a quem parece só ter restado como alternativa a fuga em desabalada: “Gente, chega! Acabou o assunto da preguiça. Ñ se pode falar nada aqui q tudo vira polemica. Sou baiana e falo pq posso. Vou sair. Tchau”, postou a cantora, ao anunciar que estava deixando o microblog na quarta-feira (19) mesmo. Depois sumiu.

Na fuga apressada, nem lembrou dos versos da antológica música “Vaca Profana”, que Caetano Velosos escreveu para ela e que Gal interpreta divinamente, como ninguém: “Respeito muito minhas palavras/ Mas ainda mais minhas risadas/Mas ainda mais minha risada/Inscrevo, assim, minhas palavras/Na voz de uma mulher sagrada/Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada/Ê, ê, ê, ê, ê,/Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara/E o leite mau na cara dos caretas”Entrevistado em São Paulo pela Terra Magazine sobre a polêmica que abre mais uma temporada de verão na Bahia e no País, o compositor Tom Zé, conterrâneo de Gal Costa, ladino como um exu de Jorge Amado, “preferiu ser telegráfico ao analisar a tormenta vivida pela cantora baiana, no Twitter, desde que atacou a “preguiça baiana”:

– Gal está aprendendo a lidar com os códigos da comunicação de massa, é isso – diagnosticou Tom Zé.

Exu é pouco!

Vitor Hugo Soares, jornalista baiano que confessa e pede desculpas pela falta de traquejo com as coisas dos orixás. E-mail:
vitor_soares1@terra.com.br.

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Comentários

mario brito on 22 Janeiro, 2011 at 4:16 #

Parece que as flechas são atribuidas a São Sebastião e não a São Cristovão.


luiz alfredo motta fontana on 22 Janeiro, 2011 at 8:37 #

Empanturrando-se com seus peculiares quitutes.

Doce Gal, sem querer, ou querendo e muito, enrolou-se na própria manha.

Muito se fala da tal “preguiça baiana”, esse preconceito que teria origem na precariedade com que viviam os nordestinos migrados para o sul, amontoados nos cortiços de então, Esta a teoria majoritária no campo acadêmica.

Por outro lado, e aqui o mote deste comentário, lança luz sobre este mito da preguiça, a antropóloga e pesquisadora Elisete Zanlorenzi, que destaca o papel de Caetano, Gal, Dorival Caymmi na formação do conceito, posto que, segundo ela:

-“Eles (Caetano, Gal, Caymmi, ) chegavam no eixo Rio-São Paulo afirmando serem preguiçosos. Era como dizer: eu não sou daqui” (O Mito da Preguiça Baiana, apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP)

Assim, numa espécie de autogagia, Gal não percebe o quanto, para ela, a Bahia é só espelho, e despida da identidade mítica, confunde criatura com criador.

Daqui de longe, entre fumaça, neon, e uma baita preguiça de concreto, só resta lembrar, que Gal, assim como Caetano, além e sobretudo, Caymmi, estão acima do bem e do mal.

Tim Tim, enquanto preguiçosamente espero que alguém renove o gelo.


luiz alfredo motta fontana on 22 Janeiro, 2011 at 8:42 #

errata:

autogagia = autofagia


vitor on 22 Janeiro, 2011 at 9:41 #

Mario Brito

Você tem razão. Obrigado pelo alerta.Santo corrigido no texto. Olha Exu aí de novo. Agora brincando com o autor e editor. Grande abraço

Vitor Hugo


luiz alfredo motta fontana on 22 Janeiro, 2011 at 10:13 #

Caro VHS

Porque hojé é sábado

Porque conceitos são variáveis

Porque o Fisoco é recordista

Porque Gal é Gal

Fica esta sugestão:

Aqui, diretamente do blogbar, Os Cariocas “Hoje eu vi um leão”

http://www.youtube.com/watch?v=v7_g_Gd957o


luiz alfredo motta fontana on 22 Janeiro, 2011 at 10:32 #

Correção:

“Quatro Ases E Um Coringa” e não “Os Cariocas”

Fisco e não Fisoco


baiano on 22 Janeiro, 2011 at 10:59 #

Dorival Caymi morreu dizendo que baiano é preguiçoso, porque tanta polemica essa piada é antiga, não sou fã da Gal mais não podemos deixar de lembrar o quanto até hoje ela é uma cantora representativa na MPB, onde leva nossa linda musica para o mundo, que muito à adimira, quantas vezes ouvimos esta frase “BAHIA, QUE PREGUIÇA PREGUIÇOSA”


regina on 22 Janeiro, 2011 at 12:48 #

Quando você chega na Bahia, venha de onde vier, seja que hora for, é recebido por um certo ar moroso, morno, aconchegante, que te abraça e que vc sente imediatamente que está em um lugar diferente, manhoso, maneiro, preguiçoso!!!! Ora, me deixe, quero saber que tem demais ou de menos nisso.
“NO ESTRESSE, VOCÊ TÁ NA BAHIA”, diz a escritura nas camisetas, e agente acredita. Dona Gal sabe muito bem disso e não tem que pedir desculpa em reconhecer, mas pela forma como se expressou aludindo um sentido pejorativo a palavra e a falta de ação do seu empregado.
Deixe a preguiça nossa de cada dia tomar conta de nós e nos conserve maneiros, faceiros, cantantes, poetas, Axés e Orixás…


Sed on 23 Janeiro, 2011 at 3:20 #

Thanks for the interesting information 🙂


Mariana Soares on 23 Janeiro, 2011 at 13:24 #

Minha querida irmã Regina, me perdoe, mas, na minha opinião, não existe uma “preguiça baiana”, que deve ser atribuida a todos os baianos e, muito menos, a “menerice” destes. Existe, sim, uma quase cultura da prestalção dos serviços de baixa qualidade, uma falta de compromisso com o outro, com horários e prazos, enfim, qualquer pessoa que vive ou já viveu na Bahia ou a visita não se pode negar veracidade ao comentário da Gal! O que se deve repudiar apenas é a generalização do adjetivo a todos os baianos. E, mais, sem dúvida, para mim pelo menos, não é isto que faz do baiano legal.


regina on 23 Janeiro, 2011 at 15:20 #

Não vou discutir com você, querida Mariana, hoje é domingo e eu tô com uma baita de uma preguiça!!!! Pode ser meu mal ou meu bem, mas é parte de mim, gosto de me espreguiçar…. Beijos!!!!


Antony Ynocencio on 6 Abril, 2011 at 8:21 #

you have a fantastic weblog right here! would you prefer to make some invite posts on my blog?


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