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Postado em 18-12-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 18-12-2010 00:05

Lula e Assange: dupla em alta no fim do ano

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OPINIÃO POLÍTICA

Assange e Lula nas quebradas de 2010

Vitor Hugo Soares

É fim de ano outra vez. No Brasil e no mundo vive-se período de baixa estação de notícias. Os diários impressos, as revistas semanais, as redes de TV, os blogs e os sites “operam à meia boca”, expressão que o jornalista Ricardo Noblat gostava de usar quando morava e trabalhava na Bahia – antes da explosão da web que o levaria de vez de Salvador e o transformaria em pioneiro dos blogueiros políticos mais citados do País.

Em dias assim a mídia está voltada, em geral, para o jogo interesseiro e desinteressante que cerca as escolhas ministeriais da presidenta que chega; ou às viagens e pajelanças de despedida do presidente que sai – na capital o no interior do País. Pior ainda, abre manchetes e produz textos amplos e generosos para mais “um retorno do imperador Adriano ao futebol brasileiro” (depois de eleito o pior jogador estrangeiro na Itália), ou para as maravilhas que a “top model” consegue operar na cozinha.

Tamanha apatia investigativa e falta de vigor no noticiário político e geral, principalmente, mas também o insosso e repetitivo noticiário de comportamento de nossas “celebridades”, é que valorizam e dão sabor jornalístico especial à matéria de capa da revista “Time” desta semana.

Trata da escolha do público leitor, por larga margem de votos, do australiano criador do site WekiLeaks, Julian Assange, como Personalidade do Ano, e da polêmica e contestável decisão dos editores da influente publicação de ofertar o título ao décimo colocado na votação popular do leitores: o norte-americano Mark Zuckerberg (criador do Facebook), a onda da moda na Internet.

Ainda assim merece destaque o notável saque jornalístico da Time, que começa pela própria composição da capa em si. A imagem na revista corre o mundo. No entanto, nunca é demais descrevê-la mais uma vez para os menos avisados, ou em respeito à lição de técnica de redação do saudoso e premiado mestre do Jornal do Brasil, Juarez Bahia (sete premiações do Esso de Jornalismo): “escreva sempre como se estivesse transmitindo a informação para o leitor pela primeira vez”. Obedeço ao querido Bahia, que nos deixou em um dezembro como este.

Assange está com a boca amordaçada por uma bandeira americana, o que já seria forte o suficiente, mas não pára aí. Acompanha uma incômoda pergunta como chamada, que completa o jeito ousado e genial de pensar e fazer imprensa: “Quer saber um segredo?”, pergunta a revista.

Bravo! Sensacional! Mesmo que no fundo a imagem e a pergunta sirvam para disfarçar uma boa dose de temor. Até mesmo de pusilanimidade – para ser mais exato – dos editores da legendária publicação. Na verdade, uma piedosa, embora criticável compressa jogada sobre a enorme ferida aberta na diplomacia e nos círculos mais representativos do governo e do poder nos Estados Unidos.

Ainda assim, o fato quando se analisa o conjunto da obra é que esta edição da Time é um primor. Um marco neste ano de 2010, em que a mídia impressa nos Estados Unidos, no Brasil e no resto do mundo tem pouco ou nada a festejar. E olha que, por estas bandas do Atlântico Sul, foi um ano de campanha presidencial.

Semana passada, bem antes de surgir a idéia da capa e de começar a circular a revista americana, o presidente Lula, notório peladeiro da Granja do Torto, não deixou a bola passar sem petardo certeiro na direção dos vacilos e omissões da mídia e dos grupos de opinião e intelectuais mais destacados no país. Deu apoio firme e explicito a Assange e seu site explosivo, além de levantar suspeitas em relação ao que, de fato, se esconde nos subterrâneos da insólita perseguição desencadeada contra o Wekileaks e seu criador: um grave e surpreendente atentado contra a liberdade de informação, com origem nos Estados Unidos.

Assange foi levado à prisão pelo governo britânico, sempre dócil e atencioso aos desejos do governo americano, parceiro histórico para toda obra na Europa. Mesmo que esses desejos sejam manifestados “por vias travessas” (como dizem os nordestinos) de uma ordem de prisão com base em estranha e suspeita acusação de “estupro” vinda da Suécia, onde o criador do Wikileaks teria se recusado a usar camisinha ao fazer sexo com duas súditas do farrista e bígamo Rei Gustavo, que anda as voltas em casa com atribulações sérias no gênero.

Tão forte quanto a capa da Time são as imagens de Assange saindo da detenção na última quinta-feira, sob aplausos e gritos de incentivos vindos das ruas de Londres, depois de pagamento de salgada fiança. Graças, registre-se por justiça, à colaboração de anônimos rackers e blogueiros do mundo, ajuda financeira mais substancial de celebridades como Michael Moore e Bianca Jagger, além de apoios políticos como o do presidente do Brasil. “Seguirei na minha luta”, anunciou Julian Assange, em breves e alentadoras palavras de coragem na saída da prisão.

Duas vitórias de uma vez e na mesma semana do criador do Wikileaks: A sua escolha, pelos leitores da Time, como “Personagem do Ano” e a reconquista da liberdade, ainda que tardia e provisória, mas sob palmas e vivas das ruas. Isso apesar da mal justificada decisão dos editores da revista de não dar bolas à vontade dos leitores, e oferecer o prêmio, de fato, ao criador do Faceboook, décimo colocado na votação.

Poderiam ao menos minorar a injustiça, se tivessem optado pelos mineradores e heróis chilenos retirados do fundo da terra, que ficaram em oitavo lugar na escolha dos leitores da revista. Os protestos já pipocam aqui e ali e não será surpresa se o presidente cobrar satisfações mais uma vez antes de passar a faixa para Dilma Rousseff.

No fim, Viva a revista Time. Afinal, fotos, opinião e polêmica seguem sendo, apesar de tudo, os melhores combustíveis da mídia (impressa ou digital) e do bom jornalismo.

Vitor Hugo Soares é jornalista; E-mail: vitor_soares1@terra.com.

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Comentários

Cida Torneros on 18 dezembro, 2010 at 7:07 #

Vitor, grande artigo!! Lúcido e brilhante, como sempre!! Feliz Natal e grande 2011! Obrigada por tudo. Beijos! Cida Torneros


José Américo Moreira da Silva on 18 dezembro, 2010 at 11:06 #

Sempre me delicio com seus textos e sinto um imenso prazer em ser presenteado com parágrafos que degusto como se fora bom vinho de safra especial. Tenha um feliz natal e um ano novo repleto de boas notícias.


vitor on 18 dezembro, 2010 at 11:50 #

Zé Américo

Delícia mesmo é ler essas palavras escritas por você, figura humana especial e profissional tão brilhante. Para escrever o artigo deste sábado lembrei muito de nossas longas conversas no Extudo, nas noites regadas a vinho e cerveja do Rio Vermelho, enriquecidas por suas histórias fantásticas e as de Noblat.

Um imenso e afetuoso abraço com desejos sinceros de tudo de bom neste Natal e no ano que vem.

Tim Tim, como diz o poeta Luiz Fontana

Vitor Hugo


Marco Lino on 18 dezembro, 2010 at 11:53 #

Ri à beça com a comparação entre Assange e o “bígamo rei Gustavo”. Parabéns pela espirituosidade.


luiz alfredo motta fontana on 18 dezembro, 2010 at 12:09 #

Caro Vitor

Tua generosidade por vezes muda a autoria

O “Tim Tim” é teu, foi assim que vc respondeu a um comentário meu no Noblat, confesso que agradou tanto que o adotei, mas…..é teu, quando o utilizo, e o tenho utilizado amiúde, na verdade te homenageio.

Tim Tim!


regina on 18 dezembro, 2010 at 12:52 #

Ambos acontecimentos atentam diretamente ao significado da Internet em nossas vidas, relacionamentos e conduta, ultrapassando talvez as mais audaciosas projeções do seu início.
Já se admite que as consequências do vazamento de informações e documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, trazidas a luz pela Wikileaks através do seu site e colocada a disposição de cinco jornais de prestigio mundial, possa ser de maior significado do que o Watergate ou a revelação dos papeis do Pentagono sobre a guerra do Vietnã.
Por outro lado o Facebook, que no principio não passava de um ato de desobediencia e intrusão na vida de estudantes da famosa e tradicional Universidade de Havard, Por Mark Zuckerberg, apenas um “teenager” na época, com o objetivo de agregar informações sobre estudantes e sua expansão ao alcançar a criação hoje de uma rede social de mais de 500 milhões de membros ao derredor do mundo, tornando seu autor num bilionário tão precocemente.
Enquanto os que temem a descoberta dos fatos clamam o fechamento e morte ao autor do Wikileakes, os que desejam a aproximação, o encontro, a abertura entregam seus dados pessoais de forma generosa nos sites da rede social.
O resultado é que a Internet, como meio, ganhou o jogo, qualquer que for o resultado.
A capa do TIME is priceless!!!!!!! Obrigada Hugo, por mais um goooooooooolllllllllllllll.


Carlos Volney on 18 dezembro, 2010 at 19:20 #

Sei que ouso até demasidamente ao colocar também um comentário depois de tantos ilustres e ilustrados comentaristas. Mas não resisti.
Textos de Vitor Hugo conseguem colocar-nos em estado de nirvana. Este faz mais, extrapola. Inscreve-se imediata e automaticamente na antologia do jornalismo brasileiro. Alvíssaras.


Graça Azevedo on 18 dezembro, 2010 at 20:55 #

Que posso dizer? TIM TIM! Sempre, amigo Vitor.


vitor on 18 dezembro, 2010 at 22:45 #

Cida

De volta à tona depois de um demorado mergulho de fim de ano pela cidade leio a sua mensagem amiga e generosa.

Na verdade, o Bahia em Pauta é que tem muito a agradecer por sua inteligente e leal colaboração, e este editor pela honra de sua amizade.

Toda felicidade do mundo para você neste Natal e no Ano Novo


Shirley on 12 Março, 2011 at 19:16 #

This is your best writing yet!

http://www.you-sexcam.org/


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