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A Vila boêmia de Noel e da cronista

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CRÔNICA/UM LUGAR

Noel na minha vida na Vila Isabel…

Maria Aparecida TornerosPiso nas notas musicais desenhadas no chao da Vila Isabel. Em pedrinhas portuguesas, ali estao alguns pedacinhos das canções que Noel Rosa imortalizou, em nosso bairro.

Quando vim morar no Andarai, com meus pais e irmao, tinha 20 anos. Logo, mudamos para a Vila e aqui passamos a morar em casas proximas, a partir dos casamentos e vindas de filhos e netos, costumamos circular pelas ruas onde vivemos, Teodoro da Silva, Maxwell, Artistas, Dona Maria, Souza Franco, e no Boulevard 28 de setembro.

Para quem vive por aqui, ja se tornou habito, dar uma paradinha no Petisco e ouvir historias de Noel.

Passei minha infancia e adolescencia no subúrbio da Leopoldina, precisamente em Ramos, era vizinha do mestre Pixinguinha, morava na rua do bloco Cacique, via e ouvia serenatas, pagodes de quintal, chorinho nos portões das casas, homens nas esquinas tocando violão.

Havia sempre gente cantando num Rio de Janeiro dos anos 50 e 60; cresci metida na “grandeza da gente humilde e fui muitas vezes a igrejinha da Penha, nas suas festas de outubro, subindo ate o alto, de onde avistava uma cidade encantadora, sob o prisma inverso do glamour da zona sul. Por ali, comecei a ouvir o que contavam sobre Noel, passei tambem a escutar sua musica, aprendi a sentir sua alma carioca , especialmente a vida curta e boêmia que levou

A marca do quanto Noel ziguezagueou mesclando-se entre classes sociais, misturando-se sem preconceitos ao seu povo, ele, um estudante de medicina, que se fez amigo dos malandros, que leu e traduziu o espirito gozador que caracterizou as duas decadas da sua passagem na terra.

Seu mundo virou legado e patrimônio para nossa cidade, e alcançou o patamar de brasilidade formada na consciencia cultural de uma capital como o Rio de Janeiro, infestada de fabricas de tecidos, botões, predios publicos, faculdades formadoras de médicos, engenheiros, e vidas paralelas, os botecos, os lugares do baixo meretricio, as noitadas, os amores oficiais e as paixões clandestinas, proibidas ou seus desdobramentos. Festas de São Joaã, festas da igreja da Penha, bailes nas gafieiras do centro, banhos de mar em Copacabana, escapadas da juventude que ele representou. Havia o risco da tuberculose, e ainda pairava nos ares daquele seu tempo, o romantismo quase suicida de viver intensamente as emoções, ainda que o tempo fosse curto, mas de profunda busca da felicidade.

Noel estava constantemente nas histórias suburbanas. Todos os antigos da época sabiam algo sobre ele, cada música sua tinha um enredo tão carioca e tão entranhado no orgulho dos trabalhadores que pegavam o trem de manhazinha.

Nas minhas aulas de escola normal, analisavamos suas letras. Lembro-me que a professora Telenia Terezinha levou semanas trabalhando conosco os versos de algumas das suas criações. Impressionavam-me pelo conteudo e forma, por exemplo: “O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapeu, e também vão sumindo as estrelas lá do céu, tenho passado tão mal, a minha cama e uma folha de jornal, meu cortinado é o vasto ceu de anil e o meu despertador é o guarda-civil, que o salário ainda nao viu”

Como nao se apaixonar por Noel, sua genialidade e seu irreverente viver? Anos mais tarde, trabalhei com um médico que fora seu companheiro de classe na universidade, dr. Paulo Ferreira, que já velhinho, me contava mazelas entre risadas, sobre o rodizio que os colegas faziam para cobrir suas faltas, ajuda-lo nos trabalhos, esconde-lo no fundo das salas, para que ele dormisse nas manhãs em que tentava frequentar a faculdade de medicina, vindo direto da boemia, mas encantando os amigos com seus relatos e poesias musicais.

Talento, arte, encanto, um conjunto privilegiado para um compositor e interprete do seu proprio destino, capaz de nos sensibilizar hoje tanto que ao completar 100 anos de nascimento, e depois de ter vivido somente 26, na verdade, permanece vivo, esta entre nós, e a mim, especialmente, me faz muito bem cantarolar Palpite Infeliz… ” quem e você que nao sabe o que diz, meu Deus do ceu que palpite infeliz, a Vila não quer abafar ninguem, so quer mostrar que faz samba tambem…”

As rodas de samba continuam pela Vila e pela cidade toda, temos uma herança que nos mobiliza especialmente na vida e obra do grande Noel, o sensivel estudante, o apaixonado homem, o gozador e brincalhao letrista que perguntava com que roupa iria ao samba, o sofrido autor do ultimo desejo, o simpatico motorista apaixonado pela operaria da fabrica de tecidos, cujo apito feria seus ouvidos, nas manhas em que ele voltava da farra e observava a jovem que nao lhe dava bola.

Noel fez do seu dia a dia um enredo de canções especiais, imortalizou costumes através das suas poesias, brincou com seus momentos de dor e ultrapassou os sofrimentos humanos nos oferecendo alegria, emoção, a sensação deliciosa de que realmente ser da Vila, com licença, meus senhores, nos confere o status de sermos parceiros do Noel, mesmo um seculo depois…

Cida Torneros, jornalista e escritora, moradora da Vila Isabel, edita no Rio sdew Janeiro o Blog da Mulher Necessária.

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Viva a Vila de Noel, Martinho, Martinália e Cida.

BOA NOITE!!!

(Postado por Vitor Hugo Soares)

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Comentários

Cris on 13 dezembro, 2010 at 18:56 #

Itinerário poético -musical da melhor qualidade!
Me vi lá sentindo agora em dó em fá, em si ré mi !
Só Vc Cida!


vitor on 13 dezembro, 2010 at 22:23 #

Pode apostar, Cris. “C `est formidable”, diriam os franceses na definição mais perfeita para o texto de Cida. É uma honra para o Bahia em Pauta poder publica-lo.

Vitor Hugo


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