Lula com Wagner em Ilheus: do PAC …

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…a Assange: viagens e polêmicas até o fim

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ARTIGO DA SEMANA

A ÚLTIMA MARATONA DE LULA

Vitor Hugo Soares

Sob um céu carregado de nuvens pesadas, cortado na véspera de raios e trovões, o presidente da República desembarcou ontem na Bahia. Bem ao seu estilo, lLuis Inácio Lula da Silva desafiou as previsões meteorológicas, de fortes tempestades para a região, ao iniciar por Ilhéus, na costa sul do Estado, sua última maratona pelo país, no cargo, antes de passar a faixa para Dilma Rousseff, que ele elegeu sua sucessora, na lábia e no muque, depois de 8 anos de mando, em dois mandatos seguidos.

Na sua despedida, a julgar pelo desafio às condições adversas da viagem ao sul baiano, para assinar algumas ordens de serviços na área de infra-estrutura do PAC, Lula guarda semelhanças marcantes com aquele personagem encarnado por Charles Bronson no filme cult dos anos 70, “O Passageiro da Chuva”. O agente que imagina ter muito ainda por descobrir ou realizar, mas verifica que o tempo implacável lhe escorre entre os dedos.

Bem, como nenhum outro antecessor, na fotografia das pesquisas de apoio popular e no prestígio internacional – mais de 80% de aprovação pessoal e ao seu governo – o nordestino que um dia desembarcou no sudeste viajando em pau-de-arara, nascido para a política nas lutas sindicais do ABC paulista, parece querer ainda mais.

Dentro e fora do país, o pernambucano de Caetés busca talvez a unanimidade. Isso apesar do baixo conceito que o seu conterrâneo Nelson Rodrigues, mestre da escrita e da crítica de costumes no Brasil, tinha e proclamava das coisas unânimes. Ainda assim, Lula não sossega. A 20 dias de passar a faixa presidencial ele fala sem parar, viaja mais ainda, se cerca de polêmicas, mantém e indica ministros para o governo da sucessora que elegeu, promete e inaugura obras. Faz o diabo, enfim.

O presidente que se despede é foco dos principais holofotes. Dá as cartas enquanto a mineira Dilma, prestes a entrar, escolhe a turma que governará com ela em silencio e quase sem marolas – salvos as do PMDB de Temer e Sarney, sempre famintos por uma fatia a mais de poder.

Vejam, por exemplo, o saque político e midiático do presidente em Brasília, na quinta-feira, horas antes de embarcar para a Bahia. No auditório amplo e repleto de ouvintes privilegiados, cercado de câmeras e ouvidos atentos dos correspondentes estrangeiros, o presidente da maior nação democrática da América Latina não poupou balas.

Diante das vacilações que beiram a cumplicidade de setores importantes da imprensa brasileira e mundial, em face da flagrante tentativa de intimidação e claro desrespeito à liberdade de informação, Lula não perdeu tempo: condenou com máxima severidade a prisão de Julian Assange, o organizador do polêmico portal WikiLeaks, responsável por um terremoto na diplomacia dos governos mais poderosos do planeta – a começar pelos Estados Unidos – , de repente acusado por suposto crime sexual praticado na Suécia.

Em seu protesto contra o cerceamento da liberdade de expressão na Internet, o presidente brasileiro foi direto ao ponto. Disse não enxergar crime algum no trabalho do australiano. O que Assange fez, via Wikileaks, foi simplesmente divulgar em seu site aquilo que ele leu.
“Se ele leu é porque alguém escreveu, o culpado não é quem divulgou. O que ele fez foi dar conhecimento do que está escrito. Portanto, em vez de culpar quem divulgou, culpem quem escreveu a bobagem, porque senão não teria o escândalo que tem. Então, Wikileaks, minha solidariedade pela divulgação das coisas e meu protesto contra o brasileiracerceamento à liberdade de expressão,” disse o presidente para o Brasil e o mundo ouvir, ao estranhar a falta de reaçòes mais firmes na imprensa brasileira e de outra áreas de opinião.
Na mosca. “Eu assinaria embaixo”, como assinalou ontem o colunista Ricardo Boechat, na Radio BandNews FM. Raro e firme comentário jornalístico sobre caso na imprensa nacional, que na quinta-feira praticamente ignorou as reações mundiais – incluindo manifestações de rua – contra a estranha prisão de Assange e o que ela representa em termos de prejuízo grave para o direito à livre informação.
Promete, e muito, a derradeira maratona de Lula no poder pelo País. Ao contrário de seus antecessores, que curtiram os últimos dias de mando de forma discreta, muitos até melancolicamente, Lula planeja cumprir uma agenda intensa até o final do mandato.
De ontem até o dia 29, ele deve visitar 16 cidades de 11 estados brasileiros. Percorrerá aproximadamente 22 mil quilômetros, o equivalente a quatro vezes a distância entre os extremos sul do Brasil, o Arroio Chuí (RS), e norte, a Foz do Oiapoque.
Pelo começo de ontem, na Bahia, o périplo de despedida do presidente vai dar muito o que falar! A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.bra

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Carmem on 11 dezembro, 2010 at 9:36 #

Na Bahia, Lula repudia oligarquia baiana, no Maranhão, absolve a oligarquia dos Sarney… Assim não dá, assim não pode ser. Parabéns pelo artigo, como de costume!


Marco Lino on 12 dezembro, 2010 at 3:18 #

De fato, o caso do Wikileaks está atuando como uma ironia corrosiva na lábia dos arautos das liberdades no Brasil.


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