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Postado em 01-12-2010
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 01-12-2010 12:05

Rosa Parks com Luther King: resistência

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DEU NO BLOG DA CULTURA
(Publicado em 1/10/2009. Válido hoje e sempre )

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por Kelly de Souza

Muitas vezes os grandes personagens aparecem do nada, nascendo de um simples gesto quando numa fração de minutos decidem sair do script, romper fronteiras, sair da boiada. O mundo está cheio de pessoas que querem fazer isso o tempo todo, mas têm medo. Há 54 anos, em Montgomery, estado do Alabama (EUA), uma delas resolveu enfrentar o pavor. Uma costureira humilde, negra, Rosa Parks, 42 anos, fez a diferença e mostrou que mesmo sem nada planejado, nada pensado, só com um gesto de desafio, podia mudar as coisas. Em 1º de Dezembro de 1955, ela estava sentada com outras pessoas no início da “seção negra” de um ônibus local de transporte coletivo.

Nessa época imperava o sistema de segregação racial, que separava as primeiras fileiras de assentos para pessoas brancas. Havia uma placa móvel destinando os assentos para cada cor, e quando o número de pessoas brancas aumentava, o motorista deslocava a placa para trás, aumentando a “seção branca”. Os negros tinham de se deslocar ou sair do coletivo. Nesse dia, o motorista James F. Blake viu um passageiro branco ficar sem lugar. Parou o ônibus lotado e mandou que os negros liberassem uma fileira. Todas as pessoas obedeceram, menos uma, Rosa Parks. Olhando para Blake, ela se recusou a sair de seu lugar (mais por cansaço do que por espírito revolucionário).

O motorista chamou a polícia e Parks foi imediatamente presa. Quatro dias depois foi declarada culpada, com multa de US$ 10 (e mais 4 de custas judiciais). Foi libertada sob fiança, por intervenção do advogado Fred Gray, líder histórico do movimento pelos direitos cívicos. Alguns dias depois, em protesto, o Conselho Político Feminino realizou um boicote aos ônibus públicos. Previsto inicialmente para um dia, a rebeldia durou mais de um ano, quase quebrando a rede pública de transporte de Montgomery. Um desconhecido entrou em cena, Martin Luther King, que abraçou a causa, liderou o boicote e iniciou um processo de mudança nas relações entre negros e brancos nos EUA. King ganhou projeção nacional com o fato, tornando-se o maior líder pelos direitos civis negros na história da América.

O boicote acabou em 1956 e teve ramificações muito além de seus objetivos iniciais. A Suprema Corte americana declarou ser ilegal a segregação racial nos transportes públicos. King fez bonito, mas foi essa senhora, Mrs. Parks, até então desconhecida, quem na realidade deu ignição ao processo (perdeu o emprego por causa do incidente). Naquele dia, sozinha, humilhada, sem vontade de fazer política, mas com vontade de ficar sentada, tão cansada estava, mostrou a força das pequenas rebeldias. A pressão sobre Parks foi tão grande que ela teve de se mudar para Detroit (1957). Daquele dia em diante jamais foi a mesma, abraçando também a causa negra, como ativista dos direitos civis até o fim da vida (mesmo depois da morte de King). Viúva em 1977, Parks escreveu sua autobiografia (Rosa Parks – My Story), trabalhou como recepcionista, secretaria, e sofrendo de demência progressiva, morreu em 2005, aos 92 anos.

Os mais jovens podem conhecer a história de Parks no recém-lançado livro “Rosa Parks: não à discriminação racial”, do escritor africano Nimrod, onde o tratamento ficcional e o espírito de indignação e revolta, próprio da juventude, favorecem a identificação do jovem leitor com essa fantástica mulher. Pequenos gestos, pequenas rebeldias, sem violência, sem agressividade, pequenas ações podem fazer a diferença na cidadania. Às vezes basta dizer Não! Hoje não. Às vezes, pequenas intolerâncias fazem a diferença até em nosso dia-a-dia, em nosso trabalho, em família. Pequenas e ricas rebelações muitas vezes mudam o mundo, às vezes, o nosso mundo. Ações prosaicas, despercebidas, sem repercussão, sem alarido, realizadas no canto da vida, no escuro de nossa rotina… Há muita coisa errada na vida que poderia ser resolvida com uma simples, serena e pacífica rebeldia, como fez Rosa Parks.

Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita – não necessariamente nessa ordem

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