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OPINIÃO POLÍTICA

Brasil aceita apedrejamento

Ivan de Carvalho

Aconteceu na semana passada, mas só agora tenho a chance de me referir ao assunto. E não é coisa sobre a qual me conceda a comodidade da omissão. O Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas aprovou, na última quinta-feira, uma resolução na qual manifesta grande preocupação com a prática da lapidação (apedrejamento), flagelação (chicotadas) e amputação como punição no Irã. A resolução foi aprovada com os votos de 80 países.

No entanto, nada menos que 57 Estados representados na ONU tiveram a coragem, perdão, covardia de se omitirem, de se absterem de votar. E um deles foi a República Federativa do Brasil. Infelizmente, este é o nosso país, um dos que se acovardaram ou interessadamente se abstiveram ante a resolução que atingiu o governo celerado do Irã.

É possível que o governo brasileiro haja se amedrontado quanto a contrariar a posição de alguns dos outros 56 países que se omitiram. Se não fizeram objeção quando a ocasião se apresentou, aceitaram.
O medo é uma hipótese razoável, pois recentemente a presidente eleita Dilma Rousseff declarou ser o apedrejamento uma prática “bárbara”, não importando para tal qualificação (ou desqualificação) os usos e costumes iranianos. Seria “bárbara” mesmo com tais usos e costumes.

A hipótese do medo também encontra respaldo na atitude do presidente Lula ante o caso (que foi igualmente o abordado nas declarações de Dilma Rousseff) da iraniana Sakineh Ashtiani e o que provocou a resolução da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Lula ofereceu publicamente asilo a Ashtiani, “caso ela esteja sendo causa de incômodo para o Irã”. Mas o que incomodou o Irã para valer foi a oferta de asilo feita por Lula – que depressa se calou e tirou o cavalinho da chuva, possivelmente “aconselhado” pelo inverossímel assessor para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Garcia, aquele do top, top, top. Quem fizer tudo ao contrário do que ele aconselhar, acerta.

Sintetizando: o governo Lula votou contra inclinação pública inicial do presidente Lula e contra explícita, elogiável e enérgica opinião e afirmação da presidente eleita Dilma Rousseff.
Então, pode ser que os joelhos não se hajam agüentado firmes. Mas também é possível levantar hipótese bem mais vergonhosa: eventuais (e por enquanto muito pouco relevantes) interesses comerciais teriam levado o Brasil a não manifestar grande preocupação (nem foi uma condenação formal, com esta denominação) com as pedras, os açoites e as amputações punitivas. Curioso, não tenho visto os movimentos brasileiros de defesa da mulher movendo-se nesse caso da condenação de Sakineh Ashtiani. Será que essa paralisia decorre de que a maioria desses movimentos está sob comando das chamadas “esquerdas” e estas simpatizam com a teocracia nada “esquerdista” do Irã? Esses movimentos expliquem isso, se quiserem.

Do que não tenho dúvida é de que a omissão (abstenção) do governo brasileiro no Comitê de Direitos Humanos da ONU foi, moralmente, tão “bárbara” quanto o apedrejamento de Sakineh, condenado pela presidente eleita Dilma Rousseff. Que, cristã como se proclamou este ano, terá em alta conta o perdão dado a Maria Magdalena por Jesus, quando, há quase 2 mil anos, ia ser apedrejada sob a mesma acusação.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 22 novembro, 2010 at 11:35 #

Caro Ivan

Belo texto, especialmente quando nele aflora a condenação à barbarie constitucional do Irã. Mesmo que, ressalve-se, consideremos que estados sob concepção religiosa tendem a resvalar nessas sandices. Talvez a mais explícita concepção de anjos caídos. levando a efeito, em nome do divino, castigos e penas dignas de enredos dantescos. Digo talvez, por não guardar nenhuma pretensão em entender e desvendar os sortilégios dos que abraçam esta ou aquela visão religiosa como verdade e razão.

Errou Lula, com o desconforto adicional de o fazer amiúde, assessorado por este Marco Aurélio “Top Top” Garcia, secundado por Amorim, o que perdeu o convite, junto com a vã esperança de permanecer no Itamaraty, para a última e recente viagem de nosso lame duck.

Acreditar, entretanto, que Dona Dilma possa representar avanços, é no mínimo temerário.

Dilma parece à vontade neste meio que abriga, dirceus,franklins, aurélios garcias, entre outros, e seus afetos explícitos como Castro, ou Chávez.

Porém, a título de alerta, cabe lembrar ao articulista, que a atitude de Lula, ao oferecer uma solução canhestra ao possível ‘desconforto” representado pelo apredejamento, tem similitude com a tal atitude cristãã, afinal, Cristo não rebelou-se contra a barbárie da execução, e sim defendeu Madalena, oblíquamente, ao clamar pela existência de um inocente, “quem não tiver pecado que atire a primeria pedra”, que levasse a cabo o martírio. Aceitou assim, não só a pena, como também o método, desde que outros não fossem pecadores, o que, acredite, incendeia os piores instintos dos ditos puros.

Não parece ser com o contraponto religioso, aliás já levado ao extremo pelas cruzadas, que iremos lograr avanços.


marco lino on 22 novembro, 2010 at 17:16 #

Acho interessantíssimo esse pessoal (como o nosso glorioso Carvalho) enxergar a barbárie dos orientais (sim, não deveria deixar de falar) e fechar os olhos para as barbáries que estão diante de nossos olhos.

Sim, quantos adolescentes pretos e pobres são mortos em nossas periferias?! Quem grita?! E em Guantánamo, será que existe barbárie por lá?! Bombardear o Iraque por petróleo e matar centenas de milhares (dizem que mais de um milhão) de civis foi civilizado? E o “escolhido” Israel, será que comete atrocidade contra os palestinos? Fez bem quando metralhou o navio de ajuda humanitária? Quem reclama, cara pálida?

Torrar um doente mental numa cadeira elétrica é mais “civilizado”, hein? Ah, sim, a questão então é a pedra? Então tá!

Como os religiosos gostam muito de citar Cristo, citarei:

“Hipócrita (ocidental, cristão), tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão (oriental, muçulmano)”

Evangelho segundo São Mateus, capítulo 7 e versículo 5.


danilo on 22 novembro, 2010 at 18:32 #

hehehe deixe de guéri guéri, Marco Lino. diga logo q vc apoia Ahmadinejad. apoia o paredon de Fidel, e aquele cara medonho da Coréia do Norte.

e aproveita e manda o Chico Buarque cantar “Meu Guri”. aliás, parece q ele não canta mais essa musica. nem outras.

Chico agora virou o Dom e Ravel da era Lullla. Chico só canta “eu te amo meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde amarelo branco e azul anil, ninguem segura a juventude do Brasil, prá frente Brasil!”


marco lino on 22 novembro, 2010 at 18:45 #

Bom te ler, Danilo, vc faz falta.

Mate saudade do Chico

http://www.youtube.com/watch?v=xAKolC3PqR4

Abs


danilo on 22 novembro, 2010 at 19:27 #

Marco Lino

vc deturpa e descontextualiza a realidade histórica.

nos Estados Unidos qualquer cidadão tem a liberdade para verbalizar sua oposição ao sistema político e vociferar contra a cadeira elétrica e protestar contra Guatánamo e contra tudo q dê na telha.

mas ai daquele doido cidadão cubano q critique o Coma Andante Fidel e o regime comunista. vai preso na hora.

o mesmo acontece no Irã. ai daquele q fale mal dos aiatolás e do nanico zóio junto do Ahmadinejad. vai ser preso na hora.

aí está a diferença, Marco Lino. aliás, vc bem sabe disso, mas finge q não sabe por causa do sua predileção por ditaduras de esquerda e sua admiração por tiranos que pregam o anti-americanismo bocó.

mas de qualquer maneira suas análises políticas são tão profundas quanto a piscina de crianças do clube do sindicato da pelegada…


marco lino on 22 novembro, 2010 at 20:22 #

Sem comentários.

Imaginei que o assunto fosse o apedrejamento da iraniana, morte. Mas o profundo Danilo diz que não, que o assunto é ditadura. Intão tá.

Bye


Ivan de Carvalho on 22 novembro, 2010 at 23:22 #

Caro Fontana,
Obrigado pelo elogio inicial. Vindo de um poeta de valor, tem valor.
Permita-me intercalar umas poucas palavras dirigidas ao Marco Lino, que outras já disse a ele, no seu estilo duro e franco, o Danilo.
Ao Marco Lino: poderia ter condenado também a torrefação de pessoas na cadeira elétrica, ou nos fornos crematórios dos campos de concentração nazistas, precedidos pelos banhos a gás letal (e ainda temos hoje câmaras de gás). Mas preferi não dispersar forças. Citando aí um ex-presidente do PT, o José Genoíno, “uma coisa é uma cousa e outra coisa é outra coisa”. O assunto era a resolução da ONU sobre a violação dos direitos humanos no Irã. Agora, Marco Lino, sou e sempre fui e já escrevi isso várias vezes e foi publicado, contra qualquer tipo de pena de morte, sejam as torturantes ou precedidas de tortura, sejam as instantêneas, como o fuzilamento ou a bala chinesa na nuca, sejam a guilhotina da Revolução Francesa ou a fogueira da inquisição, sejam as indolores, como a injeção letal, sejam as milhões de penas de morte de inocentes aplicadas por fome fabricada e deportações de popilaç~pes de suas regiões pelos ditadores comunistas Stalin, da URSS e Pol Pot, do Cambodja. Este acrescentou a modalidade de afogamento em “piscinas” cheias de excrementos humanos. E, quanto a isto, estamos conversados, embora as maneiras de matar “legalmente” inventadas na história da humanidade possam resultar numa lista talvez interminável. Sempre alguém pode inventar mais uma.
Agora, voltando ao principal, o comentário de Fontana.
Vamos deixar de lado os anjos caidos, são um assunto complexo também para mim. Iríamos ficar tatenando, talvez sem encontrar o caminho exato.
Segundo parágrafo de seu comentário – concordância total. Faço meu.
E olha outros dois parágrafos seus que faço meus: “Acreditar, entretanto, que Dona Dilma possa representar avanços, é no mínimo temerário.

Dilma parece à vontade neste meio que abriga, dirceus,franklins, aurélios garcias, entre outros, e seus afetos explícitos como Castro, ou Chávez.”
Quando me referi aprovadoramente à enérgica e direta reprovação de Dilma à Sakineh Ashtiani, não duvideu da opunião dela, mas nem por isso cometo o que você considera (e eu também) temerário, achar que ela representa avanço. Note que há um certo e não casual elemento de ironia nas últimas três linhas do artigo.
Eu posso cometer temeridades, mas não cometeria a temeridade específica sobre a qual você muito bem advertiu.
E também faço minha a observação sua de que a presidente (a) está muito à vontade com os companheiros plurais dela que você citou “e seus afetos explícitos como Castro, ou Chávez”.
Aliás, achei um achado esse negócio de “afetos explícitos” e desde já peço licença para, oportunidade, usar a inspirada expressão.
Bem, agora a parte difícil. Tentarei ser sintético. Um dos Dez Mandamentos era “não matarás”, mas assim mesmo a lei judaica (e está na Bíblia) permitia (além das mortes nas guerras) a pena de morte. Inclusive por apedrejamento: “E sendo o filho comilão ou beberrão, o pai pode levá-lo à porta da cidade e chamar os amigos para que o apedrejem até morrer”. Mais ou menos isso. E para o adultério, a punição também era o apedrejamento. Um dia veio Jesus. Quando disse “aquele dentre vós que não tiver pecado atire a primeira pedra”, ele sabia que todos tinham pecado. E também sabia que em qualquer outro ligar, qualquer que se dispusesse a apedrejar alguém tinha pecado. Porque dificilmente se acharia no mundo alguém sem pecado, como Ele, Jesus, um Buda, um João Batista (“Dos nascidos de mulher, o maior foi João Batista”, disse Jesus. Mas havendo alguns, pela mente (ou coração) de um justo, sem pecado, não passaria a jamais idéia ou emoção de apedrejar alguém.
Por isto, se não o convenci, discordamos neste ponto. Garanto: Jesus, ali no episódio de Maria de Magdala, revogou a velha lei, restaurando a dimensão profunda do mandamento dado por Moisés.
Abraço, Ivan


luiz alfredo motta fontana on 23 novembro, 2010 at 6:49 #

Caro Ivan

Exegeses são assim, costumam ser díspares, até para a sobrivivência dos tais exegetas.

Só um adendo minúsculo, exegeses sempre advém de obscuridades, omissões, e tangenciamentos, afora é claro, a mudança de ventos e rumos que antecedem novas normas.

De resto, renovo o elogio, belo texto, belo olhar, e o repúdio comum aos bárbaros de sempre. Sejam eles deuses, ou meros profetas.


luiz alfredo motta fontana on 23 novembro, 2010 at 7:03 #

errata:

sobrivivência – sobrevivência


Marco Lino on 23 novembro, 2010 at 12:38 #

Pois é, Ivan, “poderia” – ou como escreve o Fernandes, p-o-d-e-r-i-a.

Sua condenação aos EUA pelas mortes (a fila é imensa) na cadeira elétrica (ou por uma invasãozinha qualquer, ou pelos “direitos humanos” em Guantánamo) fica para quando sair uma resolução da ONU a respeito. Sairá, tenho certeza.

Mas, convenhamos, a moda da vez é o Irã – como um dia foi o Iraque. Este tinha “armas de destruição em massa” que destruiriam a civilização ocidental. O grande irmão do norte fez a invasão, matou saqueou e nada do que diziam ficou provado. Mesmo assim, nenhuma desculpa. Aliás, fizeram ao Iraque o que diziam que o Iraque fazia aos outros: saque e morte. Claro, o negócio era outro.

O pato feio da vez é o Irã. A mesma ladainha, os mesmos atores, os mesmos sabujos, os mesmos papagaios: o Irã está construindo armas para acabar com Israel e com o Ocidente. Legal, eu creio em duende.

Aliás, nos dias que antecederam a invasão, o sabujo Casoy, do auto de sua inenarrável arrogância, sentenciou: “só um ingênuo não acredita que existam armas de destruição no Iraque”.

O civilizado e democrata Bush filho (certamente o pai tb) fazia orações antes de autorizar um novo ataque. Uma pergunta que cabe é: à quem?!

Reitero Mateus 7.5. Amém!


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