Darin: “o humano é a essência”

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DEU NO ESTADÃO

Poucos atores argentinos surtem o mesmo efeito no público brasileiro como Ricardo Darín. Portenho de 53 anos, ele é a própria personificação da Buena Onda que tomou as praias do cinema da Argentina na última década. De Nove Rainhas a Abutres, que ele mostrou e debateu com o público da 5ª Mostra Cinema e Direitos Humanos, em São Paulo, passando por O Segredo dos Seus Olhos, Darín esteve na linha de frente de um cinema latino-americano que se provou capaz de abocanhar dois Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e fazer milhões de bilheteria.

Em sua segunda passagem por São Paulo (a primeira foi há 30 anos, em férias), ele conversou com o Estado. Antes, gravou entrevista para a TV Estado e pediu para não ser filmado fumando. “Não é que eu seja politicamente correto, mas não quero que as crianças me vejam com cigarro. Não quero incentivar. Prefiro que elas façam pilates, a única coisa que dá jeito nesta dor nas costas que sinto quando viajo.”

Você já disse anteriormente que não costuma aceitar homenagens. Por que desta vez, em uma mostra de cinema de direitos humanos, aceitou?

Justamente por isso. Porque há um tema que é superior ao meu próprio ego. Porque em geral não acho que estou no ponto de receber homenagens. Mas quando me chamaram na embaixada brasileira em Buenos Aires e me contaram que o foco deste festival era justamente os direitos humanos, e que poderia falar disso nesta oportunidade, me dei conta de algo sobre meus filmes que nunca tinha pensado antes.
O quê? O fato de, mesmo indiretamente, tratarem de direitos humanos?

Exatamente! Percebi que O Filho da Noiva fala do direito de envelhecer com dignidade, Abutres, do direito à saúde e segurança, Kanchatka, do direito à memória… Nunca escolhi papéis por este viés, mas de uma forma ou de outra, eles tratam de temas que muitas vezes nós, especialmente na America Latina, não tratamos com o devido respeito.
E falar de forma sutil, em vez de panfletária, pode resultam em efeito ainda maior.

Sim. Acho que esta é a essência e a chave do entendimento humano. Não devíamos tentar impor nada. O melhor caminho para dar nossa opinião é mostrar e expor. Se for de forma artística, melhor. Quando um tema é importante, deve-se deixar que flua.
Assim como em Abutres, em que o tema da máfia dos seguros é escancarado, pessoas de vários países devem se identificar.

Quando o filme estreou em Buenos Aires, foi uma comoção nacional, porque mostra um lado muito cru da nossa realidade. Muitas senhoras saíram abaladas. Mas já estreou na França (e competiu na seção Un Certain Regard em Cannes, em maio), na Espanha… Lá também houve o mesmo choque. Acredito que no Brasil vocês tenham o mesmo problema.

Além do direito à segurança, à justiça, Abutres revela nas entrelinhas a luta pelo direito ao amor, tema que parece hoje tão fora de moda ou cafona na forma como é tratada no cinema, não?

Foi exatamente por isso que aceitei fazer o filme. Quando Trapero me mandou o roteiro, li e vi que, além de um thriller, era, no fim das contas, uma história de amor em um campo minado. E a realidade é muito pior do que o filme. O ser humano pode ser tornar um monstro quando o assunto é sobreviver. Mas o fato é que também encontra formas de amar. E esta é a luta deste casal. Porque o amor é necessário. Amar, afinal, também é uma questão de sobrevivência.
A

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