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Postado em 20-11-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 20-11-2010 00:07

Ulysses:princípios acima de tudo

Severino: olho nos cargos

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ARTIGO DA SEMANA

ULISSES E SEVERINO EM BRASÍLIA

Vitor Hugo Soares

Em cenário ainda de pouca luz e muita sombra começou em Brasília, esta semana, um torneio de fato interessante na disputa pelo poder no País nos anos pós-Lula que começam a se delinear. Um torneio “aperitivo” como o antigo Roberto Gomes Pedrosa ( Rio – São Paulo) , com dimensão nacional, valendo pontos e taça para os vencedores,

Por seus contrastes gritantes, nos primeiros lances, este campeonato de Brasília tanto poderia ser batizado com o nome do paulista Ulysses Guimarães quanto do pernambucano Severino Cavalcanti, ex-parlamentares de comportamentos opostos. Ambos, no entanto, figuras emblemáticas da política brasileira. De ontem e de agora, para o bem e para o mal.

Com alguns lances manjados, ferrolhos defensivos e jogadas surpreendentemente ofensivas e até alguns chutes nas canelas, o torneio político merece atenção: vai revelar em breve – provavelmente até 15 de dezembro, duas semanas antes do Reveillon de 2011 -, quem de fato tem “farinha no saco para vender na feira” no governo da ainda reticente presidente eleita Dilma Rousseff, e seu apressado vice, Michel Temer, do PMDB.

Ah, como observo tudo e escrevo da Bahia, devo reconhecer: Taça Antonio Carlos Magalhães também não cairia mal para denominar este confronto encardido, de fim de temporada, jogado neste período de tempo incerto que faz no planalto central do país.

Revejam, por exemplo, imagens transmitidas em noticiários, nos horários nobres, de algumas redes nacionais de TVs, em seguida à badalada reunião, no começo da semana, das tropas governistas sob o comando de Temer e mais algumas cabeças de facções partidárias, que se julgam coroadas no novo círculo do poder estabelecido pelas urnas de outubro.

Como em velhos tempos, tudo culminou em girândolas de fogos de artifício, a partir do anúncio da formação do bloco capitaneado pelo PMDB e completado pelo PR, PP e PSC. O líder peemedebista na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), logo correu para negar que houvesse, na decisão, quaisquer propósitos de disputas de cargos ou de “confronto” com o PT no governo Dilma.

As imagens, porém, como rezam os princípios mais verdadeiros da comunicação de massa, em geral valem muito mais que mera retórica no histórico confronto entre o adjetivo e o substantivo. E estas (as imagens), mostradas nos noticiários, exibiam com clareza as tropas reforçadas de Temer – ex-ministro baiano Geddel Vieira Lima à frente – preparadas para a guerra, enquanto desciam as escadarias do local do encontro para formar o megabloco. Parecia replay de jogo antigo para furar bloqueios no Palácio do Planalto.

Megabloco, diga-se, que em menos de dois dias acabou batizado mesmo de “blocão”. Graças “a essa mania brega brasileira do ão, como registrou o bem humorado colunista político da Tribuna da Bahia, Ivan de Carvalho, ao comentar o assunto no dia seguinte. Breguice que, desgraçadamente, vai se eternizando também em nossa imprensa.

Se vivo estivesse o nobre timoneiro da democracia, Ulysses Guimarães, teria seguramente alertado aos atuais comandados de Michel Temer: “É o voto, somente ele, que faz a acoplagem dos cidadãos com os homens públicos e o Estado”.

Ou, quem sabe, o velho Ulysses seria mais duro em sua advertência, e diria agora como o fazia no passado de resistência: “O jeito também é força. Se vence obstáculos e antagonismos, é força. “Suaviter in modo, fortiter em re”, eis a receita pessedista dos romanos, que dominaram o mundo. A toupeira quando em seu caminho encontra a pedra, não podendo escalá-la não tem jeito para contorná-la. Morre ao sol, à fome ou à sanha dos inimigos. O PSD foi o laboratório do jeito”.

Na mosca. Mas, como se sabe, Ulysses Guimarães continua no fundo do mar, mesmo que espiritualistas jurem ter visto sua sombra sobrevoando o Planalto Central nestes dias difusos e complicados da política nacional. Vivinho mesmo, em carne e osso, quem circulou por Brasília esta semana foi outro ex-presidente da Câmara, o polêmico ex-deputado Severino Cavalcanti, atual prefeito da pernambucana cidade de João Alfredo, pelo PP.

Severino se deslocou do Nordeste para reforçar as hostes de seu partido, na disputa pelos cargos no pedaço de poder no governo Dilma que imagina lhe caber. Ao velho e conhecido estilo foi direto ao ponto, sem subterfúgios ou meias palavras. Como já fizera no passado, ao exigir do presidente Lula “a diretoria da Petrobras que fura poço de petróleo” para um protegido seu, agora circulou pelo Salão Verde do Congresso com propósitos semelhantes.
Disse que a aliada Dilma precisa jogar duro e mostrar que ela é quem manda. Mas logo tratou de avisar aos outros partidos aliados: ninguém tira do PP o Ministério das Cidades, que dá votos. “Está todo mundo de olho no Ministério das Cidades, mas ele já tem dono e o ministro será Márcio Fortes. O ministro deu a eleição a Dilma porque fez tudo que Lula mandou ele fazer. É uma pasta que dá emprego, dá condições ao povo, por isso, automaticamente, dá voto, proclamou Severino com todas as letras.
Um torneio de profissionais, logo se vê. O fato, no entanto, é que só o PT já levou alguma coisa, ao ter garantida a permanência de Guido Mantega – fiel companheiro da presidente eleita – no poderoso Ministério da Fazendo.
O resto, incluindo o jogo de abafa de Severino Cavalcanti, é de resultado imprevisível, ainda a conferir até 15 de dezembro. Ou depois.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 20 novembro, 2010 at 4:42 #

Pobre Ulisses

Caso não estivesse encantado no fundo mar estaria exilado na sua própria arte. Não há espaço para politica e políticos, não na terra arrasada dos últimos 16 anos.

Isolar PT, “or not”, é tarefa insana e desnecessária. Dirceu, et alli, já são isolados por natureza e vocação. A figura dantesca de Genoíno vagando por corredores, enquanto a suplência não vem, é emblemática.

Dilma simula ação ao confirmar Mantega, cuja função é ocupár a pasta sem ousar sequer causar algum rumor ou constrangimento a quem o sistema financeiro ungir como representante no BC.

Destaque mesmo será o modelito de Dona Dilma na posse, Marta e Marisa farão o que sabem, desfilarão, cada qual envergando al´me de cores berrantes, um “sorriso botox”, com esmero e comedimento, até pelas limitações de higidez facial.

No dia seguinte, Sarney, Renan, Jucá, entre outros, apresentarão a conta. Afinal que seria do PT no poder, caso não existisse a governabilidade?


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