Dona Canô no TCA: “coitado de meu filho!”

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ARTIGO DA SEMANA

SEGREDOS DOLOROSOS

Vitor Hugo Soares

Os principais diários de Salvador e os grandes jornais do País – com seus estranhos e incompreensíveis cadernos B e suplementos culturais cada vez mais grudados no que acontece ou vem de fora, alheios ou indiferentes ao que se passa diante do nariz -, praticamente ignoraram o principal fato da música e da cultura esta semana no Brasil. Um caso acontecido na capital baiana, é verdade, mas bem emblemático da confusão nestes dias de faz de conta na mídia em geral, na cultura, na política e no poder.

Segunda-feira (08/11) Caetano Veloso saiu do histórico palco do Teatro Castro Alves visivelmente extenuado. Os sinais de tensão e emoção ainda permaneciam à flor da pele do artista, como se ele tivesse acabado de participar de uma experiência semelhante a da maratona enfrentada pela atriz Jane Fonda, no demolidor filme de Sidney Lumet, “A Noite dos Desesperados” (Não se matam mais Cavalos?), jóia premiada do cinema político e social dos anos 70.

Pode parecer exagero, mas esta é a primeira imagem comparativa que vem à cabeça do jornalista diante do espetáculo protagonizado pelo filho querido de Santo Amaro da Purificação, na cidade que o projetou para o País e o mundo. Agora, beirando os 70 anos de idade, Caetano havia acabado de vencer com a mesma garra e brilho (mesmo despedaçado física e intimamente) um teste demolidor.

Quase três horas de música e conversa sobre a vida, a poesia, a juventude e a velhice, os colegas e amigos, a profissão, a família, a religião, a política, a prisão, o exílio, a volta e a permanência. Uma catarse pessoal diante da platéia que ocupava todos os lugares do TCA em festa, como em suas noites mais memoráveis.

Por exemplo, aquela do reencontro (também na incrível década dos 70) de Chico Buarque de Holanda com Caetano na volta do compositor baiano do exílio em Londres, imposto pela censura e o tacape da ditadura que então imperavam por aqui.

Na época, repórter do Jornal do Brasil na sucursal de Salvador, lembro de ter permanecido praticamente o tempo inteiro ajoelhado atrás daquela balaustrada de madeira que separa as partes inferior e superior da platéia do TCA. Isso para não atrapalhar a visão da turma de cima e, ao mesmo tempo, não perder nenhum detalhe, por mínimo que fosse, daquele momento inigualável que meu amor pela profissão e minha paixão pela música me permitiam presenciar tão de perto.

No mesmo lugar de permanente acolhimento “da verdadeira Bahia”, como disse João Gilberto certa vez no mesmo palco, Caetano Veloso encerrou esta semana a temporada 2010 do projeto “Música Falada”. Trata-se, na verdade, de uma experiência baiana de sucesso – infelizmente ainda pouco divulgada na própria Bahia e no resto do país- que reúne no palco e na platéia interativamente, música, comunicação e teatro.

O projeto surgiu em 2007. Foi idealizado pelos apresentadores do programa Roda Baiana, na Rádio Metrópole de Salvador – André Simões, Jonga Cunha e Fernando Guerreiro, este último um autor e diretor teatral de reconhecimento nacional. Um dos principais responsáveis pela notável transformação da cena baiana nas últimas décadas, em termos de integração palco e platéia. O que ajuda a explicar em boa parte o fato de Salvador ter se transformado em verdadeira usina de produção de espetáculos premiados e atores. Wagner Moura, Lázaro Ramos, Wladimir Britcha – entre muitos outros atores e atrizes – que o digam.

“Teatro Falado” segue o formato do programa radiofônico da também inovadora Radio Metrópole, de Mario Kertész. “Roda Baiana” tem sido levado ao palco do TCA em edições períódicas e quase sempre antológicas e com a mesma química que alia inteligência, criatividade, irreverência e bom humor do programa diário no estúdio da rádio. Foi assim também na última segunda-feira, só que com muito mais intensidade.

Principalmente quando o artista foi levado a falar sobre sua prisão e posterior exílio ao lado do amigo e colega Gilberto Gil. “Enlouqueci com a prisão. Sou narcisista pelo fato de ser brasileiro, e o Brasil ficar contra mim foi muito difícil de metabolizar”, disse Caetano num dos momentos mais pungentes do espetáculo. Mas tudo regado, diga-se, com doses generosas de humor, a exemplo das lembranças de vivências com Chico Buarque, em especial do que os dois aprontaram no programa que apresentavam juntos na TV Globo.

Caetano começou o espetáculo cantando “Coração Vagabundo”, sentado num banquinho com seu violão e cercado no palco pela família e muitos amigos. Quase três horas depois deixou a cena interpretando “Tenda dos Milagres”, aplaudido e mais emocionado ainda do que entrou. Foi abraçado e confortado ainda no palco pela mãe, Dona Canô, que acaba de completar 102 anos.

Foi dona Canô quem deu o magnífico toque final de uma noite para não esquecer. Cumprimentada ainda no palco do TCA pelos realizadores do “Música Falada”, em agradecimento pela presença ilustre, a matriarca dos Veloso disse a Fernando Guerreiro, voltando-se para a principal figura da noite: “Coitado de meu filho, ele sofre muito quando fala da prisão e do exílio”. E ela decidiu na hora: “A partir de hoje vou proibir Caetano de falar dos sofrimentos na prisão e do período que foi forçado a passar longe da família e fora do Brasil”.

Grande Dona Canô! Pena que uma noite como a de segunda-feira em Salvador tenha passado praticamente incólume do olhar da imprensa local e nacional. Saudades do Caderno no B do falecido Jornal do Brasil, que seguramente não deixaria um fato como este passar sem informação aos seus leitores.

À exceção – registre-se a bem da verdade – dos belos registros do site da revista “Contigo” (editora Abril) e do portal da Metópole, cuja TV transmitiu tudo via web. Quem sabe daí não sairá mais tarde um vídeo tão sensacional quando o disco ao vivo, gravado durante o encontro histórico de Caetano e Chico Buarque, também no TCA.

A conferir

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor.soares1@terra.com.br

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Comentários

Regina on 13 novembro, 2010 at 0:56 #

…sem lenço e sem documento ele entrou no cenário da musica popular brasileira, inovando-a revirando-a pelo avesso e soltando-a no ar como como um Sputnik russo dos anos 50’s, só que Caetano Emanuel Viana Teles Veloso veio pra ficar, pra resistir, pra revolucionar, pra encantar, pra ir e voltar das dificuldades impostas, quer seja pelo destino, da injustiça, dos preconceitos, da ignorância, intolerância e até dele mesmo.
A contribuição derivada de Caetano para enriquecimento da cultura brasileira em todos os seus aspectos, como compositor, cantor, musico, escritor, cineasta, poeta e através de suas atividades político-sociais, engajado, coerente com a realidade do nosso pais, ainda que controversas, as vezes, é incontestável. Nunca cansou, nunca se afastou, ainda que afastado, nunca calou ainda que tentassem, nunca conformista…
Se esse filho de Santo Amaro da Purificação, que mamou nas tetas da Mãe Preta Bahia, a exaltou, amou, louvou, levou-a através do mundo e sempre a colocou nos mais altos altares, não teve o devido reconhecimento quando se sentou pra contar sua estória, alguma coisa está errada, e não só com a mídia baiana, nacional, internacional, é qualquer coisa assim, incompreensível, misteriosa, fora da norma e do compreender comum, qualquer coisa assim com um objeto não identificado…
Obrigada, Vitor Hugo, por trazer a luz esse acontecimento, para o conhecimento dessa filha da Bahia, afastada mas nunca distante, que acompanhou bem de perto os passos de Caetano e sua trupe naqueles memoráveis anos da juventude, e que, se ai estivesse, seria macaca de primeira fila…


luiz alfredo motta fontana on 13 novembro, 2010 at 5:17 #

“Hoje eu sei que o mundo é grande
E o mar de ondas se faz
Mas nasceu junto com o rio
O canto que eu canto mais”
(Caetano Veloso – Onde Eu Nasci Passa Um Rio)

Assim Caetano enternece o conceito de antropofagia, o mesmo conceito e movimento ressuscitados no final doasd anos sessenta, que ele, Gil, Tom zé, Capinan, entre outros, inventaram a trilha.

Como suportar o fim do sonho, o tal do médici, o 477, sem assoviar Alegria Alegria?

Quando Marcuse foi apresentado a Marshall McLuhan, e embebedou-se numa mesa de bar, guarnecida de toalha de plástico, discutindo o úiltimo filme “udigridi”, o barman distraído cantarolava:

“Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício”
(Caetano Veloso – Soy Loco Por Ti, America)

E Caetano foi preso, pior que isso, sofreu sob a arrogância da tal patrulha ideológica, que entricheirada na idéia de que nordestino tinha pouca fala, muto sofrimento e uma eterna sede, era incapaz de compreender o discurso debochado e culto, do prolixo baiano.

Aqui, uma verdade que não pode ser esquecida, e também a melhor lição de como preconceito se dissolve na luz.

Em São Paulo, nas noites indormidas, destacavam-se na eterna avenida Consolação, aquela da música de Tom Zé, duas trincheiras, uma em cada ponta, lá em cima, esquina com a Paulista, o Bar Riviera, cá embaixo, esquina com a Ipiranga, o Bar Redondo. Guitarra contra violão, o novo contra o velho, Oswald de Andrade fazia falta nas calçadas.

O preconceito acabaria ali, findo o exílio, recompostos os arranjos, renderam-se os paulistas, os baianos eram mais do que vanguarda, redescobriram o Brasil, reiventaram o antropofagismo, e sobreviveram ao desterro, …

“Minha mãe, eu vou pra lua
Eu mais a minha mulher
Vamos fazer um ranchinho
Tudo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua
E seja o que Deus quiser

Triste, oh, quão dessemelhante
ê, ô, galo canta
O galo cantou, camará
ê, cocorocô, ê cocorocô, camará
ê, vamo-nos embora, ê vamo-nos embora camará
ê, pelo mundo afora, ê pelo mundo afora camará”
(Caetano Veloso – Triste Bahia)

Não mais o carimbo de nordestino pobre, inculto, sem esperanças, conhecedor só da fome e sede, tão ao gosto das canções de protesto, tão cantado em prosas e versos nos happy-hours dos Marcuses de plantão.

Caetano, Gil, Tom zé, Capinan, emudeceram a preconceituosa concepção de que o nordeste só poderia ser objeto do protagonismo do sul maravilha, inverteram esta equação, e por ironia, fizeram isto, nos palcos e bares paulistas.

“ê ô! Bahia, fonte mítica, encantada
ê ô! Expande o teu axé, não esconde nada
Teu canto de alegria ecoa longe, tempo e espaço
Rainha do Atlântico”
(Caetano Veloso – Bahia, Minha Preta)

VHS, tua Bahia está cada dia mais em Pauta

Tim Tim!


Regina on 13 novembro, 2010 at 6:45 #

Que soem, baixinho, os atabaques para escutar os poetas… Eles, que com a alma falam…Eles, que entendem do belo…Eles, que vêem a alma…Eles, que sabem das coisas!!!!!!!!!


Graça Azevedo on 13 novembro, 2010 at 7:40 #

Texto e comentários que dizem o que nós sentimos. Viva o bahiaempauta que sente e fala por nós!


Os shows que vimos e os que não vimos « on 13 novembro, 2010 at 9:15 #

[…] Hugo Soares, jornalista, escreveu um texto [que eu só li agora, no final da escrita deste post, enquanto procurava um link que explicasse o […]


marco lino on 13 novembro, 2010 at 10:06 #

Subscrevo Graça: beleza de comentários.

Puxa vida Fontana, Marcuse foi gente boa (se bem que não dizes o contrário), um (tb) poeta do desabrochar da vida, da liberdade, de Eros!

Os poetas divinizam o humano ou os filósofos humanizam o divino? Por estar ainda num “estágio” muito bruto, tendo mais para os filósofos.
Abs


olivia on 13 novembro, 2010 at 10:47 #

Belo texto, artigo em falta em nossos periódicos, uma pena.


Regina on 13 novembro, 2010 at 13:50 #

OBSERVAÇÕES

Sou uma impulsiva, vi o artigo do Hugo, já tarde da noite, mas, quis reagir imediatamente. Tivesse esperado o dia amanhecer, algumas diferenças faria no texto…
Como por exemplo onde se lê: “quando se sentou pra contar sua estória”, debati entre estória e historia com a consciência de que as duas se misturam e nesse caso é a mesma.
Deveria dizer: “quando resolveu se despir, e ele (CAE) o faz tão bem, e tem feito tantas vezes, em todos os sentidos da palavra, e gosta de fazer, por mais duro que tenham sido certas recordações…”
Acrescentaria ao “memoráveis anos da juventude” a doce expressão “DIVINA & MARAVILHOSA”….

Ah, e ao poeta, só uma coisinha mais: Eles, que iluminam a escuridão…

Tenho dito


Nivaldo Araujo on 13 novembro, 2010 at 14:45 #

eu tambem estava no Musica Falda de Caetano no TCA. outro ponto alto foi quando ele falou que enxergava o surgimento do Fascismo mo Brasil destes dias de hoje. após falar isso a platéia o áplaudiu de pé por quase dois minutos.


Carlos Volney on 13 novembro, 2010 at 15:39 #

Graça Azevedo sintetizou bem, para mim basta irmanar-me a ela no comentário. Mais, seria redundante. Só uma pequeno alerta ao poeta Fontana. A letra de “Soy loco por ti, América” é do genial Capinan.


luiz alfredo motta fontana on 13 novembro, 2010 at 16:00 #

Caro Carlos Volney

Obrigado pelo alerta, é o que dá escrever correndo no limiar do dia, com a car aainda trazendo a marca do travesseiro. Mas o texto de VHS iluminava o amanhecer, e a entrega ao teclado foi instintiva. Tem mais crime nessa distração, o parceiro na música é Gilberto Gil.

Resta-me o consolo de ter citado Capinan, sem o qual Gil, Edu, Paulinho da Viola, o próprio Caetano, teriam brilhado e dito menos.

Distraír-se é padecer na incerteza……por sorte teu olhar atento redimiu a ofensa cometida.

Tim tim!

Em tempo: Regina demonstra o quanto é Soares, um coração imenso banhado em fina cultura, por certo Caymmi reverencia.


MeuPovo on 13 novembro, 2010 at 23:12 #

Perdoem-me, os poetas
“não iluminam a escuridão”. O conhecimento tudo ilumina! Quanto ao espírito, é possível que alguns /algumas contribuam para sugerir caminhos entre os obstáculos da vida, mas o resto é pura alienação, devaneio, morbidez ou fantasia.
Filósofos tem sido, desde a antiguidade clássica, os grandes guias, mentores, timoneiros, preservadores das idéias mais belas, apesar de pequenas exceções dos chamados filosofantes, os falsos intelectuais ou leitores de orelha de livros.
Entre os filósofos não há lugar para preconceitos, descriminações, como em certos “poetas”. A boa música sempre foi e é elogiável, que venham a boa música e os bons compositores.


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