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Postado em 11-11-2010
Arquivado em (Crônica, Janio) por vitor em 11-11-2010 11:18

Amado Batista: sucesso de fato

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CRÔNICA/AFOGAMENTOS

Chico Buarque, Amado Batista e Florentina

Janio Ferreira Soares

Essa onda de discriminação contra os nordestinos por conta da grande votação de Dilma é apenas mais uma das milhares que acontecem diariamente no Brasil. A maioria é disfarçada e silenciosa, como quando alguém entra num restaurante estrelado destoando do padrão estético estabelecido (de bermudas, por exemplo) e recebe uma sequência de olhares fulminantes que começa pelo porteiro, passa pelo garçom, se acentua no maitre e chega ao ápice com o cochicho dos comensais. Outras são mais abertas e corajosas, como a opinião dessa garota que sugeriu nos afogar. Só acho que ela deveria ter apontado quais seriam nossas alternativas.

Deixaríamos este vasto mundo nas profundezas de uma cacimba ou na turvez de um barreiro meado? Sob as pontes do rio Capibaribe ou de susto, com um balde de água jogado na nossa cara, já que temos a fama de não conhecer muito bem o líquido? E quem nos afogaria? Paulistas de escafandros Lacoste ou gaúchos de bombachas flutuantes?

Seguiríamos pacificamente rumo ao asfixiamento ou puxaríamos a nossa temida peixeira para reagirmos de acordo com a lenda lampirônica que habita esses rincões? Detalhes, minha filha, detalhes.

A verdade é que tudo que tem um apelo popular tende a ser taxado preconceituosamente. Um exemplo que até hoje gera calorosas discussões é a tal breganização da música brasileira. Em qualquer roda de chope com fundo musical mais elaborado, neguinho puxa logo o mote de que bom era no tempo em que só Chico, Caetano, Tom Jobim e afins “faziam sucesso”. Que sucesso, cara pálida? Eles faziam música de qualidade, mas sucesso quem faz é Amado Batista e os sertanejos de calças justas – que vendem milhões de discos e lotam ginásios -, ou o cearense Tiririca, que usando a força de um personagem se elegeu com mais de um milhão de votos, coincidentemente na terra da moça que prega o nosso fim.

Mas o negócio é relaxar, como faz um gay da região, que diz que vai se vestir de Florentina e se afogar na foz do São Francisco, pois lá é a maior concentração de Nego D’água por metro cúbico do rio.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

Nivaldo Araujo on 11 novembro, 2010 at 11:47 #

desculpe discordar. mas quem fazia musica de qualidade e fazia sucesso era Raul Seixas. fazia música com toques filosoficos e de apelo popular. Chico, Caetano, Gil e Jobim fazia musica pra elite e continuam fazendo.


Mariana Soares on 11 novembro, 2010 at 17:15 #

Chico, Caetano, Gil e Jobim, entre alguns outros, fazem a excelente música que temos neste país, e para todos, diga-se de passagem. A única exigência é o bom gosto, o que independe de classe social.
Quanto a garota paulista que deseja o nosso (dos nordestinos) fim, é melhor que se informe quem faz a excelência dos melhores hospitais de Sampa e quem constroi aquela cidade que não para de crescer, só para citar uns poucos exemplos, antes de solicitar o nosso afogamento em massa, pois corre o risco de só lhe restar o título de eleitores de um palhaço que vai lhes representar na Câmara Federal.


luiz alfredo motta fontana on 11 novembro, 2010 at 17:46 #

Cara Mariana

Um adendo pequeno, só para ressaltar um outro preconceito, não teu, mas da mídia, do MP Paulista, e dos que excluem sem saber bem o que e o porque.

Tiririca, o palhaço, é cidadão cearense, da gloriosa Itapipoca, e foi, como muitos, acolhido em Sampa, esta cidade que foi honrada com versos de Caetano, com o carinho comovente de Tom Zé, entre tantos outros que fluiram nestas noites com seus sonhos e tons.

Triste é ver a conotação de palhaço como algo digno de repúdio, afinal já sabemos que as mulheres não são roubadas como na velha canção, e sim. por vezes, alçam vôo para além da escravidão.

O que dizer então, do “patrono da vingança pública”, o DD. Representante do Ministério Público, que do alto de sua concursada atividade, tentou, até o último momento desclassificar não o candidato cearense , mas o conjunto de eleitores que o acolheu, mesmo que tomados por um cadinho de irônica subversão. (Ironia santa esta, afinal, qual a diferença entre Tiririca e Suplicy, aquele que vestiu sunfga vermelha a pedido de Sabrina Sato?)

Por sorte acabou a farsa e os eleitores, para o bem ou para o mal, como deve ser num estado de direito e na vigência da democracia, terão o prazer, mesmo que efêmero de assistir sua posse, como legítimo representante de expressiva parcela do povo paulista, este mesmo povo que é mais nordestino que imagina a douta ciência de tantos quantos escrevinham a velha lição de um preconceito de há muito repudiado.

Como pode perceber, estrangeira nesta desvairada metrópole é a estudante, e seu pequeno pensar, fruto de convívio com os que acreditam em profissões e geografias, como diferencial de dignidade.

Abraços


Nivaldo Araujo on 11 novembro, 2010 at 19:07 #

e por que os politicos do nordeste quando tem problema de saúde só procuram os hospitais de SP? estranho né


marco lino on 11 novembro, 2010 at 19:31 #

Elogiar Fontana é ser redundante. Mas, mesmo assim, fica o registro.


MeuPovo on 11 novembro, 2010 at 20:29 #

Leiam “Os dois brasis”, foi escrito nos anos 50, bem atual, porém. Há outras obras relevantíssimas sobre o assunto Brasil, ou Brazil! de Caio Prado Jr, Raimundo Faoro, Celso Furtado, Darci Ribeiro, por exemplo. Sem leitura, fica impraticável um entendimento sobre as relações Norte x Sul brasileiros. Tiririca e Caetano se parecem gente!


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