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Claudio Leal

O artista plástico e curador Emanoel Araújo, 70 anos: “Enfrentei ponta de inveja de gente que se sentiu ameaçada por um neguinho baiano na Pinacoteca de São Paulo”

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CLAUDIO LEAL

Terra Magazine

Em 15 de novembro, um dos principais artistas plásticos e curadores de arte do Brasil, Emanoel Araújo, completará 70 anos. A poucos dias dessa data cívica e pessoal, o diretor do Museu Afro-Brasil proclama uma outra república, turvada por desencantos: “Nós somos a República do fracasso”.

Renovador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a qual se encontrava depredada no início da década de 90, e ex-secretário de Cultura na gestão municipal de José Serra (PSDB), Emanoel se considera “inquieto, não-conformista e indignado”. Conhecido pela habilidade viperina de polemista, ele anuncia, nesta entrevista a Terra Magazine, o agravamento de seu ceticismo.

– O Brasil é um terror, um horror. Você chega aos 70 anos constatando que existe uma camada, uma cenografia, uma vestimenta falsa. As cidades incharam, ficaram mais pobres, toda a geração que foi responsável pelas mudanças também desapareceu. Isso que é trágico – diz o artista baiano, nascido em 1940 na cidade de Santo Amaro da Purificação.

O debate sobre o negro na sociedade brasileira lhe atiça o verbo e faz decolar uma série de perguntas sobre o retrocesso do País na questão racial.

– A televisão ainda acha que o lugar do negro é na cozinha ou como serviçal. O exemplo da TV e do cinema americanos não chega até aqui. Imagine se Denzel Washington, por exemplo, fosse brasileiro, qual o lugar que lhe caberia na televisão? Ou se Spike Lee fosse um cineasta brasileiro, o que ele faria?

À frente da Pinacoteca de São Paulo, Emanoel Araújo enfrentou os muxoxos de parte da comunidade artística e universitária, que se recolheu depois do sucesso de sua administração. Segundo conta, houve pedidos de cabeça por ser um “neguinho baiano”. O movimento negro se mobilizou em sua defesa.

– Absolutamente racista. Quando eu fui nomeado por Adilson Monteiro Alves, o jornal Estado de S. Paulo publicou: “Foi nomeado diretor da Pinacoteca Emanoel Alves (sic), em lugar da professora e doutora Maria Alice Milliet”. Eu vivia em São Paulo tinha muito tempo, mas era como se eu estivesse chegando naquele momento. Muita gente chegou na Pinacoteca e me disse: “Mas, como um baiano vai dirigir a Pinacoteca?”.

Com desalento, há uma conclusão:

– Todo sujeito que pensa a modernidade e o avanço é ceifado no Brasil. Porque o Brasil tem que significar o fracasso. Isso é o que importa. Nós somos a República do fracasso. Não adianta. Não sei de onde vem essa lógica perversa.

O curador ataca a ditadura da “arte contemporânea”, cuja epidemia tem desvirtuado alguns dos mais importantes museus brasileiros, como o Masp e a Pinacoteca. A leitura dos jornais amplia seu descontentamento.

– Outro dia mesmo, o jornal Estado de S. Paulo publicou o curador Ivo Mesquita de corpo inteiro, saindo da maquete da Pinacoteca do Estado, segundo idealizada pela Unicamp, com braços cruzados e seu sorriso de pura zombaria. Alguém disse alguma coisa? Não acredito que essa seja a postura para um curador de uma instituição dita centenária de São Paulo.

No dia da eleição presidencial, 31 de outubro, Emanoel acordou com três assaltantes em sua casa, no bairro da Bela Vista. “Se acontecesse isso há vinte anos ou dez anos atrás, você tira de letra, né?”, lamenta, algo fragilizado. Mas, ao recobrar o bom humor, ele sorri do infortúnio: “Deve mesmo ser um presente do inferno astral.”

Confira o bate-papo.

Terra Magazine – Você está completando 70 anos. O que mudou em sua rotina, em sua vida?
Emanoel Araújo – Eu acho que 70 anos é um horror. Não esperava chegar a essa idade. Estou vivendo mais do que meu pai e mais do que minha mãe. Tenho uma visão cética do mundo e, muito mais ainda, dos 70 anos. É espantoso a gente se ver, é espantoso a gente constatar a velhice, que é driblada com esse negócio de “melhor idade”, “terceira idade”, etc. etc.

Os eufemismos.
É, esses eufemismos todos que só servem para ser mais um elemento de preconceito. Pra mim, chegar a essa idade é um horror (risos). Um absurdo. Eu detesto a ideia de 70 anos. Detesto por muitas razões. Primeiro, porque todas as coisas ganham uma importância e uma severidade. Todos te olham como um velho. No Brasil, os 70 anos de alguém não chegam a ser uma glorificação. Pelo contrário, você está mais feio, mais fragilizado, mais solitário e, sobretudo, mais impaciente.

O trabalho no Museu Afro-Brasil lhe ajuda a lidar com isso?
Acho mesmo que, aos 70 anos, o que sobra é uma memória dos bons momentos da vida e dos muitos amigos que se foram, além do trabalho que a gente pensa que resta fazer. O Museu Afro-Brasil, em muitos aspectos, tem uma imensa relevância para a história afro-brasileira. Por isso, ele será sempre uma fonte de inspiração e transpiração, por todos os tentáculos a serem criados para sua reinvenção brasileira, portuguesa e africana.

Pra não cair num ceticismo completo?
Exatamente. Isso em relação a mim mesmo. Em relação ao País em que a gente vive, tenho uma visão muito ruim. Por mais que a gente tenha uma vontade de ser brasileiro, e isto é a coisa mais importante que tem – “ser brasileiro”, essa coisa que ecoa na memória, essa vontade moral e cívica -, o Brasil é um terror, um horror. Você chega aos 70 anos constatando que existe uma camada, uma cenografia, uma vestimenta falsa. As cidades incharam, ficaram mais pobres, toda a geração que foi responsável pelas mudanças também desapareceu. Isso que é trágico. O que resta é sempre uma coisa que não mais interessa.

Você sente falta de ter com quem fazer trocas culturais?
As trocas foram e serão sempre um motivo a mais de se tornar vivo, muito embora sente-se hoje a grande dificuldade desses encontros. Acho que viver numa grande cidade está se tornando tão difícil, quase impossível mesmo, e que cada pessoa procura um casulo para se esconder. Não sei como, um elo de amizade que existia nessa cidade (São Paulo) desapareceu. Não há encontros, por mais que se procure. Resta mesmo é o desencontro.

Uma das boas coisas do Museu Afro-Brasil é que ele sempre provoca encontros, seja porque ele é mesmo um espaço instigante, seja porque a história ali contada significa um grande halo que percorre muitos lugares, vidas e histórias da África, da América, da Europa e também do Brasil. Afinal, onde houve essa instituição desgraçada da escravidão os fatos se relacionam. Haverá sempre uma troca permanente da vida de muitas pessoas.

Para mim, que tenho uma vivência muito grande, até parece que nasci no século 19 e não nos anos

Leia integra da conversa de Claudio leal com Emmanoel Araujo em Terra Magazine

http://terramagazine.terra.com.br/

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Comentários

Metafísico on 9 novembro, 2010 at 23:21 #

Grande emanoel Araujo! A saudosa Janette Costa, que saudades! foii quem me apresentou Emanoel em noite de uma de suas memoráveis exposições no Recife. Naquela Boa Viagem conhecida. Arrebatei escultura em ferro e aço, como diz Zila Mamede, toda em vermelho. Em Brasília, reuni amigos em torno dela. De repente, diplomata que acabou de chegar, observa bem a obra e grita:mas isto é maravilhoso! Isto é coisa do meu amigo Emanoel! Como se parece com aquela obra que está no Palácio do Itamaraty, gente! Alguém falou que Lispector conhecera Emanoel, que Emanoel chora quando falam de Clarice na frente dele, coisa e tal. Muito justo, disse eu! Eu choraria também. Nos idos dos anos 60, quase dos 70, Lispector falou-me: Metafísico, Brasília cheira a cigarro, uisque e esperma! Foi aquela gargalhada e começou a ciumeira danada em torno da inteligentíssima pernambucana! Bom saber que estás bem, baiano! Parabéns e muitos anos de vida! Quando vens a Brasília para outro art-show?


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