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Postado em 06-11-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 06-11-2010 00:05

Dilma no JN: mudança no tratamento

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ARTIGO DA SEMANA

TENDA DOS MILAGRES EM BRASÍLIA

Vitor Hugo Soares

“Oh, como cantam as pessoas do andar de cima!”. É a frase do escritor argentino Julio Cortázar, no Manual de Instruções do livro Histórias de Cronópios e Famas, que retorna à memória do jornalista ao observar os movimentos dos primeiros dias depois de jogado o jogo eleitoral para a presidência do País.

E esta impressão do personagem surreal de Cortázar, ao perceber que há festa no andar superior, assemelha-se à sensação de quem escreve estas linhas quando já está em andamento, a todo gás, o confronto dos craques profissionais da política e dos negócios – da mídia inclusive – em disputa das fatias do poder no governo Dilma Rousseff.

Vencida a primeira batalha, a presidente descansa a seu jeito, até este domingo, em Itacaré, no sul baiano. Da ensolarada Costa do Dendê e do Cacau a presidente eleita retorna amanhã para pegar pesado, segundo ela própria declarou, na construção de sua equipe de governo – até agora mais composta de boatos que de fatos.

No colossal recanto da costa do Atlântico Sul, de águas cálidas, límpidas e areia de cartão postal de ensolarado paraíso tropical, Dilma banha-se e passeia ao sol e à brisa no ambiente onde pisaram antes dela pés de celebridades como o presidente francês Nicolas Sarkozy e a primeira-dama, Carla Bruni. Em horas mortas, conversa com nativos e com poderosos detentores de boa parte do PIB baiano e nacional, gente que povoa seletos e sofisticados “resorts” e suntuosas mansões da região.

Enquanto isso, diante dos resultados eleitorais e suas primeiras consequências, ainda repercutindo com pressão máxima dentro e fora do País, converso à distância com dois queridos amigos jornalistas cujas informações e opiniões busco sempre nos momentos em que a salada da política e da profissão fica difícil de entender e de engolir sozinho e sem ajuda.

Por exemplo, esse “trololó” de quase beatificação da vencedora (para usar a linguagem do tucano José Serra, o perdedor) na primeira semana pós eleição da primeira mulher presidente do Brasil. Tudo virou o avesso do avesso do avesso daquilo que se via, ou se ouvia há menos de 10 dias, na chamada grande imprensa nacional. De repente, é como se o milagre da transubstanciação da água em vinho houvesse sido operado outra vez, agora em terras de Tupã. E de Macunaíma, é bom que se registre para avivar memórias.

Saída quase das cinzas da fogueira ardente, bombardeada em ataques e condenações os mais insólitos e terríveis lançados sobre ela e seu passado, a eleita de repente, não mais que de repente, foi entronizada em altares insondáveis. Nos mesmos espaços onde até a véspera ela era pintada como “figura do mal”, dada a malvadezas e bruxarias impensáveis, tudo parece ter-se invertido em favor de Dilma Rousseff.

Na grande tenda dos milagres nacional (salve Jorge Amado) ela acaba de ser posta no trono dos novos santos brasileiros. A quase bruxa que aparecia diariamente na fase de campanha nas paginas editoriais de tantos diários e revistas semanais importantes, é agora tratada quase como nova Irmã Dulce, a freira baiana na iminência da beatificação oficial no mundo católico, depois do Vaticano ter reconhecido recentemente o seu primeiro milagre.

No lugar de bode expiatório do País (é preciso sempre ter um de reserva para oferecer aos leões famintos), deixado vazio só por poucas horas, insanos voltam-se agora contra gente do Nordeste, mostrada como responsável por levar a vencedora ao Palácio do Planalto. Está provado, no entanto, que mesmo sem os votos dos nordestinos o triunfo da petista estaria garantido com a vantagem obtida em outras regiões – algumas delas citadas até a véspera como santuários eleitorais do tucano Serra.

Isto foi mostrado cabalmente na reportagem tão simples quanto relevante produzida pelo jornalista baiano Eliano Jorge, da equipe de Bob Fernandes, na revista eletrônica Terra Magazine, que caiu em campo na busca da verdade dos números e dos fatos, no mar jornalístico povoado de lendas, delírios e versões interesseiras. Bingo!

Um dos jornalistas das conversas no começo destas linhas, com quem bato bola via MSN, está em São Paulo. Mesmo estafado e ainda arfando pelo esforço demolidor de percorrer o país de ponta a ponta na cobertura da campanha, ele segue no batente da Redação. Busca novos fatos, enquanto a candidata eleita já repousa na praia baiana.

Depois de ver bem de perto tudo – ou quase – que Dilma Rousseff teve de engolir durante a campanha, o repórter se revela espantado “com o fervor dilmista” que sacode o Brasil, principalmente nos círculos da grande mídia, onde a vencedora parece ter virado unanimidade “a favor”.

Na praia do litoral norte de Salvador, onde estuda para um concurso federal, desolada com a profissão, antes mesmo da contagem dos votos do pleito presidencial, converso por telefone com uma querida colega. Ela transmite a mesma impressão do jornalista e amigo comum em Sampa. E diz muito mais coisas, que deixo para reproduzir em outras linhas e em outra oportunidade.

E isso seguramente não faltará a partir de amanhã, quando Dilma Rousseff voltará a Brasília depois do repouso em Itacarezinho e a tenda dos milagres no planalto central do Brasil voltará a ferver.

A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Marco Lino on 6 novembro, 2010 at 7:50 #

O 9° parágrafo está impagável. A eles, e aos preconceituosos de qualquer matiz, ofereço um delicioso vídeo que já “rodou meio mundo”:

http://www.youtube.com/watch?v=Us-TVg40ExM

PS: Será que o próximo ministro das Comunicações será, novamente, da Globo? A conferir, diria o escrevinhador.


Graça Azevedo on 6 novembro, 2010 at 9:26 #

Parabéns pelo brilhante artigo. Por este e outros motivos é que o bahiaem pauta é minha leitura obrigatória diariamente.


luiz alfredo motta fontana on 6 novembro, 2010 at 9:30 #

Caro VHS

Nesta festa, o que falta, e ninguém reclama, são os motivos, afora a velha sanha de posar ao lador do vencedor.

Afinal quem é Dilma, “a preferida do rei”?

Juntando aqui e ali, sabe-se:

Tornou-se brizolista, quando o amor a levou terras distantes

Abandonou Brizola e alistou-se nas brigadas lulistas

Vestiu anel de doutora, sem poder, e o despiu, por obra e grassa da imprensa

Confundiu-se com Norma, a Benguell, a despeito da beleza da mesma, mas aqui todo perdão é válido, afinal quem não brincou de John Wayne sem sequer saber qual o lado que se monta no cavalo

Faltam dados de sua experiência como militante de esquerda contra o regime militar, mas credite-se, tal fato, ao esmero do STM

E hoje, graças à coluna atenta de Renata Lo Prete, sabemos que Dilma é filha de Ogum

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Coluna Painel, Folha de São Paulo:

“Razões Ao andar de um lado para outro no palco do debate da Globo, sempre “marcando” José Serra de perto, Dilma seguiu não só o exemplo de Lula em 2006, mas também um conselho do governador Jaques Wagner (PT-BA): como ela é filha de Ogum, foi orientada a se movimentar como o orixá.”

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Jacques Wagner sabe das coisas

Mas.. a festa continua

E acrescento, faz tempo, desde que a possibilidade de vitória acenou

Aqui, sem pedir licença, coleciono uma crônica escrevinhada em 30 de janeiro

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O café e a democracia não lecionada

(luiz alfredo motta fontana)

Nhô Cansado, compadre de Sinhá Sensata, levava seu Ramenzoni para o passeio matinal. Sim, ele ainda cultivava o hábito de vestir chapéus, sem os quais a sensação de nudez era inevitável. como de praxe, após os costumeiros cumprimentos aos conhecidos, entremeados de ligeiros acenos aos estranhos, entrou no Café Avenida, em busca da bebida afável, que precedia o pitar em paz.

– “Você sabe que não sou eleitor do Lula, mas, convenhamos, o homem está dando conta do recado…”

A frase entoada em forma de louvação pertencia ao senhor de bermuda clara, camisa polo azul, encimado em tênis amarelo. O mesmo homem que durante a semana, vestindo indefectíveis paletós e berrantes gravatas, errava pelo centro, sempre com pasta a mão, no velho e conhecido intento de demonstrar atividade, prática essa por demais ausente de sua banca de advocacia. Na qual se via, em letras enormes, talhadas em metal dourado: Dr. Orostrato, o popular Orô.

A vítima do dia, que sequer ousava discordar, mantinha o olhar reverencial, pronto para oferecer fogo, caso o causídico resolvesse fumar, ou até mesmo, após enormes escusas, espantar alguma borboleta que ousasse pousar em doutos ombros, era Justinho, filho querido de Justo, e sobrinho de muita gente conhecida e posicionada na sociedade local. Formado sabe se lá em que condições, em ciências jurídicas, como gostava de afirmar, e que, entre outras fantasias, sonhava, em vão, é de se reconhecer, em trabalhar ao lado de tão luminar figura.

NhôCansado, fingindo não ouvir, embora a voz fosse entoada como se ministrando aula em auditório vasto, entretinha-se em borrifar canela no café, quando os seus ouvidos, já não portadores da acuidade de outrora, foi submetido ao que parecia ser tortura de espiríto:

– “Dilma realizará o governo que o povo brasileiro tanto anseia, ela tem todas as qualidades para tal, espere e verá, uma nova deusa da democracia será reconhecida por todos…”

Já guardando o troco, Nhô Cansado pensava, lá com seus botões:

Estranho curso, esse de direito, consta nele, inclusive o tal do Direito Constitucional, e esse portador de anel de doutor, louva uma senhora que em nome de suas convicções, em nada democráticas, aceita até, e de forma literal, mudar a própria imagem, para satisfazer o capricho do chefe de ocasião.

Estranho curso, estranho mundo, e como sempre, de habitual, apenas a ilusão de um povo, o brasileiro, sempre a caminho da redenção num futuro adiado com precisão suiça.

Na esquina, com o olhar perdido entre as arvores que guarneciam o Forum, Nhô Cansado, picava o fumo e cortava a palha, com a sabedoria de quem sabe que em certas plagas, o que muda é o tempo, e assim mesmo, não mais com a previsibilidade de antigamente.

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Pelo jeito muitos esperam convite para a festa

Tim Tim


Carlos Volney on 6 novembro, 2010 at 12:09 #

Mesmo diante de tão ilustres e ilustrados comentaristas, permito-me uma pitadinha sobre o antológico – mais um – artigo de Vitor Hugo. É isso, meu amigo. Nada tão inebriante quanto o poder. Aliás, há uma frase definitiva que creditam a Nizan Guanais. Teria dito o festejado publicitário: “SEXO É PARA AMADOR, GOSTOSO MESMO É O PODER!!”
O que seria de nós, Vitor Hugo, sem você e sem o BP? Continue nos alentando.


Regina on 6 novembro, 2010 at 13:58 #

Esse BP tá ficando bom demais, esse menino!!!
Hugo, magia na pena, poesia no olhar e coração aberto às brisas de Itararé que sempre iluminam, e, espero o tenha feito com a nossa presidente…
Marco Lino, to contigo! Thanks for the video, magnífico! (vamos trazer para a pagina principal seu editor?) Que tenhas sempre alguém ao teu lado e que voltes com freqüência a esse lugar com astutas interferências…
Graça idem…
Do nosso poeta, Fontana, a luz profunda da inteligência e do conhecimento, por que sem ela não há sabedoria nem realidade…
Carlos Volney, coração de ouro, magia ao falar, alegria no pensar, gente boa…
Sem essa comunidade agente seca!!!!!!!!!!!


Regina on 6 novembro, 2010 at 14:01 #

Digo, Itacaré, estive lá, sei onde e como é….


Marco Lino on 6 novembro, 2010 at 14:15 #

Regina é a generosidade em pessoa. Meu muito obrigado!


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