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OPINIÃO POLÍTICA

Dilma e Sakineh

Ivan de Carvalho

Só temos que reconhecer e até proclamar o acerto e principalmente a ênfase da declaração feita ontem pela presidente eleita Dilma Rousseff, quando respondeu em entrevista coletiva sobre o a execução da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por lapidação (apedrejamento), sob acusação de adultério, que teria ocorrido quando ela já era viúva.
A reação internacional à aplicação da pena de apedrejamento levou a teocracia iraniana, por intermédio de seu suposto “Poder Judiciário” – a serviço e submisso à tradição xiita, ramo islâmico que domina o país – a montar um caso jurídico mais complexo. Ao invés de morrer por apedrejamento por causa do adultério, Sakineh Ashtiani poderia ser executada por homicídio, caso em que a pena é de morte por enforcamento.

Mas como assim? É simples. Como a coisa das pedras estava “pegando mal” para o regime iraniano em todo o mundo livre (perdão por usar esta antiga expressão do tempo da guerra fria) – ou no mundo democrático ou, se preferir o leitor, no mundo que se declara “civilizado”, o poder político iraniano tentou o pulo do gato.
Sakineh Ashtiani poderá ser executada por enforcamento para pagar o assassinato do ex-marido, que teria sido morto numa ação conjunta dela e de um homem que viria a ser seu amante. Assim se evitaria o “barbarismo” do apedrejamento, que muitos Estados, principalmente do Ocidente, não conseguem aceitar, enquanto aceitam – quando não praticam – quase sem pestanejar o enforcamento, a cadeira elétrica, o fuzilamento, a injeção letal e a bala solitária na nuca – esta, uma especialidade chinesa.

Como está no noticiário da mídia eletrônica desde ontem e nos jornais impressos de hoje, a presidente eleita Dilma Rousseff, embora declarando-se desprovida ainda de qualquer “status oficial” para se pronunciar sobre o assunto, afirmou que é “radicalmente contra o apedrejamento da iraniana”, e, dirigindo-se diretamente aos jornalistas, repisou: “Externo aqui perante vocês que eu acho uma coisa bárbara o apedrejamento da Sakineh. Mesmo considerando os usos e costumes de outros países, continua sendo bárbaro o apedrejamento da Sakineh”.
O presidente Lula já havia, há uns meses, interferido neste assunto, ao oferecer o Brasil para receber Sakineh, “se ela está causando algum incômodo” no Irã. Mas ocorreu que o governo iraniano não só recusou a oferta como a criticou, muito aborrecido. O presidente Lula, na prática, tirou seu cavalinho da chuva. Isso faz da declaração de Dilma, realmente, uma surpresa. Uma grata surpresa.

E vale assinalar que, no caso de Dilma, sua posição política e humanitária no geral mescla-se (e é aí reforçada, da mesma forma que tornada mais exigível) a sua condição de mulher em defesa de outra mulher prestes a ser apedrejada por um regime que se apoderou de um importante país.

Talvez haja faltado na declaração da presidente eleita a observação de que a eventual mutação da forma de execução para enforcamento, sob a tardia acusação de outro crime, não elimina o barbarismo. Mas Dilma Rousseff terá, creio, oportunidade de fazer este acréscimo com a mesma ênfase de sua declaração de ontem.

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Comentários

marco lino on 4 novembro, 2010 at 15:16 #

Puxa vida, até o nosso Carvalho embarcou na lua de mel da mídia com a Dilma.

Piedade cristã, não Ivan?

Parabéns e abs!


marco lino on 4 novembro, 2010 at 16:01 #

Taí, Fontana, concordo com a Cantanhêde (o que não é lá muito fácil). O problema é que falaram tanto que o governo brasileiro havia se tornado alma gêmea do “regime” iraniano, que a obviedade da Dilma soou estranho. É o que eu acho…


luiz alfredo motta fontana on 5 novembro, 2010 at 2:54 #

caro marco lino

tempos “imoderados”

ao que parece Cantanhêde é objeto de censura no BP


Marco Lino on 5 novembro, 2010 at 9:14 #

Hahahaha
Notei que o comentário com a fala da Cantanhêde “sumiu”. Claro, deve ter sido alguma coisa técnica. Mas o que a jornalista escreveu tinha sentido, sim.
Abs


vitor on 5 novembro, 2010 at 15:32 #

Marco Lino

Caro: você tem toda razão. O problema é que na guerra sem trégua contra virus e spams lançado às centenas diariamente na direção do BP, as vezes a bala acerta o alvo errado.Isso já aconteceu outras vezes em comentários do poeta Luiz Fontana e de Regina, entre outros leitores. Dá para vc reenviar o comentário com o artigo de Eliane? Caso não possa terei de fazer uma varredura para ver onde seu comentário foi parar, mas atrapalhado como sou nos segredos técnicos da informática levarei mais tempor para recompor tudo. Desde a morte de Dimas, mão na roda nesse e em outros casos, é o ônus que BP tem de pagar. Vale o aviso para todos.
Grande abraço,

Vitor Hugo, editor


vitor on 5 novembro, 2010 at 15:35 #

Só um aviso mais, para evitar mal entendidos:

NO BP NINGUÉM, MAS NINGUÉM MESMO, É MOTIVO DE CENSURA!


luiz alfredo motta fontana on 5 novembro, 2010 at 15:56 #

Caro Vitor

Talvez esse poeta atrapalhado tenha a sina, comigo acontece amiúde

No comentário perdido eu desejava votos de bom senso e destacava a matéria de eliane Cantanhêde que diza:

“Esse clima -apelidado de “lua de mel” -é tradicional na política brasileira, mas não precisa exagerar. Dilma diz que não vai mexer no câmbio flutuante e no superavit primário, e é uma festa. Diz que apedrejar Sakineh é “uma coisa muito bárbara” e todo mundo: “Ohhhh!”. Peraí. Isso é o óbvio. Só faltava ela mudar o câmbio e dar de ombros para a sina terrível da iraniana, como chegou a fazer Lula.”


luiz alfredo motta fontana on 5 novembro, 2010 at 17:15 #

Caro VHS

Para relaxar e esquecer spams

Que tal Cyro?

http://www.youtube.com/watch?v=XYclt1EdzS8

Tim Tim!


marco lino on 5 novembro, 2010 at 17:57 #

Caro Vitor Hugo

O motivo do riso foi a ironia do Fontana.

NUNCA vi nem senti, aqui no BP, algo que ao menos chegasse perto de alguma censura.

Aliás, é essa abertura e a generosidade em disponibilizar o espaço para TODOS que me fazem discordar sempre quando um ou outro leitor comenta que o BP é parcial. Não acho.

No mais, o comentário que continha a matéria da Cantanhêde foi do Fontana, que, também generoso ao extremo, já providenciou a “re-postagem”.

Abs


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