nov
01

Ildásio: perda imensa

=======================================================
Maria Olívia

O poeta e cronista do cotidiano da Bahia, Ildásio Tavares, morreu no final da tarde deste domingo, dia 31, aos 70 anos. Ele estava internado no Hospital Jorge Valente, em Salvador, desde o último dia 27, após ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O sepultamente será às 16h, no cemitério Campo Santo, bairro da Federação.

Natural da Fazenda São Carlos, hoje cidade de Gongogi, região do cacau no sul da Bahia, Ildásio foi um importante poeta e escritor de sua geração, sendo inclusive inspiração para personagem de Jorge Amado, Ildásio Taveira, o poeta mulherengo de ‘Tenda dos Milagres’. Intelectual respeitado e acolhido nacionalmente, em reconhecido em todo canto de sua cidade da Bahia (como ele gostava de chamar Salvador, a exemplo do autor de Gabriela), dos bares mais populares aos recintos acadêmicos.

Na vida real, Ildásio publicou 42 livros, sendo 15 de poesia. Ele também atuou na música popular, com canções gravadas por nomes como Maria Bethânia, Alcione, Vinícius e Toquinho e Nelson Gonçalves. Escreveu a ópera afro-brasileira “Lídia d’Oxum”, com música de Lindembergue Cardoso, levada às margens da Lagoa do Abaeté, em Salvador, para um público de cerca de 30 mil expectadores.

Em 1962 se formou em Direito, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e, em 1969, se formou em Letras também pela UFBA, seguindo carreira como professor de Literatura. Foi tradutor e professor de inglês e literatura americana durante 19 anos. Ildásio Tavares teve três filhos, o administrador de empresas Josias Marques, o radialista Ildásio Tavares Jr. e o diretor teatral Gil Vicente.

Perda imensa para a Bahia!

Maria Olívia é jornalista

Be Sociable, Share!

Comentários

Regina on 1 novembro, 2010 at 13:07 #

Gente boa, tava ai! E o tempo passou tão depressa:

O meu tempo

Não existe hora certa, existe o meu relógio,
Lembrando sempre com seu tic-tac
Que há vida
Para ser vivida,
Que houve a vida
Que não se viveu.
Não importa que o rádio renitente ruja
São tal hora e tal minuto,
Hora oficial,
Afinal,
Que há de oficial em minha vida?

Somente,

Quebrando a paz exata deste espaço,
Levando a mim à frente, sem retorno,
A tiquetaquear meu ser-serei,

Existe o meu relógio, —

pulso falso,

Sensato solilóquio, lento, certo,

Que canta
O canto
Do tempo

Que é meu,

Ildásio Tavares


luiz alfredo motta fontana on 1 novembro, 2010 at 13:11 #

Cara Olívia

nesse aumentar de tristeza

resta em consolo

os versos do poeta:

“Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.”

(Restos – Ildásio Tavares)


Omar Torres on 1 novembro, 2010 at 13:15 #

Muitas garrafas vazias, milhares de cigarros queimados, dezenas de amores intensamente vividos e desfeitos me ligam até hoje a uma imprecisa noite do longínquo verão de 1966. Noite em que, ainda rapazinho, acordei com barulhos de vozes e cantos entrando pela janela do meu quarto na casa nº 05 do Boulevard América. Na vizinha casa nº 07 acontecia uma grande farra. Piano, flauta e violão acompanhavam os alegres bêbados que cantavam poesias de amor. Alta madrugada batidas na porta me levaram a abri-la e me vi frente a frente com o vizinho, que depois oube ser Ildásio Tavares, que trêbado perguntava se eu poderia arranjar gelo. Se eu quisesse participar lá estava Vinícius de Moraes e amigos da Bahia, gentilmente convidou. Não fui e também não consegui mais dormir. Da minha janela, o dia já amanhecendo, vi Vinícius agarrado a Jesse seguido por bêbados em procissão de cantos e risos. Desde aquele dia fiquei sabendo que meu vizinho Ildásio Tavares era alguém especial. Jamais convivemos, sequer conversamos. Nunca senti falta disso. Se não me aproximei dele também nunca me afastei, porque sua poesia e a boemia nos fizeram irmãos.


Regina on 1 novembro, 2010 at 13:18 #

Regina on 1 novembro, 2010 at 13:27 #

Restos

Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.

Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.

Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.

Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.

Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.

Ildásio Tavares


Regina on 1 novembro, 2010 at 13:48 #

Desculpem mas não posso me conter, que VIVA sempre o
imortal e bem amadao
Ildásio Tavares!

http://www.youtube.com/watch?v=xenjkUG8FkQ&feature=player_embedded#!


Regina on 1 novembro, 2010 at 14:08 #

Meu pai subiu no telhado
.by Gil Vicente Tavares on Sunday, October 31, 2010 at 7:06pm.

Meu pai subiu no telhado. Sim, isso é uma paródia da famosa piada de português, povo que ele amava e que publicou seu último livro em vida. E parodio a piada porque a coisa que meu pai mais gostava no mundo era fazer piada e sei que ele riria muito (deve estar rindo, talvez) de um artigo sobre seu falecimento iniciado assim.

Meu pai subiu num telhado, mas num telhado bem alto de um palácio, de um zigurate, de uma sinagoga, de um barracão. Ele subiu em todos esses telhados e tantos outros da vasta cultura de um homem especial, talvez o único próximo a mim cujo título de gênio coubesse como a nenhum outro.

Ildásio Tavares nunca esteve nos holofotes como alguns de sua geração. Mas iluminou a cultura brasileira. Se eu fosse desfilar o currículo de meu pai, precisaria escrever uns dez artigos. Livros, jornais, revistas, TV e google dão conta do recado. Entrementes, falar um pouco do quanto meu pai iluminou minha vida talvez seja uma metonímia do homem que ele tentou ser e em muitos momentos foi pro mundo.

Desde pequeno, bastava eu aparecer entusiasmado com alguma música, algum escritor, que ele logo me mostrava os defeitos. Foi um crítico feroz de todas as obras, a começar pela minha e, principalmente, pela dele. Como todo grande intelectual, via os defeitos e rachaduras, as falhas e fraquezas que o senso comum aplaudia e ignorava. E sofreu muito por isso. A grandeza oprime e a verdade dói. E era um grande que defendia verdades. Nem sempre as verdades, mas as suas verdades, e era muito íntegro com elas.

Dificilmente temos o que merecemos. Muitos são louvados em demasia, outros sofrem pela escassez de reconhecimento. Mas meu pai foi um lutador e um vencedor porque, a despeito da mediocridade opressora que tentava lhe anular, ele conseguiu galgar degraus que, se não o levaram ao merecido altar de gênio que era, ao menos lhe trouxeram momentos de alegria, como ao desfilar homenageado pela Nenê da Vila Matilde, em São Paulo, ou na comemoração de seus 70 anos, com momentos lindos como o de Gerônimo e Vevé cantando É d’Oxum em francês, na versão dele, ou o belo discurso de Jorge Portugal na entrega da Medalha Zumbi dos Palmares, etc, etc…

Tive o prazer de cochilar a manhã inteira no colégio depois de virar a noite vendo meu pai compor com Baden Powell. Tive a honra de, já exaurido, ter um poema em redondilha todo refeito ao lado dele quando eu tinha 7 anos de idade. Aprendi a fazer poesia, a reconhecer a beleza de muita coisa no mundo graças a meu pai. E o que levamos da vida é a beleza das coisas, a poesia dos momentos, das palavras, das cores e melodias.

Meu pai subiu num telhado, mas diferentemente da piada, ele não morreu. Ele está ali, em cima do telhado, olhando pra mim e pro mundo com olhos críticos. Eu sei que ele está lá olhando e pensando o quanto o mundo perdeu ao não reconhecer sua poesia e seu pensamento, e, nós poucos, de cá, pensando o quanto parte do mundo e eu ganhamos ao reconhecer sua poesia e seu pensamento.

Alguns poucos olharão pro telhado, em busca de meu pai. Ele vai estar lá, como todo mestre. Pois um mestre só se torna mestre mesmo quando o que ele pode oferecer deixa de ser ele e passa a ser a gente. E meu pai está mais em mim do que em qualquer outro momento esteve.

Agora é o momento de começar a aprender quem eu sou. Aos poucos, por toda vida. Tentando buscar em mim a poesia e sabedoria do pai e do mestre. A tristeza aparece no momento em que não olhamos as coisas belas.

E não tem nada mais lindo, agora, do que ver meu pai de cima do telhado, olhando pra mim e torcendo pra eu seja um grande homem. Para que eu não deixe que a pobreza do mundo invada nossa alma.

Foi isso que ele me ensinou. E será isso que eu tentarei fazer minha vida inteira, porque agora a responsabilidade aumentou; meu pai subiu no telhado e estará de lá, olhando pra mim, e dizendo; “agora é com você. Já fiz minha parte e fiz muito bem”.


Graça Azevedo on 1 novembro, 2010 at 16:09 #

“Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.”
Parece-me que não sou a única que adoro este verso! É muito lindo!
Boa viagem, Poeta!


Gilson Nogueira on 1 novembro, 2010 at 19:22 #

Abro o computador com a mesma sede de informação que me faz ,no início do dia, ler o jornal. Os olhos batem na notícia da morte de Ildásio Tavares.A sempre mesma dor da perda de um amigo deixa-me sem palavras. No lugar delas, a exclamação: Oh,Deus! E um silêncio se transforma em prece de pedir a Ele que o receba em festa porque o grande poeta Ildásio foi a Bahia em carne e osso. Ao mesmo tempo, a lágrima que chora sua partida estimula o riso por sabê-lo vivo. E ele ,feito santo, de bata branca, parece surgir de sandália de couro no altar de minhas sagradas lembranças. Eis o homem, magnificamente inteligente,literaturalmente belo, deixando-me orgulhoso por ensinar-me a tratar a poesia como se lapida diamante. Sob o sol de um sábado que iluminava nosso encontro, vivi, um dia, no Porto da Barra, entre uma dose e outra de um uisque honesto, um dos maiores instantes, na face da Terra,na companhia de um gênio. Ao meu lado, Ildásio, dando o terceiro tratamento em um poema que escrevi para meu pai, sacudiu-me o peito de orgulho por ser seu súdito. Senti em sua pena iluminada, no momento, em que ele escrevia ser Gilson mistura de vinagre e mel, a reverberação do som do tambor que saúda o orixá da palavra, o doce cumprimento verbal do boêmio cheio de festa e fantasia e a manha do capoeirista que não temia a cara feia do diabo. Afinal, para mim, e para muita gente mais, Ildásio possuia, no seu jeitão desassombrado, um certo quê de Deus das Letras, um jeito debochado de uma santidade mulherenga. É isso!
Que porra, Ildásio!!! Vai ser fodinha sorrir sem você aqui daqui pra frente ? Ah, tome uma com o Pai!


Gilson Nogueira on 1 novembro, 2010 at 19:28 #

Vai ser fodinha sorrir sem você daqui pra frente!


Regina on 1 novembro, 2010 at 20:03 #

Gilson, meu irmão, foi difícil cair a fixa… Perdemos um poeta, um homem inteligente, um pensador, um maluco extraordinário!!! E olha que faz tempo que não o via, mas, quem o conheceu um dia jamais o esquecerá… Como o Dorival, ele, como vc tão bem disse “era a Bahia em carne e osso”. Que toquem todos os atabaques em seu louvor!!!!!


Carmem on 1 novembro, 2010 at 20:35 #

Os atabaques já tocaram, ele era Obá do Axé Opô Afonjá, liderado pela querida mãe Stella. Vá em paz, Ildásio Tavares.


Gilson Nogueira on 1 novembro, 2010 at 21:01 #

Regina, minha querida, que falta o nosso mestre fará! Ildásio, você sabe, era (qual tempo verbal, qual o tempo?) demais, uma festa em pessoa! E, mesmo que não o encontrássemos, na nossa velha Salvador, pessoalmente, no cotidiano, sua presença se fazia forte, como o Sol!Ele, também, um sol, o sol Ildázio, como Ruy, eterno.Ildásio aquecia, mais,nosso viver. Deus festeja a chegada do nosso amigo na Academia da Eternidade. Saravá, Ildásio Tavares!!!


Edson Leal da Silva on 1 novembro, 2010 at 21:25 #

Homem simples, cultura invejável, curtia muito as visitas à sua casa na Pedra do Sal, no Farol de Itapuã, lá dávamos risada, contavamos piadas, falávamos da vida dos outros, do nada ele fazia uma poesia para mim, puxa, que bom! como era legal, chegar alí, empurar o portão, acaricias seus cães boxer, ver o velho e surrado ford-K azul na garagem, na sala os atabaques, e, na sua biblioteca me deliciava em ler os livros, sempre saia de lá com um livro de presente! Ele me chamava de “causídico”, era seu consultor jurídico, seu conselheiro, tive o privilégio de ser seu amigo e poder dividir idéias e aprender muito com ele. Histórias e estórias, gozações, pilhérias, que cara genial, “…fui num pagode na casa de papapá…”, ele se referia alí ao compositor Jorge Papapá, esta história do pagode vou contar, aguardem! Vá com DEUS Mespre, Poeta, Literato, Advogado e Brasileiro, Ildazio Marques Tavares!


Olivia on 2 novembro, 2010 at 9:52 #

Saravá, Ildásio, Saravá!!!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • novembro 2010
    S T Q Q S S D
    « out   dez »
    1234567
    891011121314
    15161718192021
    22232425262728
    2930