Lula com Dilma suam no palanque…

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…na terra do tropicalista Torquato Neto

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ARTIGO DA SEMANA

Do calor de Teresina ao frio de Atacama

Vitor Hugo Soares

Noite de quarta-feira, 13, em Teresina. Faltam menos de duas semanas para a hora da onça beber água no segundo turno que sacramentará ( é bem o termo) o nome do próximo ocupante do Palácio do Planalto. Em cima do palanque governista na capital do Piauí , citada nos boletins meteorológicos, no rádio e na TV, como a mais calorenta do país, o presidente Luís Inácio Lula da Silva faz das tripas coração no papel de privilegiado cabo eleitoral.

Novamente trajado de palanqueiro, o chefe da Nação se esforça para empurrar adiante o carro da campanha de Dilma Rousseff à sua sucessão, na região Norte e Nordeste. Pedaço distante do Brasil onde as pesquisas apontam os índices mais confortáveis da candidata petista, que dá visíveis sinais de derrapagem no resto do País, com o tucano Serra agora colado em seu calcanhar.

Roupa encharcada de suor, sob um calor de 40 graus, Lula esgota seu repertório de “mitingueiro” notório. Capricha no gestual e na retórica; repete casos, reinventa histórias contadas na Bahia e outros estados, renova despedidas já feitas mas que se revelaram (graças à crença e a tenacidade da verde Marina Silva), insuficientes para acabar tudo no primeiro turno como esperava, quando os olhos e ouvidos do mundo estavam todos voltados para o “cara” do Brasil.

Mas, como estão cansados de saber sulistas e nordestinos, o mundo dá voltas. Mais rápidas e surpreendentes ainda em tempos eleitorais. Na noite do comício em Teresina esta semana, sinais cristalinos das mudanças rondavam no ar, quase impossíveis de não serem enxergados até pelo mais míope político, candidato, empresário ou jornalista.

E estas transformações não se resumiam às presenças, destacadas no palanque piauiense, do “galego” petista governador da Bahia, Jaques Wagner, e do socialista Cid Gomes, do Cerá, reeleitos na primeira rodada. Ambos arregimentados às pressas “para dar uma mão” ao presidente, e tentar não deixar derrapar o carro da candidata petista também no Norte e Nordeste, considerados os principais bastiões e as mais ricas e fiéis reservas dos votos que Lula tenta transferir para sua candidata “do coração”.

As alterações são visíveis, também, nas imagens internacionais mais marcantes da quarta-feira, 13. Na noite do palanque quase invisível do Piauí, os olhos e a emoção no Brasil, e no resto do planeta, estão grudados na distante localidade de San Jose, em pleno deserto de Atacama, no Chile sempre emblemático e surpreendente.

Ali, sob um frio de rachar, tão comum nas noites dos desertos em qualquer fase do ano, culmina uma operação de salvamento modelar e sem precedentes na história dos países e da humanidade. Ao mesmo tempo, um dos exemplos mais belos e extraordinários de resistência humana já vistos. Coragem, entrega, capacidade de mobilização de um povo, solidariedade interna e internacional , fé sincera na realização do sonho e da vontade aparentemente impossíveis – além do invejável modelo de consciência política e maturidade de governantes e governados. Tudo misturado.

Resultado: um a um, depois de mais de dois meses do início de um pesadelo medonho, a cápsula-nave Fenix 2 resgata do fundo da terra, são e salvos, todos os 33 mineiros que pareciam irremediavelmente condenados à morte mais terrível depois de um desastre a 700 metros da superfície. Final mais que feliz para uma história que tinha tudo para terminar em tragédia.

Tocantes cenas de emoção por toda parte. Nos gritos de “Viva Chile”, nos cânticos políticos e patrióticos, no batuque dos bumbos das festas e demonstrações de alívio e felicidade que se espalham por um povo e um país , nas cenas dos trabalhadores da mina abraçados por familiares, companheiros, amante e heróicos integrantes das equipes de salvamento.

Em seguida, os resgatados abraçam com força, sentimento de gratidão e reconhecimento a Sebastián Piñera, o tido como conservador dirigente recém eleito presidente chileno, depois de derrotar o candidato dito progressista, apoiado pela ex-presidente Michelle Bachelet, que deixara o poder no Palácio de La Moneda nos braços do povo, com quase 80% de apoio popular nas pesquisas de opinião. Piñeda, de repente, emerge como o “cara” da vez da América Latina e do resto do vasto mundo.

Na quentura do comício de Teresina, no duelo quase final da campanha marcada dos dois lados pela virulência quase insana e a hipocrisia mais deslavada, a questão cultural, a memória histórica, os sentimentos mais éticos e nobres parecem definitivamente rifados dos programas dos candidatos e dos discursos de seus padrinhos e apoiadores.

Nem Lula, nem Dilma, nem qualquer de seus acompanhantes forasteiros ou mesmo políticos locais, parecem se dar conta de que pisam o chão de Torquato Neto. Notável poeta, artista, compositor e jornalista, que tragicamente abriu o gás do fogão e partiu precocemente. Não antes, porém, de produzir uma obra genial. Versos de mestre e composições de músicas transcendentes ao tempo e ao espaço, que elevariam o piauiense de Teresina, aluno de colégio de padres em Salvador, à posição justa de um dos pilares do Tropicalismo, o movimento revolucionário que viraria o Brasil de pernas para o ar e marcaria gerações, inclusive a deste jornalista.

Autor, dentre outras maravilhas, de Go Back . Uma música e uma poesia cuja letra ninguém no Brasil, principalmente governantes, político e candidatos e marqueteiros deveria esquecer. Em especial na parte que diz: “De  repente a madrugada mudou/ e certamente/ aquele trem já passou/ e se passou daqui pra melhor, foi!/ Só quero saber do que pode dar certo / não tenho tempo a perder”.

Grande Torquato! Viva o poeta do Piauí que conhecia como poucos seu país, seus governantes, sua imprensa, seus políticos e a gente que vive no Nordeste e no Sul, no Norte e no Sudeste. Salve!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: Vitor_soares1.@terra.com.br

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Comentários

Regina on 16 outubro, 2010 at 2:11 #

Hugo, my brother, você se passou! Como costumam dizer os chilenos ao constatar a superação.
O suor e o esforço de Lula no entando, poderá resultar em vão dado os últimos acontecimentos em que sua pupila se revelou inadequada, na minha humilde opinião, para o cargo que almeja, já que nega sua própria essência de lutadora e valente mulher e se vende por trinta moedas como outros já fizeram antes.
Os chilenos se comportaram devidamente lá em baixo e já se manifestam acertadamente aqui em cima: “Que esto nunca vuelva a suceder!” bradam e demandam segurança no difícil oficio de mineração.
Quanto a Torquato, é melhor deixar ele falar: ” Eis que esse anjo me disse, apertando minha mão, com um sorriso entre os dentes: Vai bicho, desafinar o coração dos contentes”…


Marco Lino on 16 outubro, 2010 at 8:29 #

O que sobeja ao Vitor, falta a muitos analistas: manter-se equidistante das paixões políticas na hora de analisar. Não poupa deslizes nem virtudes de candidato(a) algum(a) – possibilidade cada vez mais difícil no atual ambiente político brasileiro, onde os “formadores de opinião”, como gladiadores numa arena qualquer da Antiguidade, se esforçam para agradar a um ou outro César.

Tem estilo próprio, luz própria e não vive como papagaio a repetir o vocabulário, as teses e as receitas do centro-sul maravilha. Vejo beleza nisso. Louvo isso.

Mais uma vez, parabéns!!


luiz alfredo motta fontana on 16 outubro, 2010 at 9:01 #

Será fraco!

Será fraco, será fraco, será fraco!!!

Comentam as galinhas d’angola

Será tão fraco quanto vazias foram as propostas de governo.

Esta a sina do(a) vencedor(a).

Lula conseguiu, completou o serviço de Médici, acabou com vida inteligente na política brasileira.

Verdade seja dita, não parecia haver, mesmo que diminuta, esta espécie.

Dilma ou Serra, Serra ou Dilma, tanto faz como fez essa ordem das coisas. O produto é velho conhecido, anos de desilusão e esperanças suicidas.

São Renan, São Jucá, e se “duvidá” São Sarney redivivo, ditarão normas e negociarão aplicações das “ditas cujas”.

JurosAlém continuará “imexível”, e os “Meninos do Copom”, beatificados, porque agora é moda.

Quanto ao povo…

Oras!

Que assunto de mal gosto, em hora errada, tá parecendo coisa de herege!!!

O que importa são os “santinhos”!!!

E as “carinhas” de contrição!

Mesmo que decorrentes de enorme constrição, revela o cínico acrescentando o “s”.

Todos juntos, na mesma novena, amém…!


Jader Martins on 16 outubro, 2010 at 9:36 #

Tem baiano tropicalista importante apoiando a Dilma : O Gil.
http://www.youtube.com/watch?v=Ieo35nt2PUo&feature=youtu.be


Marcia Dourado on 16 outubro, 2010 at 10:08 #

O que mais me toca nesse valente, íntegro e atento jornalista Vitor Hugo Soares, é o seu lúcido olhar envolto em imensa sensibilidade nos passos dessa gente política do nosso País.
Parabéns!


Mariana Soares on 16 outubro, 2010 at 13:53 #

É isso aí, Marco Lino, a lucidez e a imparcialidade dos comentários do autor deste texto e editor deste blog é algo realmente memorável, dígna de ser copiada por essa imprensa brasileira que tem se mostrado, especialmente nestes tempos de campanhas eleitorais, de uma odiosa leviandade.
Como democratas e cidadãos que somos, temos direito às nossas escolhas e a defesa dos nossos pontos de vista. O que não se pode admitir é esta degradação de valores e ausência total de respeito que estamos vivendo nos dias atuais em relação aos candidatos a presidência do nosso país.
É nojento e repudiante os texto, ditos jornalísticos, distribuídos pela internet e que enchem as nossas caixas de emails. Repudio quem os escrevem e quem os enviam!
Que se mostrem, se possível como faz este meu irmão, de forma limpa, justa, livre, imparcial, respeitosa, e se não for pedir muito mais, como o faz neste texto maravilhoso, com sensibilidade, o que se deseja defender, sem ofensa ao ser humano, ora candidato, deixando para o eleitor decidir quem ocupará o Palacio do Planalto pelos proximos quatro anos, com base apenas nas qualidades tecnicas e politicas agradáveis a cada um.
Parabéns, meu irmão, seu texto esta D+!!!


Carmem on 16 outubro, 2010 at 20:35 #

Tenho certeza que, mais uma vez, a chamada grande imprensa vai ‘cair do cavalo’, ou como se diz no popular: o povo não tá comendo essa gaiva. O processo tá nojento. Deveriamos ter mais Vitor Hugos e menos Reinaldos, Diogos, turma da Veja…


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