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Postado em 11-10-2010
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 11-10-2010 09:48

Serra e Dilma: além das aparências

OPINIÃO POLÍTICA

O aborto no centro da campanha

Ivan de Carvalho

A candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, reclamou, no fim de semana, contra o barulho que se está fazendo a respeito do aborto. Um barulho que, junto com alguns outros, já a prejudicou pesadamente, sob o aspecto eleitoral, na votação do começo do mês.

Disse a candidata e ex-ministra chefe da Casa Civil, após visita a uma instituição filantrópica, semana passada: “Essa discussão é legítima… ela só não pode ser o centro de todo o debate no Brasil”.

Peço licença para discordar dela e dos que concordam com ela.

Pode. Pode ser o centro, sim. E, se for necessário para deixar bem claras as posições dos dois candidatos e seus partidos, bem como suas razões, deve. A sociedade precisa conhecer a fundo o assunto, já que se trata de uma questão vital, por natureza.

Numa sabatina na Folha de S. Paulo, em 2007, a então ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República foi questionada: “Sobre o aborto, qual a posição da senhora? A legislação atual é adequada (considera crime o aborto, salvo em caso de estupro ou grave risco para a vida da gestante) ou a senhora defende uma ampliação?”.

A resposta foi instantânea, rápida, segura, tranqüila e firme, como está evidente em vídeo feito na ocasião e disponível na Internet: “Olha, eu acho que tem de haver a descriminalização do aborto. Hoje, no Brasil, isso é um absurdo que não haja – a descriminalização”.

Depois, em abril de 2009, em entrevista à revista Marie Claire, respondendo a uma pergunta da revista, que se declarava favorável à descriminalização, Dilma Rousseff respondeu: “Abortar não é fácil pra mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização. O aborto é uma questão de saúde pública. Há uma quantidade enorme de mulheres brasileiras que morre porque tenta abortar em condições precárias. Se a gente tratar o assunto de forma séria e respeitosa, evitará toda sorte de preconceitos. Essa é uma questão grave que causa muitos mal-entendidos.”

Note o leitor: “Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização”. À revista, em abril de 2009, reafirmou o que dissera ao jornal em 2007. Descriminalização, legalização – sinônimos óbvios, no caso, de liberação.

Hoje, a candidata diz coisas confusas ou vagas a respeito. “Sou a favor da vida em todos os seus aspectos”. Eu, você e as torcidas do Flamengo e do Corinthians também são. E as dos outros times também.

O aborto e o uso de drogas ilícitas resultam de um processo de desigualdade social que leva ao “esgarçamento” e à “corrosão” da família, teoriza, sensatamente, é claro, a candidata. “Você vê gravidez na adolescência, você vê situação de extremo risco… jovens recorrendo a aborto usando agulha de crochê e vê menino de sete anos usando crack”.

É, tem isso tudo. E tem o aborto. Mas agora, que o bicho pegou, diz a candidata do PT (partido que tem a descriminalização do aborto no seu programa): “O aborto é uma agressão ao corpo da mulher”. É. E já era em 2007 e em abril de 2009. Mas não é só uma agressão ao corpo da mulher. É uma execução do ser humano absolutamente inocente e indefeso que se desenvolve ainda no ventre da mãe, a hospedeira. Este outro corpo humano vivo (inclusive animado por alma e espírito, segundo os espiritualistas) não é o corpo da mãe e tem o direito natural à vida.

E a candidata governista promete que não mandará ao Congresso Nacional proposta para descriminalizar o aborto. Ora, um parlamentar qualquer pode propor e uma maioria (até coordenada nos bastidores por parlamentares governistas) pode aprovar. Se a candidata do PT comprometer-se solenemente com a nação a se opor firmemente a qualquer mudança legislativa que favoreça a prática do aborto, ela poderá tirar, como quer, o tema do centro do debate na campanha para o segundo turno.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 11 outubro, 2010 at 14:49 #

Quem muito escrevinha acaba contraditado.

Ivan, o Carvalho, confunde e tenta criar confusão.

A sua visão de mundo, em que condena e absolve mulheres de acordo com seu “apetite de julgar”, turva-lhe a compreensão dos papéis na democracia.

Brada por colocar o aborto como centro, palco e texto da disputa presidencial, como se coubesse ao eleito decidir sobre.

Mistura nesse afã suas predileções pesosais, Serra e a Santa Madre Igreja. O que pode criar alguma confusão no seu vasto público leitor, vez que, dilma é cria e fruto de um dileto “devedor” da opção desta mesma Igreja. Afinal foi ela, aliada aos sindicalistas de plantão, e “intelectuais” de poucos livros, quem criou a figura mítica de Lula, tornando proibido, posto que policamente incorreto, criticá-lo.

Mas, entende-se, às favas a coerência, o que importa é a paixão.

O problema é a facilidade em escrevinhar, ao torvelinho de laudas e parágrafos com que defende sua opção, a despeito de sequer imaginar uma consulta sincera às mulheres, escrevendo e repindo-se, eis que sem querer, ou se dar conta, vai cometendo contradições.

Assevera o articulista:

‘Ora, um parlamentar qualquer pode propor e uma maioria (até coordenada nos bastidores por parlamentares governistas) pode aprovar.”

Mais nada precisa dizer ou arrostar.

Aqui a verdade republicana:

Leis são fruto da ação parlamentar e não da “vontade’ do presidente de plantão, mesmo que este sejam o Santo Serra.

Amém!

Mas o que importa a democracia se o que traz felicidade é sentir-se fiel a um candidato e fidelíssimo a uma opção religiosa?

Não é mesmo Ivan?


danilo on 11 outubro, 2010 at 14:59 #

a muié de muitas caras cada dia mostra uma diferente. e eis que, ontem, no debate da Band, a senhora Dilma Sargentão demonstrou também que é a Dilma Pitbull.

a Dilma de ontem é aquela verdadeira Dilma do dedo em riste e que xingava e desmoralizava os assessores no Ministério, levando alguns deles às lágrimas. q o diga o ogro Gabrielli da Petrobrás, figura também autoritária e antipática. sem falar da fadinha das florestas Marina que de tanto apanhar de Dilma, era vista em prantos pelos corredores do palácio, e terminou por desistir do PT.

é… Dilma Pitbull esqueceu a lição de Lullinha Paz e Amor: quem bate perde voto. quem é agressiva assusta o eleitor.

e algo fica claro diante da postura de Dilma Pitbull: pra ella ter agido daquele jeito já deve ter pesquisa dizendo que o vampiro Serrote já ultrapassou Dilma.

afinal, quem está liderando uma corrida não vai ficar xingando o adversário q está atrás, nem vociferando e mostrando o dedo médio pros outros, né?


danilo on 11 outubro, 2010 at 15:20 #

análise certeira do debate da Band feita pelo jornalista Polípio Braga:

José “El Cordobés” Serra cravou as primeiras “banderillas” no dorso exposto de Dilma Roussef

Nem de longe o local do primeiro debate de domingo a noite na Band, pareceu um estúdio de TV, porque desde a primeira fala deu para perceber que a candidata do PT transformaria o local numa arena de touros. Quem já esteve numa tarde domingueira na Plaza de Toros de los Ventos, de Madrid, sabe do que fala o editor.

. Enfurecida, ciscando a areia, olhos esbugalhados, têmporas latejando o tempo todo, a candidata Dilma Roussef botou os bofes para fora, apareceu pela primeira vez como verdadeiramente é e lançou-se em destrambelhada correria rumo ao alvo que desejava destruir.

. Ainda com a espada escondida sob o capote vdermelho, José “El Cordobés” Serra preferiu apenas esquivar-se, sem deixar de espetar suas “banderillas”,minando as forças do adversário feroz. O público percebeu isto ao longo das tres sessões de enfrentamento. Faltaram apenas os tradicionais “olés”.

. A espada fatal sairá de trás do capote e será brandida quando o toureiro tiver seu contendor prostrado sob seus pés.

– Se os marqueteiros estão certos, Duda Mendonça à frente, Dilma Roussef assinou nesta segunda-feira sua sentença de morte eleitoral, porque atacou o tempo todo de maneira furiosa e destrambelhada, enquanto seu adversário manteve-se sereno, apenas esquivou-se das estocadas, não aceitou o jogo, reafirmou as denúncias como quem não quer nada e insistiu com propostas de governo. A estratégia lulo-petista seguida à risca, porém sem brilho, por Dilma Roussef, é retomar o surrado mote das privatizações (Lula e o PT estiveram oito anos no governo e não desprivatizaram nada) e adotar a posição de vítima de calúnias (as verdades sobre as mentiras de Dilma, do PT e do governo, viraram calúnias para a candidata). O jogo de debates do segundo turno está apenas começando e Dilma Roussef já perdeu a cabeça, motivada pelo insucesso eleitoral do primeiro turno (ela e seus companheiros davam como certa a consagração lulo-petista no primeiro turno), a mudança de clima nestes primeiros dez dias de campanha e os ataques massivos que lhe movem a imprensa e as Igrejas.


Jader Martins on 11 outubro, 2010 at 17:03 #

Parabens Danilo . Brilhante (rs,rs,rs..) como sempre !!!


Carlos Volney on 11 outubro, 2010 at 18:13 #

Brilhante, como sempre, aliás, o comentário do poeta Fontana. O facciosismo do articulista é das coisas mais aberrantes que já li de uma pessoa que se diz jornalista. Até eu, que estou absolutamente neutro nessa disputa por considerá-la briga de quadrilha, fico indignado com tamanha parcialidade. A tentativa de colocar a coisa como uma relação mocinho/bandido é patética, para definir elegantemente. E aínda tem quem aplauda. Viva o maniqueísmo….


Ivan de Carvalho on 11 outubro, 2010 at 18:58 #

Quanto a alguns dos comentários sobre o artigo a respeito da questão do aborto na campanha eleitoral, publicado ontem aqui – e, surpreendentemente para mim, também sobre mim – tenho a dizer apenas que cada um tem o direito de escrever o que quiser. E que eu continuarei a escrever, enquanto Deus permitir, o que entender que devo.
Aproveito para agradecer a atenção.


Ivan de Carvalho on 11 outubro, 2010 at 19:00 #

Quanto a alguns dos comentários sobre o artigo a respeito da questão do aborto na campanha eleitoral, publicado hoje aqui – e, surpreendentemente para mim, também sobre mim – tenho a dizer apenas que cada um tem o direito de escrever o que quiser. E que eu continuarei a escrever, enquanto Deus permitir, o que entender que devo.
Aproveito para agradecer a atenção.


Marco Lino on 11 outubro, 2010 at 20:14 #

Parabéns, Ivan, pela interação.

É muito mais fácil e cômodo ficar lá nas alturas e fingir não ouvir os reclames dos pobres mortais de cá.

Entretanto, Ivan, desconfio que o Deus de Abraão ficaria um pouco mais satisfeito contigo se falasses também um pouquinho sobre alguns dos muitos problemas do também pouco santo Serra.

Afinal, como disse o Volney, tem pouco santo nesta guerra e se mostrares somente a sujeira da lutadora de vermelho o Todo Poderoso – que é santo e não admite “impureza” de ninguém – certamente se chateará contigo. Mesmo porque, como bem disse o salmista, “equidade e justiça são a base do seu trono”… Logo, o articulista, como cristão e súdito deste reino, deve ao menos buscar um pouco de isenção na hora sagrada de utilizar a pena, sob o risco de desagradar ao divino e a almas mais sensíveis como a do poeta Fontana.

Abs


luiz alfredo motta fontana on 11 outubro, 2010 at 20:29 #

Em atenção ao Ivan

Afinal reiteradas declarações de fé, são dignas de atenção, mesmo que parcialmente tucanas.

Lembrando sempre, que tucanos e petistas compõem lados idênticoos da mesma moeda, e louvam igualmente, em devotos juros, o mesmo reino do sistema financeiro.

Assim, em atenção ao Ivan, reproduzo o comentário feito em post vizinho:

—————————————————

Deu na minha tristeza

Dois candidatos, os que restaram, portanto um eles vai ocupar o Palácio, por mínimo 4 anos, embora costumem, os ocupantes, desde a primeira hora, buscar a prorrogação por mais 4.

De um lado, acusa, um deles, a tutora de Erenice, aquela mesma Dilma que transformou essa senhora de poucos modos e muita audácia, sabe-se lá vinda de onde, em Ministra, da mesma Casa Civil que herdou de outro, o tal Dirceu, cassado a espera de um julgamento, que como tantos, apenas tarda.

De outro, aponta esta, alguém que deve explicar aos incautos eleitores quem é Paulo Vieira de Souza. essa novidade em assessoria, que, segundo aponta os recortes da imprensa, aqui e ali, ainda não ordenados e colecionados em “biografia”, parece ter no novo senador, o fiel Aloysio Nunes Ferreira, uma amizadade pra lá de fraterna, afinal, ao que disse a edição de 15 de maio da mesma Veja, para gáudio, talvez, daquele cantor derrotado e conhecido por envolver-se em agressões à, pasmem, mulheres. Histórias existem.

Aqui um trecho:

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“Ele tem estreitas ligações políticas e pessoais com Aloysio Nunes Ferreira Filho, ex-secretário da Casa Civil de São Paulo e candidato do PSDB-SP ao Senado. Vieira de Souza e Aloysio se conhecem há mais de 20 anos. Quando, no ano passado, o tucano sonhou em ser o candidato de seu partido ao governo de São Paulo, Vieira de Souza foi apresentado como seu “interlocutor” junto ao empresariado. A proximidade entre os dois é tão grande que a família dele contribuiu para que o ex-secretário comprasse seu apartamento. A filha do engenheiro, a advogada Priscila Arana de Souza, e sua mãe, Ruth de Souza, fizeram um empréstimo de 300.000 reais ao tucano — dos quais a advogada arcou com 250.000 reais, conforme revelou o jornal Folha de S. Paulo em dezembro. “A filha dele me emprestou um dinheiro para eu comprar um imóvel, pois eu queria fechar negócio e não podia esperar sair o financiamento do banco. Paguei à Priscila no ano passado mesmo, em três ou quatro prestações. Tenho meus cheques todos registrados. Está tudo correto e documentado”, diz Aloysio. A assessoria do ex-secretário enviou uma relação de seis cheques de três bancos diferentes, relacionados ao pagamento da dívida. Cinco deles são de 2008: dois no valor de 50.000 reais, um no valor de 60.000 reais, um de 81.000 reais e o último, de 19.000 reais. Há também um cheque de 50.000 reais de maio de 2009.

Na versão de Aloysio, a demissão do amigo Vieira de Souza até parece voluntária. “Ele pretendia deixar o governo após a inauguração do Rodoanel”, diz. “Foi inaugurado e ele saiu.” Souza é mais duro ao falar do assunto. Atribui a demissão a atritos causados pelo seu estilo de trabalho, de dura cobrança de prazos. “Sempre disse que o Rodoanel tinha dia e hora para acabar. E isso incomoda”, afirma. “Mas não importa. O Brasil inteiro sabe que o protagonista do Rodoanel fui eu. Não faz diferença se estou dentro ou fora do governo.” O engenheiro rebate a tese de que sua exoneração poderia estar ligada às investigações sobre a Camargo Corrêa. “Não tem nada contra mim na Operação”, diz ele.”
Veja, 15 de maio de 2010 sob o título: O ‘homem-bomba’ do tucano Aloysio Nunes
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Enquanto isto, renomados e acomodados articulistas políticos, de vetustas redações, nos distraem com longas dissertações, e enfadonhos cantochões, sobre o mal dos males, o tal aborto, que parece seduzir rompantes éticos e fulgurantes condenações às trevas.

Deu na minha tristeza, e na vossa???

Próximo capítulo desta troca de afagos, na Record, após na globo, caso não adoeçam, compareçam nos vossos domicílios eleitorais. O tal dever vos chama, sob pena de multa.

Que Xangô nos ilumine, caso queira!


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