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ARTIGO DA SEMANA

A MADRE DILMA E O PADRE SERRA

Vitor Hugo Soares

Fascinantes, estressados, caóticos, surreais, hipócritas. Assim foram, não necessariamente nesta ordem, os primeiros movimentos dos partidos, dos candidatos, da imprensa, dos coordenadores de campanhas e marqueteiros esta semana. Marcas mais visíveis no reagrupamento das tropas com vistas a disputa presidencial no segundo e decisivo turno entre a ex-ministra da Casa Civil, Dilma Roussef (PT), e o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB).
No centro de tudo o invencível exercício do dom de iludir, presença histórica e inevitável, há séculos, em eleições no País. Marina Silva, digna e grande vitoriosa nas urnas do primeiro turno, é misturada com a sombra da cruz apontada na forma quase inquisitorial de estigmas e condenações as mais hipócritas e horrorosas sobre cabeças de candidatos e eleitores.
Em alguns casos, o símbolo religioso está nas mãos e nas palavras de crentes de ocasião, de vários credos. Verdadeiros “hereges” de batina, em hábitos de freiras ou de paletó e gravata a proclamar o santo nome de Deus em vão, como dizia em suas pregações o beato Antonio Conselheiro, em Canudos, no sertão da Bahia, no começo do século passado, naquele confuso e conturbado período de transição do Império para a República no Brasil.
“Gente estúpida, gente hipócrita”, diria o baiano Gilberto Gil em tempos mais contemporâneos, sobre esta explosiva mistura de interesses políticos e eleitorais com religião e seus dogmas, que marca os primeiros movimentos do segundo turno da eleição presidencial em pleno século XXI.
Em tudo, ou quase, ambientes estranhos e tonalidades surreais dignos de um conto do argentino Julio Cortazar, a exemplo da “Pequena História Destinada a Explicar como é Precária a Estabilidade dentro da qual Acreditamos Existir, ou seja, que as Leis Poderiam Ceder Terreno às Exceções, Acasos ou Improbabilidades, e aí é que eu Quero Ver”, que fala das incertezas quanto ao futuro quando “o Comitê se reúne e procede à eleição de novos membros do órgão”. Ciro Gomes, que entra na campanha de Dilma e Jorge Bornhausen, na de Serra, que o digam.

Ou a atmosfera de realismo histórico e fantástico de um romance de Mário Vargas Llosa, o notável escritor peruano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2010 – para honra, gloria a afirmação cultural e política de um continente chamado América Latina. Isso, apesar da envergonhada e pífia cobertura, factual e analítica, dada pela imprensa brasileira – de repente tomada por arroubos beatos na cobertura jornalística sobre a questão do aborto que virou prioritária na pauta dos diários e nos programas dos candidatos – à transcendente vitória do autor de “A Festa do Bode” e “A Guerra do Fim do Mundo”, entre outras obras primas da literatura do continente e mundial.
Que diferença da profusa, profunda e diversificada cobertura do fato mostrada na CNN, e lida nos diários argentinos e seus sites, no México, na França, na Espanha, para ficar em apenas alguns exemplos mais marcantes e significativos. Fica patente, assim, o intrigante contraste com esta campanha eleitoral brasileira, na qual os temas culturais foram praticamente amputados dos discursos dos candidatos, dos programas de governo e das justas cobranças da imprensa.
Durante a semana inteira, inclusive nesta sexta-feira, 8, no recomeço do horário gratuito de propaganda na televisão e no rádio, o que ficou mais evidente foi o fato da candidata do PT, Dilma Rousseff, por exemplo, trocar o salto alto em que andava metida com os coordenadores e aliados, nas últimas semanas de sua campanha no primeiro turno, por hábitos e pregações de quase monja .
É verdade que, em lugar das modestas e tradicionais sandálias franciscanas, a petista optou pelas modernas mas não menos confortáveis Croc, aquelas de fibras sintéticas com furinhos em cima que os estilistas brasileiros, em geral, abominam e consideram a coisa mais feia do mundo, mas que caiu no gosto de norte-americanos e europeus, principalmente de seus dirigentes políticos e celebridades.
José Serra, o candidato do PSDB, ontem esteve no interior da Bahia, acompanhado de seus aliados do DEM, em pregação cerrada contra o aborto. ”Parece todo o falecido monsenhor Magalhães ou o Frei Damião”, compara um antigo morador de nova Glória, no Vale do São Francisco, ao lembrar dos dois conservadores religiosos e seus amedrontadores sermões, em “santas missões” pelo Nordeste, na segundo metade do século passado. Motivo de enormes pesadelos deste jornalista quando jovem.
Só falta a batina preta, como a asa da graúna. Em outra época isso poderia ser ajuda providencial para virar eleição. Hoje, no entanto, é aposta arriscada, ainda mais para um candidato de perfil progressista como o do ex-presidente da UNE. Mas eleição é o diabo, dizem os mineiros. A conferir.
Enquanto isso, saudemos Vargas Llosa, que tanto nos ensina em seus escritos repletos de personagens notáveis, a exemplo do jornalista míope, de “A Guerra do Fim do Mundo” que, aparentemente perdido no sertão baiano, “resgata a experiência de Canudos, narrando-a”. E opinando, evidentemente.
Viva!!! Viva!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail; Vitor-soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 9 outubro, 2010 at 9:37 #

Só resta “comer água”

Castigo em 2º turno é excesso!

O desfile do “sem jeito” com a “sou a escolhida”, aperrenha até monge budista.

Pior é confusão na casa de Orostrato, o seu “Orô” do mundaréu.

Mal chega em casa e vai logo “alvoroçando:

– Muié!

– Tem um bandido novo na praça, um “fio do catingoso”, pior que “urutu de cruzeiro”!

E a pobre, assustada pergunta:

– Quem é esse “malfeito das trevas”!

Ao que “Orô”, em tom de profrecia, retruca:

– É ele, o “coisa-cuspida”, o “cheiro-de-bode”, o “sem-rastro”!

E ela, já sem cor:

Minha Santa “Sinhóra-dos-desprivinidus”!!!

Ao que Orô arremata:

– Fique avisada, caso essa tal de “Aborto” do nada”aparecê”, ocê me grita!!!

E mais não diz, pois é de pouca conversa.

Já os marqueteiros!!!!


Carlos Volney on 9 outubro, 2010 at 12:34 #

BRILHANTE, BRILHANTE, BRILHANTE, E ALENTADOR O ARTIGO DE VITOR HUGO QUE SEMPRE CONSEGUE SE SUPERAR AÍNDA QUE ACHEMOS IMPOSSÍVEL. TAMBÉM JÁ HISTÓRICO, O COMENTÁRIO DO POETA FONTANA. HAJA LUZ!!!!!


Olivia on 9 outubro, 2010 at 21:13 #

Concordo Volney, há se houvessem mais jornalista deste naipe. Nestes períodos de trevas, algum alento, já é alguma coisa.


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