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Liu Xiaobo: liberdade para Nobel da Paz/AFP


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DEU NO “PÚBLICO” ( PORTUGAL)

É provável que Liu Xiaobo não saiba sequer que ganhou o prêmio Nobel da Paz. Talvez partilhasse com a mulher a ideia de que nunca o receberia porque dificilmente Oslo iria desafiar a grande potência económica em que a China se tornou. Mas foi com esse mesmo argumento que os membros do comité decidiram distinguir “o símbolo” da luta pelos direitos humanos no país: o regime tem de acompanhar os avanços econômicos com o respeito pelas liberdades fundamentais.

O crescimento das últimas décadas, “praticamente ímpar na história”, tornou a China na segunda economia mundial e tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, declarou o comité. “O novo estatuto deve conduzir a maior responsabilidade”. Durante mais de duas décadas, Liu Xiaobo tem sido um grande “porta-voz dos direitos fundamentais”.

O país deveria estar “orgulhoso” pela atribuição do prémio, comentou a mulher do ativista, Liu Xia. Pelas palavras usadas para reagir ao galardão, orgulho é tudo o que não passa pelo regime de Pequim.

“É uma obscenidade contra o prêmio da paz”, reagia o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ma Zhaoxu. “Liu Xiaobo é um criminoso condenado pelo sistema judicial chinês por ter enfrentado as leis chinesas… Atribuir o prémio Nobel da Paz a uma pessoa assim é totalmente contrário aos princípios desses prémio e constitui uma perversão.”

Pequim insiste que há um Estado de Direito e respeito pelas liberdades, tal como a Constituição garante. O caso de Liu, como de dezenas de outros ativistas, mostra como há uma linha que não se pode ultrapassar.

Em seguida às manifestações de Tiananmen, em 1989 – e apesar de ter defendido um diálogo com o Governo de então – Liu, agora com 54 anos, ficou preso durante 20 meses; depois, passou três anos num campo de reeducação. Esteve também vários meses em prisão domiciliar.

Há dois anos, desempenhou um papel criucial na redação da Carta 08, uma petição assinada inicialmente por mais de 300 pessoas (e depois por alguns milhares através da Internet), entre ativistas, intelectuais e artistas, pedindo democracia.

As autoridades não gostaram. Reuniram alguns artigos que Liu escrevera na imprensa e julgaram-no. Os advogados e o arguido tiveram direito a 14 minutos para sustentar a sua defesa, o mesmo tempo que durou a leitura das acusações. Liu Xiaobo e a mulher sabiam o que esperar depois disso. “Estávamos mentalmente preparados para uma condenação longa”, afirmou então Liu Xia.

O veredito anunciado no Natal do ano passado foi previsível: os artigos de Liu Xiaobo “tinham como objetivo subverter a ditadura democrática popular do país e o sistema socialista… Os efeitos foram malignos e ele é um grande criminoso”. O antigo professor de Literatura ouviu pacificamente o juiz condená-lo a 11 anos de prisão. Não pôde responder.

O mais ameaçador

Liu Xiaobo é o tipo de dissidente mais ameaçador para o Partido Comunista, escrevia a “Economist”. “É um veterano das manifestações de Tiananmen que não deu sinais de sucumbir à intimidação partidária… É um crítico literário com um discurso ponderado que criou o tipo de consenso que é difícil conseguir entre os intelectuais chineses.” A Carta 08 usava “um tom razoável que tanto radicais como moderados poderiam subscrever. O debate sobre ‘valores universais’ que ajudou a criar ainda hoje ecoa no partido”.

O próprio Liu sente-se afastado da maior parte dos chineses, que não estão dispostos a questionar o partido enquanto houver oportunidades para enriquecer. “A repressão das autoridades ditatoriais é, supostamente, uma das razões [para não se exigirem mudanças], mas a indiferença da população é uma causa ainda maior”, afirmou.

“Ele pede aos chineses que se ergam”, diz ao PÚBLICO Sharon Hom, diretora da Human Rights in China. “Defende que a escravidão não vem dos que detêm o poder, mas daqueles que se ajoelham. Os chineses precisam exigir responsabilidades ao Governo”.

Esta será uma oportunidade para uma pressão internacional para a libertação, lembrou ontem a sua mulher. Já começou a ouvir-se. Obama saudou a escolha de um homem que “sacrificou a sua liberdade às suas convicções” e lançou: “Apelamos ao Governo chinês que liberte Liu o mais depressa possível”, cita a AFP.

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