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Postado em 07-10-2010
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 07-10-2010 13:37

Ciro: metralhadora em ação

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Convidado para ser um dos coordenadores da campanha da petista Dilma Rousseff à Presidência da República, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) considera uma ‘calhordice’ a mistificação religiosa em torno do debate do aborto. Apesar de ter sido afastado da corrida presidencial por decisão do PSB, a mando do Planalto, Ciro garante não ter guardado ressentimento. ‘Eu sou um dos eleitores que potencialmente poderia ter votado na Marina por tudo que aconteceu. Não votei porque sou militante, meu partido tomou alinhamento’, afirma. Reconheceu ainda que a mudança de seu título de eleitor do Ceará para São Paulo foi o ‘maior erro’ que cometeu na vida.

A Marina Silva surpreendeu ao obter 20 milhões de voto, acabando com eleição plebiscitária desejada pelo presidente Lula. Em sua opinião, de onde vieram esses votos?

A substância desse voto é ideológica, é progressista, é um voto exigente, que vota comigo. Eu disse várias vezes: se eu não for candidato, a Marina vai ficar com os meus votos. Ela ficou com parte importante deles, que é essa classe média, com escolarização alta, que percebe que o PT e o PSDB são iguais nas mazelas. São pessoas que não aceitam a redução da política a esse falso maniqueísmo. Percebem a contradição de um PSDB, que prometeu uma coisa e fez outra. E também que percebem a contradição de um PT que falava pela goela num moralismo exacerbado e agora, de vez em quando, manda uma notícia de um escândalo.

E esse voto vai para onde?

Vai para a Dilma. Não tenho a menor dúvida disso.

Não vai para o Serra?

Parte vai, mas a substância vai para Dilma. Se fosse para o Serra, teria ido no primeiro turno. As pesquisas que vão sair agora vão revelar uns 10 pontos de revanche da Dilma sobre o Serra.

O salto alto na campanha da Dilma atrapalhou sua eleição no primeiro turno?

Não é salto alto. Todos os institutos de pesquisa ficaram dizendo que a Dilma ganhou. E aí a gente faz realmente o quê? Eu digo na parte dos profissionais. O que acontece é o seguinte: toca a bola no meio de campo para não errar. Não responde ao ataque, não reconhece o crescimento da Marina. Não houve erro. Como se faz, se estão com 51% em um instituto, 52% em outro? Eu inovo, eu caio na provocação? Eu respondo aos boatos sujos, imundos, que dominaram a internet?

O senhor está se referindo a questão do aborto?

O pior é trazer para a luta política brasileira um homem como o Serra, qualificado, preparado, experiente, homem de valor, e o PSDB trazer em socorro de sua débâcle eleitoral a calhordice da mistificação religiosa. É grave para o País. O Brasil tem uma tradição que o mundo inteiro admira, que é a tolerância religiosa, é o Estado laico. Aí a imundície está tomando conta, essa coisa do ódio religioso, da intolerância trazida para a política.

A disseminação, principalmente na internet, de que Dilma seria favorável ao aborto atrapalhou a sua eleição em primeiro turno? Não acho. A Dilma falou com muita clareza que não é a favor do aborto. A questão é posta em si em termos calhordas, desonestos. Ninguém é a favor do aborto. Isso é um assunto da intimidade da mulher, da família, de seu conjunto de valores morais, éticos, religiosos e uma ação de saúde. Essa é a única discussão possível. O presidente da República tem zero poder nesse assunto. Só quem pode regulamentar esse assunto é monopolisticamente o Congresso.

Mas o assunto ficou…

A mãe da liberdade de imprensa é o Estado republicano laico. Os aiatolás, os talibãs e os seus afins não permitem a liberdade de imprensa, não permitem que as mulheres tenham liberdade. É isso que estamos querendo trazer para o Brasil? É violar essa conquista centenária do povo brasileiro, por oportunismo? Por que o PSDB, que nasceu para ajudar a modernidade do País, resolveu agora advogar o Estado teocrático? O Serra tem de dizer que, na República que ele advoga, primeiro falam os aiatolás, e aí os políticos resolvem o que os aiatolás querem que seja feito.

O senhor acha que o fato de o Lula ter feito criticas à imprensa influenciou negativamente na eleição de Dilma?

Aquilo foi gol contra. A imprensa como entidade é tão essencial à democracia como o ar que a gente respira. Isso não quer dizer que você não possa fazer um debate com o mérito deste ou daquele editorial. Eu, por exemplo, tenho grandes problemas com facções da imprensa conservadora brasileira. Mas amo e protejo os seus direitos. Quando o Getúlio Vargas se suicidou havia contra ele uma campanha violentíssima na grande mídia. Mas ele preferiu se matar do que atentar contra a liberdade da imprensa.

Mas por que o Lula tem esse tipo de comportamento de sempre querer cercear a imprensa?

O Lula nasceu e cresceu mal acostumado com as redações todas favoráveis a ele. E assume a Presidência e meio que replica as práticas conservadoras de manter esse imenso volume de dinheiro público financiando a grande mídia. Creio que ele esperava uma certa reciprocidade. Já devia ter aprendido que isso não vai existir jamais. Eu distingo uma linha editorial do Estado, que é um jornal sério, conservador, que tem seu lado, que tem seus valores. Eu respeito isso mais profundamente do que dois terços dos meus aliados. Respeito o jornal, a posição, a opinião, como respeito Aloysio Nunes Ferreira. Viva São Paulo, que elegeu Aloysio Nunes Ferreira.

Foi melhor do que eleger o Netinho?

Não vou dizer de quem ele é melhor. Vou dizer: viva São Paulo que elegeu Aloysio Nunes Ferreira. É um cara da política, de a gente discutir posições, um cara que tem uma linha. Dou muito mais valor ao Aloysio Nunes Ferreira do que dois terços dos meus aliados de hoje.

Que aliados? O PMDB?

Você que está falando.

O senhor é um dos coordenadores da campanha. O que deve mudar na propaganda eleitoral?

O programa eleitoral tem necessariamente de mudar porque agora ele terá uma dinâmica bipolar, todos os dias e dez minutos iguais. Você tem de politizar muito mais. Agora sim é um plebiscito. Temos de mostrar que há um projeto, que pegou o desemprego em 15% e está com 8%, que pegou a inflação em 24% e está em 5%. É um projeto que pegou o salário mínimo em US$ 76 e agora está quase US$ 300. Então é projeto contra a tentativa de volta daquele outro projeto. O único brasileiro que tem saudade do Fernando Henrique é o Serra.

Pouco antes de sua candidatura pelo PSB ser abortada, o sr. foi irônico e se referiu ao presidente Lula como o ‘santo Lula’.

Minha frase inteira é a seguinte: o Lula é um extraordinário líder político, mas não é um santo. Muitas vezes, acho que os bajuladores do Lula o tratam não como se ele fosse um extraordinário líder político, mas um santo a quem não deve se dar uma opinião negativa. Eu sou leal, parceiro, amigo do Lula há mil anos. Disso ninguém duvida. Agora, a forma de ser leal e amigo não é ficar bajulando, dizendo que está tudo maravilhoso. É dizer o que você pensa com franqueza. Ainda que você também possa estar errado. Quantas vezes eu já não errei?

O senhor ficou magoado com o fato de ter barrada sua candidatura à Presidência?

Mágoa não é a palavra. Fiquei triste para valer porque achei uma violência. Eu poderia ter votado na Marina por simpatia pessoal. Eu sou um dos eleitores que potencialmente poderia ter votado na Marina por tudo que aconteceu. Não votei porque sou militante, filiado a um partido, meu partido tomou alinhamento. Eu acho que o Serra é o atraso. Acho que essa aliança do PT com tudo que tem aí é uma contradição, tem muito problema, tem fadiga de material. Eu hospedaria o meu voto com muita tranquilidade no primeiro turno na Marina certo de que ela não ganharia. Ato contínuo eu votaria na Dilma, sem dúvida. Eu seria esse típico eleitor. As pessoas vão pensar um pouco.

QUEM É

Formado em Direito, filiou-se ao PDS em 1980. Em 1982 foi eleito deputado estadual. No ano seguinte foi para o PMDB e se reelegeu. Em 1988 migrou para o PSDB. Foi eleito prefeito de Fortaleza e depois governador do Ceará. Em 1996 filiou-se ao PPS para concorrer à Presidência da República em 1998. Em 2003 deixou o partido e migrou para o PSB e foi convidado por Lula para assumir o Ministério da Integração Nacional

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 7 outubro, 2010 at 15:51 #

Uma constatação:

Ciro é melhor “articulista” que político.

Uma pergunta:

Onde estão as mulheres?

Abortar, este verbo tão controvertido nas campanhas, é por definição exclusivo do gênero feminino.

Cabe a elas, e a mais ninguém, a decisão sobre sua conjugação, ou vedação.

Aqui a evidência, embora ungidas e referenciadas, notadamente pela imprensa, as tais lideranças femininas, comportam-se como membros do gênero masculino, olham de longe, não arriscam envolvimentos seja a favor, seja contra, como se o verbo não lhes dissesse respeito.

Por outro lado, senhores, mormente titulares de colunas mais ou menos prestigiadas na imprensa, gastam laudas e laudas, a favor, ou contra, envolvendo nessa discussão alhos fantasiados de bugalhos, e misturando, por exemplo, economia, com consciência feminina.

É triste, é a repetição histórica da submissão de um gênero a outro, como se pecado original fosse o ato de pensar e decidir. Especialmente quando o sujeito deste peculiar verbo,(afinal “sujeita” não é de boa escrita, informam os dicionários que é sinônimo de mulher de má fama) é obrigatoriamente a mulher.

Onde andam as representantes do feminino?

Até quando Ivans, mesmo sendo Carvalhos como ocorre no jornal Tribuna da Bahia, irão falar por elas em resenhas diárias?

O que Ciro, e seu passado de frasista desastrado pode contribuir para o caso?

Trsite é verificar que “abortamos” a possibilidade de expressão das legítimas interessadas na adoção desta ou daquela política quanto ao aborto tão em pauta.

Vamos adotar a visão medieval de que elas, as mulheres, não sabem e não podem pensar sobre seu destino?

Onde estão as mulheres?


luiz alfredo motta fontana on 7 outubro, 2010 at 17:02 #

Retomando a pergunta:

Serão todas “Fátimas Bernardes”, lendo textos assépticos sobre um tal de Brasil, lá longe?

Onde andam as mulheres?


Olivia on 7 outubro, 2010 at 17:12 #

Estão aqui, de pé e estarrecidas com esta campanha sórdida e hipócrita. Acho que a Dona Ruth Cardoso, se viva estivesse, estaria do lado contrário de seus companheiros nesta questão, ela tinha caráter e opinião própria, inclusive sobre o aborto. Segurem os cintos e o estômago, a campanha está apenas começando.


luiz alfredo motta fontana on 7 outubro, 2010 at 17:27 #

Cara Olivia

Que bom

Que ecoem as razões

Que invadam os espaços em defesa desta ou daquela posição

Que cessem palpites

Que se calem os palpiteiros

Mesmo que encastelados em vetustas redações

Mesmo que eventualmente togados

De branco

Ou hábitos

O que importa é a opinião das mulheres

Representadas ou não

Está discussão é feminina

“Sujeitas” (leia-se: feminino de sujeito, e não o machista sibnônimo de mulher de má fama) e destinatárias do resultado

Ciros, Ivans, além de “marqueteiros” em geral, fariam melhor se apenas ouvissem


Mariana Soares on 7 outubro, 2010 at 17:48 #

Caro Poeta, uma vez convidada a falar, como mulher que sou e, modéstia à parte, dona da minha vontade e bastante decidida, venho contribuir, com a minha opinião, é claro, para este debate.
Sou a favor do aborto, sim, sem dúvida, não só porque o corpo que abriga um feto é nosso, das mulheres, digo, mas, principalmente, porque acho que um ser humano só deve vir ao mundo se desejado e em condições de viver, e não somente de sobreviver, emocional e economicamente.
Sou romântica, sim, mas não ao ponto de achar que colocar vidas no mundo é o desejo e o papel das mulheres, indiscriminadamente.
Ser mãe deve ser uma decisão muito bem pensada , e não apenas um sonho cor de rosa, porque filhos não são bonequinhos que a gente arruma e passeia no shopinhg e nos parques com eles, mostrando-os aos parentes e amigos nos almoços de domingos e nas festinhas dos amigos.
Filhos precisam de amor, orientação, casa, comida, escola e muita, muita paciêcia para entendê-los em todas as fases da vida, pois eles são para sempre.
Esta discussão em campanha eleitoral é totalmente descabida e só esta na mesa por falta de coragem dos candidatos de enfrentar os assuntos que efetivamente precisam ser discutidos em um país como o nosso.
Abaixo a hipocrisia!


luiz alfredo motta fontana on 7 outubro, 2010 at 18:06 #

Cara Mariana

Meu apelo não foi em vão

Essa a discussão necessária

Essa a postura esperada

Mulheres discutindo e descobrindo seus caminhos

O resto é sandice e palpite infeliz

Buscam nas indecisões e no acanhamento, manter o domínio medieval, não importando aqui qual a tendência, sempre estarão dispostos a fingir que são generosos, desde que, as idéias, sejam deles.

Ou, em eleições, a desavergonhada tentativa de amealhar aqui ou acolá um votinho a mais.

Benvinda

Até pela simples razão que já falei muito sobre algo que decididamente não é de meu arbítrio.


Carlos Volney on 7 outubro, 2010 at 18:13 #

Bela, a discussão e alto o nível do debate. Parabéns a Mariana pela belíssima, clara, concisa e definitiva dissertação acerca de um tema que se presta a tanto oportunismo e hipocrisia.


Regina on 7 outubro, 2010 at 18:25 #

O debate sobre o aborto é velho, complicado, cheio de enigmas, tabus, crenças, inconstâncias. Refere-nos a controvérsia em derredor da moral e da legalidade. Os dois lados do debate “O Direito a Escolha”, defendendo o direito, desde o ponto de vista político e ético, da mulher reter o controle sobre sua fertilidade e a escolha entre continuar ou terminar uma gravidez. Por outro lado o movimento “O Direito a Vida” que geralmente argumenta em torno dos “direitos do feto”. Ambos lados usam o termo “Direito” (“Direito da mulher sobre a reprodução”, “Direito a vida do embrião por nascer”).
Na política, o processo pelo qual decisões (leis) são feitas através do governo, “Direitos” são as proteções e privilegios legalmente atribuidos aos cidadãos pelo governo. Numa Democracia, alguns desses direitos são considerados naturais, não concedidos ou retirados por sistemas governamentais. Com relação a regulamentação do aborto, o debate político estaca no direito a privacidade e quando e como o governo pode regular esse ato.
Como o aborto é uma intervenção no nosso corpo, já sabem que aqui fala uma mulher, e a decisão ultimamente é nossa, nós temos que estar bem informadas e preparadas para lutar por nossos direitos que conscientemente serão exercidos.
Acho importante e necessário o debate!

Regina Soares


luiz alfredo motta fontana on 7 outubro, 2010 at 18:33 #

Cara Regina

Tua presença sempre enriquece o debate

Além do mais, neste em especial, as legítimas debatedoras são as mulheres, os “pensares’, os “argumentares” dos que vivem na periferia do “corpo”! feminino, pode até servir de subsídios, mas não substituem a titularidade.

Não nesta seara tão exclusivista.

Aos de toga, papiros, hábitos de todos os naipes, cabe, observar, respeitar e aprender.


Regina on 7 outubro, 2010 at 18:44 #

Até certo ponto concordo com vc, presado poeta. Mas…
O homem é parte importante e integrante desse processo, já que o feto é, até agora, resultado de uma união de ambos sexos e portanto o destino do feto deve ser de responsabilidade de ambos.


luiz alfredo motta fontana on 7 outubro, 2010 at 18:53 #

Cara Regina

Concorde até o ponto em que o tradiconal condutor de filosofias, praxis, utopias e destinos em geral, fique restrito ao papel de colaborador, não condutor, e muito menos juiz.


Regina on 7 outubro, 2010 at 19:24 #

A nós, mulheres, nos foi dado o “privilegio” de carregar o feto, sabe-se la por que, eu acho que o homem deveria ter a mesma condição (não riam!!!). Com a evolução da ciência, podem até subtrai-lo na hora do encontro espermatozóides-óvulo e algumas mulheres assumirem sozinhas a produção, mas o resultado desse encontro requer os dois componentes masculino/feminino.
Porem, em si tratando de aborto, a razão pela qual chegamos a ele é diversa e pode ir desde a falta de conhecimento até brutal ato de violência, deixando a mulher com a unilateral escolha ou o governo com a decisão em caso de incompetência.


Regina on 7 outubro, 2010 at 19:35 #

Fontana, desculpe o prezado com S…


luiz alfredo motta fontana on 7 outubro, 2010 at 19:36 #

Não esqueça qie para o gênero masculino, homens e seguidoras inconscientes, gravidez é, e sempre será, conceitualmente uma “abstração”, escrevem, falam, perscrutam, filosofam a respeito, eventualmente elaboram versos e poemas, mas… não podem superar aos limites da simples abstração, o que em caso de detentores de poder, seja lá de que natureza, é tradução de, no mínimo, prepotência.


Regina on 7 outubro, 2010 at 20:49 #

Esclarecendo minha posição: Sou a favor da legalização do aborto para proteger a mulher no seu livre arbítrio com relação ao seu corpo e sua vida. Da legalização, vem a regulamentação e condições médicas favoráveis e acessível a todas as camadas sociais. Qualquer candidato que se exclua de um pronunciamento sincero e legitimo, sobre o assunto, não merece nossa confiança. Outros direitos, como o direito dos homossexuais a contrair matrimônio, virão, se ainda não está na mesa. Hora de crescer Brasil!!!!


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