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Postado em 02-10-2010
Arquivado em (Newsletter) por vitor em 02-10-2010 13:49

Ilha de Maré: paisagem esconde miséria

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Com o título “No Brasil tem uma mão que dá e outra que tira, o jornal português Diário de Notícias publica em sua edição deste sábado, véspera de eleição presidencial e para o governo do Estado, reportagem especial sobre o Brasil e o Nordeste produzida em Ilha de Maré, uma das áreas mais carentes da região metropolitana de Salvador. Bahia em Pauta reproduz (VHS)
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por RICARDO J. RODRIGUES, enviado ao Brasil

Na Ilha de Maré (região metropolitana de Salvador) moram nove mil pessoas. Oito mil vivem da Bolsa Família. Sem saneamento, sem centro de saúde, sem polícia.

“Me ajuda, Messias.” Báu chama o colega para puxar as redes do Rainha das Águas, uma balsa de quatro metros com motor a gasóleo. Há três ou quatro dias que o mar não dá nada, nem para o consumo de casa os homens pescam. Báu, nome de batismo António Jorge de Sousa, avisa logo: “Vem leve.” E quando içam a rede confirma-se o pior – uma cavala e dois badejos pequenos, prontamente devolvidos ao Atlântico. Os homens abanam a cabeça e permanecem calados, olhos postos no monstro.

O monstro está do outro lado do canal. São duas chaminés encostadas ao mar do Nordeste, mesmo em frente à Ilha de Maré, uma reserva marinha a norte de Salvador, na Baía de Todos os Santos. Desde que a refinaria do Acarajú começou a operar em plena força, há meia dúzia de anos, nove mil ilhéus passaram a afogar-se todos os dias em terra.
A poluição e o tráfego marítimo assustaram os peixes, um derrame de petróleo em Abril do ano passado fê-los fugir para outras águas. “A vida aqui já não era fácil. Agora piorou”, atesta Messias do Nascimento.

A Maré é uma das comunidades mais pobres do Nordeste, por sua vez a região mais pobre do Brasil. No entanto, quando se larga de barco de São Tomé de Paripe, no continente, e se ensaia a aproximação à ilha, não se adivinha nada menos que o paraíso: palmeiras por toda a parte, areal cândido, água transparente. A ilusão quebra-se depois: aqui também há um inferno. Saneamento não tem, polícia não há e médico só vem às quartas-feiras. Quando vem.

O isolamento da Maré é tremendo, pela geografia e pela falta de infraestruturas. Para pescadores como Báu, que nasceram e cresceram aqui, a questão não precisava de ser um drama, desde que o mar fosse dando qualquer coisa. “Tenho um filho de dois meses, ele e a minha mulher têm de viver lá no continente. Não ganho para todos, ela precisa de trabalhar, senão como é que a gente vai fazer?” Emprego na ilha não há? “Nada.”

Messias está farto. Passou quatro anos a trabalhar nas obras em Salvador para investir num barco. “Eu não bebia, não procurava mulher, comia barato e só saía no Carnaval. Juntei tudinho o que eu pude porque queria viver na minha ilha, viver do mar.” As dívidas acumularam-se, não tarda nada vai ter de vender a Rainha das Águas.

O que diz Joana Lima, que é assistente social e se instalou há seis meses na ilha? “Me mandaram trabalhar com as famílias que estão em situação de vulnerabilidade”, diz, “o problema é que todo mundo na Ilha de Maré está em situação de vulnerabilidade”. A tarefa revelou-se gigantesca, Joana é responsável pela integração social dos que recebem a Bolsa Família e as regras do rendimento mínimo criado pelo governo Lula são claras: primeira, é preciso matar a fome, depois há que compor a vida. “Promovemos cursos para quem não está trabalhando, orientação profissional para adolescentes, tomamos conta das crianças quando as mães não podem. Mas tem oito mil habitantes auferindo do programa, numa população de nove mil. Como é que a gente faz?”

O suspiro de José Esteves é profundo, preocupado. Pescador decano, não se conforma com um mar seco. “Quase a totalidade da população da ilha vivia do peixe e do marisco. Agora vive tudo da Bolsa Família. Isso é que é progresso? O Brasil tem uma mão que dá e outra que tira.”

Nem todos concordam com ele. Para muita gente, o rendimento mínimo criado nos governos Lula é a única tábua de salvação contra o desespero. Olha a Ieda Rufino, que tem um marido sem trabalho e dois filhos para criar. “Deram 90 reais por mês para a gente, aí eu pude botar os meus filhos na banca. É isso mesmo, estou apostando: eles agora podem ir na escola e um dia vão salvar a gente. Antes não podiam, não tinha jeito de eu pagar a merenda deles todo o santo dia.”

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Comentários

maria brandão on 26 Maio, 2013 at 16:03 #

Gostaria que fizese uma ponte na praia das neves


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