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Postado em 29-09-2010
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 29-09-2010 09:48

Vale tudo na campanha brasileira/img.DN

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O Diário de Notícias, um dos jornais mais antigos e de maior circulação de Portugal (em cujas páginas já escreveu o poeta Fernando Pessoa) publica em sua edição desta quarta-feira ampla reportagem mostrando que vale tudo nesta arrancada da última semana de campanha antes da votação em primeiro turno, domingo, 3 de outubro. Coligações entre candidatos rivais, militantes de esquerda fazendo campanha pela direita, líderes religiosos que anunciam o apocalipse, à porta de um centro de recenseamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, resume o DN na apresentação do texto do repórter Ricardo J. Rodrigues.

O quadro não é muito diferente para quem circula pelo centro ou bairros mais populosos de Salvador ou de Belém do Pará, a qualquer hora do dia. Só faltam mais interesse e atenção de nossos jornais e dos que pautam seus noticiários para sair da roda dos repetitivos discursos e frases feitas dos políticos e candidatos nos restaurantes mais chiques da cidade e produzir matérias jornalísticas tão oportunas e atraentes quanto esta do DN, de Lisboa, que Bahia em Pauta reproduz.
(Vitor Hugo Soares, editor do BP)

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“Salve, irmão, que eu vim te trazer a voz da verdade.” Um homem sozinho, agarrado a um megafone, na Rua Miguel Lopes, zona sul do Rio de Janeiro: “Sou Carlinhos, um homem de Deus, e comigo na Assembleia Estadual a casa vai ter um deputado iluminado por Cristo.” O povo passa, nem olha. “O nosso Brasil está podre. Está condenado. Eu sou a luz e a salvação desse país no Rio. Vota em mim, vota Carlinhos para deputado estadual.” Trás e frente, frente e trás. Ainda ninguém presta atenção. Calma. “Salve, irmão, Aleluia!” E então o candidato coloca-se junto a um semáforo, diante de uma fila de 20 pessoas, que querem renovar a carteira eleitoral. “Venha conhecer o caminho da verdade.” Dali ninguém sai, Carlinhos finalmente encontrou plateia. “Os milagres acontecem. Vote em mim.”
Não é preciso ir mais longe do que à porta de um centro de recenseamento para perceber como a campanha para as eleições brasileiras ferve. Aqui, em Copacabana, o horário é das 11.00 às 16.00, mas tem gente à porta a partir das 08.00. A maioria são pessoas que perderam o título de eleitor. É que, no Brasil, o voto é obrigatório. No domingo vão decorrer cinco eleições: duas locais (deputado federal e governador do estado) e três nacionais (deputado federal, senador e presidente).
Daniel Allende é o primeiro da fila. “Se eu não votar, não posso concorrer a concurso público e quero me candidatar para uma bolsa de estudos na Europa. Não tem como fugir.” Daniel é um tipo de esquerda mas, para governador, vira à direita. “Voto na Dilma para presidente, no Lindebergh para o Senado, os dois são do PT [Partido dos Trabalhadores]. Nos deputados escolhi o Valentim e o Pipoqueiro, do PC do B [Partido Comunista do Brasil]. Governador fica o mesmo, o Sérgio Cabral.” Que é do PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira], partido de José Serra, principal de Dilma à presidência.
A verdade é que todos estes candidatos fizeram alianças e apelaram ao voto uns nos outros. “O Brasil elege pessoas, não vota em partidos”, diz André Teixeira, jornalista do Globo. “É uma baita confusão. Há caras da extrema-esquerda que apoiam os de direita, há o Cabral apoiando a Dilma, tudo o que você possa imaginar.” Para facilitar a comunicação, as máquinas de campanha distribuem “colas”, papéis A7 com as caras dos candidatos, onde no verso estão escritas as “chapas” – códigos numéricos de cada candidato e daqueles que apoiam. O voto é eletrónico, todas as combinações são possíveis. A única coisa que não se pode fazer é votar nulo.
Carlinhos, um homem de Deus, tem agora companhia. Chegaram três marqueteiros, dois carregam bandeiras de Serra, uma passeia de patins com um cartaz preso às costas. É do Gabeira, o candidato dos Verdes a governador do Rio. No Brasil está proibido o marketing eleitoral estático, não se podem afixar cartazes. Por isso Cléber, Pedro e Rosseane não podem parar de agitar as bandeiras. A ironia maior é que os três vão votar Dilma. “Olha, a gente ganha 50 reais [21,60 euros] por dia para fazer isso”, explica Rosseane. Entretanto o relógio bateu as 11.00, o centro de recenseamento abriu portas e Carlinhos está perdendo a plateia. “Aleluia, irmão!”

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