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Postado em 11-09-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 11-09-2010 01:17

Jatene e Ana Julia: o Pará ferve

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ARTIGO DA SEMANA

DOIS BRASIS E FHC DE QUEBRA

Vitor Hugo Soares

Na quarta-feira da semana passada, convidado para um evento familiar a que não podia faltar, peguei um avião de manhã no aeroporto de Salvador e rumei para o Norte, com destino ao Pará. Deixava para trás, por uma semana, a morna campanha sucessória que pelo andar das pesquisas e salvo improvável surpresa de última hora, caminha para dar em overdose de petismo na Bahia.

Na disputa dos votos do quarto maior colégio eleitoral do País, Dilma Rousseff surfa a largas braçadas rumo à presidência na “onda Lula”, mais impressionante ainda na região Nordeste. Jaques Wagner, embora sem o mesmo vigor, aparenta também nadar sem maiores sustos de morrer na praia – como o adversário Paulo Souto (DEM) no pleito passado – embora a possibilidade deva ser levada em conta até mesmo por este precedente recente. A probabilidade maior, no entanto, é de mais uma temporada do quatro anos do “galego” (como se refere o presidente ao governador) no Palácio de Ondina.

Começo quase sem perceber uma viagem por dois brasis diferentes nas paisagens, nos sabores e, principalmente, no jeito de encarar este em geral modorrento confronto de poder em 2010, que entra na reta final. No meio da tarde desço em Brasília, um país à parte desde o aeroporto. Logo se vê que a máxima que mais importa por lá é a da canção do saudoso piauiense Torquato Neto: “Só me interessa o que pode dar certo”. No caso, descobrir com o máximo de antecedência possível quem será o vencedor. A quem dirigir os memorandos dos pleitos futuros. Com quem negociar interesses a partir de janeiro de 2011. O resto, seja quem for o vencedor, é miudeza que se acerta com o tempo. Dilma ou Serra dá no mesmo no Planalto para essa gente.

Troco de avião para sobrevoar a floresta amazônica: imensa, verdejante, caudalosa como a poesia de Thiago de Melo ou do chileno Pablo Neruda. Aqui e ali os blocos de fumaça das queimadas na mata se projetam no espaço que observo pesaroso da janela da aeronave. “Até quando?”, pergunto intimamente. Sem resposta, no final do dia, desembarco na escaldante e hospitaleira Belém da Fafá, que ferve como no tempo das Diretas Já. Duplamente: pelo forte calor que normalmente faz na região e pela encarniçada batalha eleitoral na qual se defrontam PT e PSDB pelo governo estadual. Neste caso, diferentemente da Bahia, com larga vantagem para os tucanos.

Tanto pelo que apontam os números das pesquisas mais recentes, como pelo que o visitante vê e ouve em todo canto: ruas, taxis, bares, esquinas. Também nos ambientes mais sóbrios e fechados, como na cerimônia de casamento a que fui convidado, realizada na basílica de Nossa Senhora de Nazaré, da famosa e multitudinária procissão do Círio. O interesse e a participação vão do histórico formigueiro humano do mercado Ver-o-Peso aos recantos mais recomendados pelas elites locais, como o belíssimo Mangal das Garças.

No Pará se vê um outro Brasil. Uma campanha política como nos melhores tempos das grandes e ferrenhas eleições estaduais. Coisa de dar gosto ver.

“Vamos tirar o Pará dos vermelhos”, convoca o locutor, brandindo um dos mais contundentes e bem bolados slogans do candidato Simão Jatene, do PSDB, líder disparado nas pesquisas, que chuta no calcanhar de Aquiles da governadora petista Ana Julia Carepa. A menos de um mês do pleito, a “vermelha” a que se refere o slogan tucano, está encostada nas cordas à espera de uma “visita salvadora”, de Lula e Dilma, para “virar o jogo”.

O grito contra o petismo parte de um vistoso carro de som com potência de decibéis de dar inveja aos trios elétricos de Ivete Sangalo, Timbalada de Carlinhos Brown ou de Daniela Mercury no carnaval baiano. Está parado na frente do imenso centro de exposições de Belém, por onde circulam milhares de pessoas de todas as idades na concorrida Feira Anual de Livro do Pará. É domingo, último dia do evento, e o locutor anuncia a pesquisa recém-saída do forno de um dos principais institutos do país, que o jornal O Liberal publicaria no dia seguinte. Muita gente que sai da feira parece gostar do que ouve, e até se diverte com o esforço do acanhado carro de som ao lado, de um candidato a deputado que faz campanha pela reeleição de Ana Júlia.

“Essa mulher não fez nada nesses quatro anos, a não ser os viadutos novos no caminho do aeroporto, que é obra da PAC, com dinheiro federal”, comenta o taxista no caminho de volta para o hotel. “Tudo de bom que o senhor viu em Belém foi Jatene que fez”, completa, desnudando a preferência e o voto.

Retorno à Bahia na quarta-feira, com nova escala em Brasília. Tempo curto de parada, mas o suficiente para Margarida, jornalista atenta que viaja comigo adquirir a revista Isto É desta semana, que traz a contundente e digna entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornalista Yan Boechat. Goste ou não de FHC, é preciso tirar o chapeu e reconhecer: a entrevista na revista semanal o coloca em lugar de destaque entre aquele que Ulysses Guimarães definia em seu famoso decálogo do “verdadeiros estadistas”.

Alijado da campanha tucana, “que prefere usar a imagem de Lula à dele, FHC deixa claro que está insatisfeito e ataca os marqueteiros de Serra”, enquanto arruma as malas para uma viagem para fora do país, “por motivos particulares”. Anda magoado porque considera que o País mudou em seu governo “e agora o Serra faz uma campanha escondendo que quem mudou o país fomos nós”. Mas quanta verdade e sutilidade nas queixa sobre a campanha tucana. “Eu não quero colocar toda responsabilidade nele (Serra). É todo mundo. É preciso mais tenacidade, motivação. Serra é professor, sabe falar de maneira clara. Há mil modos de se comunicar com o povo”. Qual a receita? “Não há, mas nesse tipo de situação, a meu ver, você tem que convencer, ser espontâneo, fazer graça e ser contundente também. Tem que misturar tudo isso e mostrar que tem garra”, ensina.
FHC deixa o recado final para Serra, antes de embarcar para a Alemanha: “Não há uma onda petista. Há uma onda lulista. Em governo de Estado o PT não está crescendo em nenhum lugar. Acho que nesse momento entra a vontade. Ou entra com vontade ou não faz nada”.

Na mosca, FHC. O Pará que o diga.

Vitor Hugo Soares é jornalista- E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Mariana Soares on 11 setembro, 2010 at 13:59 #

Belo artigo, meu irmão! Você consegue fazer poesia, sem se afastar da realidade, mesmo quando esta não se mostra tão poética, tendo, inclusive, FHC como personagem.
Só não concordo com a sua análise a respeito de Brasília, creio que precipitada e de quem só a conhece do aeroporto e do Jornal Nacional. Esta cidade, embora povoada e mais conhecida pelos horrores da política suja que se pratica nos porões do Congresso Nacional, tem muita coisa boa e, principalmente, muita gente boa lutando e querendo fazer um Brasil melhor, o que, infelizmente, não é mostrada na mídia, pois este tipo de notícia não rende ibope. Volto a me socorrer do meu poeta maior, Chico Buarque:”…a dor da gente não sai no jornal”.
Espero você aqui, com mais tempo, para lhe mostrar uma Brasilia que não se mostra no jornal.


Marcelio Leal on 11 setembro, 2010 at 15:14 #

É meu caro. O Pará é diferente por um governo horrível que foi feito aqui, com algumas exceções em alguns pontos como o digital, o resto foi horrível.
No mais o Pará vem em uma descendente impressionante, não importando o governo que entre.

A Amazônia é vista como uma floresta apenas, e é isso que literalmente mata os verdadeiros moradores daqui, enquanto não investirem de fato na nossa região a floresta vai se acabando, pois o povo precisa sobreviver.

Eu sou tecnologia, mas vários outros setores tem os mesmos problemas, qualquer um que quer fazer um desenvolvimento sustentável ou não aqui é muito guerreiro.

Um abraço


Marco Lino on 11 setembro, 2010 at 18:19 #

Que Vitor Hugo é um sujeito generoso, ninguém duvida. Até com FHC.

FHC desdiz o que disse. Há uma ou duas semanas foi signatário do “Brasil a caminho do México”.

Agora diz: não é petismo (tb acho), é lulismo. O PT não está crescendo…

Bom, se o problema é Lula, e ele está de saída… Então não há motivo para preocupação, certo? Errado!

Estamos numa guerra pela ocupação do Estado, e não é somente petista que gosta de estatal e de Brasília.

Tucano gosta de estatal?! Depende… Aí a contradição parece nossa, não?

Mas, voltando ao FHC, parece que a hidra pintada não é bem aquela hidra mitológica, imortal… Talvez um dragãozinho vermelho, daqueles que a “veja” gosta de pintar.

Sobre Serra, diz: você tem que convencer, ser espontâneo, fazer graça e ser contundente também.

Ou seja, não basta usar o “Zé” e fazer favela cenográfica, tem que ser o Lula… Ou o Aécio…

Ofereceram (FHC tb) ao Brasil o que de pior havia no PSDB. Caixão e vela!

FHC reclamou tb das reformas do seu período. Justo. Entretanto, o messias indeciso não se preocupou com discurso. Tinha, desde o ano passado, um coelho na cartola: sigilo violado… Aliás, esse papo de “violação” tem muito a ver com moralismo de puritano que viola o alheio e, quando tem violação na “família”, fica bravo e chama o delegado.

Tem mais algum coelho aí, estadista?


Janio on 11 setembro, 2010 at 19:42 #

Vitor, meu querido anjo torto, espero que você e Margarida tenham aprendido com a sinhá pureza a dançar um verdadeiro carimbó. Um carimbó que remexe, mexe, um
carimbó da minha vovó.


Carmem on 11 setembro, 2010 at 20:32 #

Belo artigo, Vitor sempre lúcido, sem paixões baratas desta politica vil.
Hoje também é dia de lembrar o Chile, não somente os EUA (toda mídia), lembrar Allende, deposto em 11 de setembro de 1973.


Carmem on 11 setembro, 2010 at 21:09 #

11 de setembro de 1973 Morte/Assassinato de Salvador Allende, na mídia, nem um piu..só rola Torres Gemeas.


luiz alfredo motta fontana on 12 setembro, 2010 at 3:18 #

Caro VHS

O Pará é exemplo do triunfo da semântica.

Vejamos:

A governadora é Carepa.

Socorre-nos o Aulete:

 “1 O mesmo que caspa.
  2 Pó que se forma na casca das frutas secas.
  3 Lanugem de certos frutos.
  4 A superfície de madeira quando mal aplainada.
  5 Lasquinhas que saltam do ferro em brasa batido na bigorna.
  6 Fuligem que se acumula no interior dos cilindros dos motores de explosão.
  7 Lus. Pop. O mesmo que escabiose.”

Píor que isso, é na expressão popular que encontramnos o verdadeiro significado:

“Levada da carepa = levada da breca”

Vva Saussere, dispensa-se cientistas políticos, é com a ajuda da linguística, e não sob a ótica, por vezes viciada, da política partidária que o caso Pará responde ao seu desiderato.

Aliás, o desiderato de Carepa é tema para mestrado em sociologia psicossocial, do tipo: “mobilidade social sob tensões viscerais”

Nem mesmo sob o olhar blasée de FHC, “o gongórico entediado”, poder-se-ia restringir, o fenômeno Carepa, ao mero descuído político-partidário.


luiz alfredo motta fontana on 12 setembro, 2010 at 7:49 #

O charme do dandy tupíniquim.

FHC é assim, transformou o inconformismo de jovens sociólogos em oportunida, assim nasceu sua ligação com a Fundação Ford (CIA).

Vislumbrou na aproximação com Enzo Paletto e na fragilidade da crítica, a “invenção” de um best Seller, nasciua assim “Dependência e desenvolvimento na América Latina “.

Todos leram e de pronto, inevitável consequência, esqueceram

Aprendeu, desconfia-se, como aluno dedicado dos tempos de CEPAJ, Fundação Ford, e CIA, a arte de manipular, não às massas, por quem dedica aprente “outrage”, mas à afável mídia.

Mesmo assim, reconheça-se, ao compilar citações e alivanhar expressões de puro tédio, FHC ainda aparenta ser “mestre” em alguma arte de algum século passado.

De resto, extenou seu preconceito ao admitir, em modesta declaração, “ter o pé na cozinha”.

Incrível, a tal mídia, e os movimentos negros, perdoaram.

Aliás, em questões de cozinha, resta ao dabdy reconhecer o fruto, tal qual fez com afortunado filho de jornalista global.

dizem, os defensores, que ele, o fruto, e a mãe antiga cozinheira dos Cardozos, foram aquionhados com a contratação como servidores do Senado Federal.

Aqui, o de sempre, a “bonté” é financiada com a bolsa da “viúva”.

Para contrapor FHC, só mesmo os eflúvios dionisíacos de Lula, ” o antes nunca visto”.


luiz alfredo motta fontana on 12 setembro, 2010 at 7:53 #

errata

oportunida = oportunidade

nasciua = nascia

CEPAJ = CEPAL

aprente= aparente

extenou = externou

daddy = dandy


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