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Postado em 05-09-2010
Arquivado em (Crônica, Janio) por vitor em 05-09-2010 22:38

CRÔNICA/GOL DE PLACA

NO TEMPO DO ACABOU CHORARE

Janio Ferreira Soares

Em outubro de 2007 a revista Rolling Stone publicou uma relação com os 100 melhores discos brasileiros de todos os tempos, escolhidos numa votação feita por 60 pessoas entre técnicos, estudiosos e jornalistas, que citaram seus 20 álbuns favoritos sem ordem de preferência, cujo destaque foi Acabou Chorare, dos Novos Baianos, o mais votado de todos.

Lançado em 1972 pela Som Livre, esse disco equivale a um daqueles petardos que só os grandes craques sabem dar na bola com o lado de fora do pé, que quando parece que está indo pra fora, muda de rumo, faz uma leve curva e surpreende o goleiro. Como o que Nelinho mandou da lateral da grande área contra a Itália na Copa de 78, ou ainda aquele outro que quase ninguém viu, mas deve ter acontecido durante as intermináveis peladas disputadas pelos meninos nos intervalos das gravações no sítio Recanto do Vovô, no Rio de Janeiro.

Na edição de julho último, a Rolling Stone voltou à carga e conta detalhes deliciosos sobre a gravação desse disco, como o caso dos capacitores de um velho televisor que foram colocados na guitarra Gianinni Supersonic de Pepeu para que ela emitisse uma distorção parecida com a da Fender de Jimmi Hendrix, ou ainda a estreita relação da banda com João Gilberto, cuja filha, Bebel, foi a grande responsável pelo título do disco. (Depois de uma longa temporada entre o México e os Estados Unidos acompanhando o pai, ela, enrolada entre o espanhol e o português, caiu no chão do sítio e, diante da preocupação de João com seu choro, levantou-se e disse: “Não machucou papai, acabou chorare.”)

Nascia ali o nome de um dos grandes discos da música brasileira, numa época em que a competência e a simplicidade dos artistas andavam no mesmo tom, fato, aliás, que acontece até hoje. Um exemplo.

Há pouco tempo eu contratei as bandas 14 Bis e A Cor do Som para um evento aqui em Paulo Afonso, e ao ligar pro escritório dos mineiros fui atendido diretamente por Sérgio Magrão, grande baixista e compositor de sucessos como Caçador de Mim (parceria com Sá – que faz dupla com Guarabyra – e que infelizmente não pôde participar do evento), que imediatamente lembrou que eles haviam tocado aqui há 14 anos, também trazidos por este locutor que vos fala. Turma boa de papo e copo, antes do show traçamos um belo pirão de surubim com pimenta, que parece ter sido um excelente combustível para fazer decolar a velha aeronave rock’n roll, que flanou mais afiada do que nunca pela noite estrelada do sertão do São Francisco.

Com a Cor do Som, foi a mesma coisa. Dadi, Gustavo e Mú (acompanhado da esposa), pegaram um avião no Rio, desceram em Salvador, se encontraram com Armandinho e equipe e enfrentaram quase 1.000 km (ida e volta) de estrada, numa boa, muito mais pelo prazer de estarem juntos relembrando casos, amores e canções, do que pelo cachê. Um retorno emocionante.
Exigências? Um bom som e uma boa cama, é claro, para acalentar as dores e os pecados do mundo. Quase nada diante das pratarias e jatinhos exigidos pelas estrelas do axé, que, com raríssimas exceções, pedem muito e não entregam nada além de estridentes acordes correndo atrás de um monte de monossílabos átonos desafinados e desconexos.

A animação dentro da Van que leva os meninos da Cor do Som para o show lembra o de um transporte colegial. No trajeto, Dadi pergunta a Armandinho algo sobre o tom de uma música que ele não recorda, Gustavo amola as baquetas e grunhe qualquer coisa numa língua que parece viking, enquanto eu converso com Mú e sua esposa sobre trufas e cinema mudo, um de seus discos solo.

Na platéia, centenas de velhos e novos baianos aguardam ansiosos, com a alma certamente cheirando a talco, como bumbum de bebê.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA)

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