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Posted on 05-09-2010
Filed Under (Crônica, Janio) by vitor on 05-09-2010

CRÔNICA/GOL DE PLACA

NO TEMPO DO ACABOU CHORARE

Janio Ferreira Soares

Em outubro de 2007 a revista Rolling Stone publicou uma relação com os 100 melhores discos brasileiros de todos os tempos, escolhidos numa votação feita por 60 pessoas entre técnicos, estudiosos e jornalistas, que citaram seus 20 álbuns favoritos sem ordem de preferência, cujo destaque foi Acabou Chorare, dos Novos Baianos, o mais votado de todos.

Lançado em 1972 pela Som Livre, esse disco equivale a um daqueles petardos que só os grandes craques sabem dar na bola com o lado de fora do pé, que quando parece que está indo pra fora, muda de rumo, faz uma leve curva e surpreende o goleiro. Como o que Nelinho mandou da lateral da grande área contra a Itália na Copa de 78, ou ainda aquele outro que quase ninguém viu, mas deve ter acontecido durante as intermináveis peladas disputadas pelos meninos nos intervalos das gravações no sítio Recanto do Vovô, no Rio de Janeiro.

Na edição de julho último, a Rolling Stone voltou à carga e conta detalhes deliciosos sobre a gravação desse disco, como o caso dos capacitores de um velho televisor que foram colocados na guitarra Gianinni Supersonic de Pepeu para que ela emitisse uma distorção parecida com a da Fender de Jimmi Hendrix, ou ainda a estreita relação da banda com João Gilberto, cuja filha, Bebel, foi a grande responsável pelo título do disco. (Depois de uma longa temporada entre o México e os Estados Unidos acompanhando o pai, ela, enrolada entre o espanhol e o português, caiu no chão do sítio e, diante da preocupação de João com seu choro, levantou-se e disse: “Não machucou papai, acabou chorare.”)

Nascia ali o nome de um dos grandes discos da música brasileira, numa época em que a competência e a simplicidade dos artistas andavam no mesmo tom, fato, aliás, que acontece até hoje. Um exemplo.

Há pouco tempo eu contratei as bandas 14 Bis e A Cor do Som para um evento aqui em Paulo Afonso, e ao ligar pro escritório dos mineiros fui atendido diretamente por Sérgio Magrão, grande baixista e compositor de sucessos como Caçador de Mim (parceria com Sá – que faz dupla com Guarabyra – e que infelizmente não pôde participar do evento), que imediatamente lembrou que eles haviam tocado aqui há 14 anos, também trazidos por este locutor que vos fala. Turma boa de papo e copo, antes do show traçamos um belo pirão de surubim com pimenta, que parece ter sido um excelente combustível para fazer decolar a velha aeronave rock’n roll, que flanou mais afiada do que nunca pela noite estrelada do sertão do São Francisco.

Com a Cor do Som, foi a mesma coisa. Dadi, Gustavo e Mú (acompanhado da esposa), pegaram um avião no Rio, desceram em Salvador, se encontraram com Armandinho e equipe e enfrentaram quase 1.000 km (ida e volta) de estrada, numa boa, muito mais pelo prazer de estarem juntos relembrando casos, amores e canções, do que pelo cachê. Um retorno emocionante.
Exigências? Um bom som e uma boa cama, é claro, para acalentar as dores e os pecados do mundo. Quase nada diante das pratarias e jatinhos exigidos pelas estrelas do axé, que, com raríssimas exceções, pedem muito e não entregam nada além de estridentes acordes correndo atrás de um monte de monossílabos átonos desafinados e desconexos.

A animação dentro da Van que leva os meninos da Cor do Som para o show lembra o de um transporte colegial. No trajeto, Dadi pergunta a Armandinho algo sobre o tom de uma música que ele não recorda, Gustavo amola as baquetas e grunhe qualquer coisa numa língua que parece viking, enquanto eu converso com Mú e sua esposa sobre trufas e cinema mudo, um de seus discos solo.

Na platéia, centenas de velhos e novos baianos aguardam ansiosos, com a alma certamente cheirando a talco, como bumbum de bebê.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso (BA)


“Alerta ou queixa, não importa, a obrigação do presidente é mandar verificar o que está ocorrendo com um importante órgão do governo que preside”. Esta é a opinião do jornalista político Ivan de Carvalho no artigo da edicao deste fim de semana na Tribuna da Bahia sobre as denúncias contra a Receita Federal. Bahia em Pauta reproduz o texto. (VHS , de Belem do Pará)

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OPINIÃO POLÍTICA

Desta vez, Lula sabia

Ivan de Carvalho

A Receita Federal quebrou ilegalmente o sigilo fiscal da filha do candidato tucano José Serra e está desmilinguindo sua credibilidade, que já estava abalada por anteriores invasões com motivação política, ao oferecer explicações esfarrapadas e tentar encobrir partes da verdade.
Vale lembrar o Caso dos Aloprados, de 2006, que visava a atingir o próprio José Serra, então candidato a governador de São Paulo e Geraldo Alckmin, candidato também do PSDB a presidente da República, concorrente do petista Luiz Inácio Lula da Silva, que buscava a reeleição.
Vale ainda lembrar que antes de ser amplamente revelada a violação do sigilo fiscal de Verônica, a filha de Serra, quatro outras pessoas ligadas ao candidato por laços familiares ou ao PSDB (inclusive o vice-presidente nacional do partido, Eduardo Jorge, que teve o seu sigilo fiscal violado pela terceira vez) foram vítimas do mesmo crime.
O candidato do PSDB a presidente, já no dia 25 de janeiro deste ano, disse ao presidente Lula – mostrando evidências – que eram fortes as suspeitas de que o sigilo fiscal de sua filha havia sido violado e que dados daí decorrentes estavam sendo divulgados em “blogs patrocinados”. Agora, quando Serra revelou à nação essa sua conversa com o presidente (ocorrida durante uma solenidade de aniversário de São Paulo), Lula confirmou, ressalvando que Serra não o alertou a respeito, mas apenas “se queixou”.
Onde é que está a diferença entre alertar o presidente ou se queixar ao presidente? De qualquer maneira, é o presidente que nomeia o ministro da Fazenda, ao qual está subordinada a Receita Federal, e é o presidente que determina quem comanda ou não a Receita Federal. Alerta ou queixa, não importa, a obrigação do presidente é mandar verificar o que está ocorrendo com um importante órgão do governo que preside e cuidar para que a situação criminosa não se prolongue e para que os culpados sejam responsabilizados.
Lula não fez nada disso.
E agora vem fazer diferenciação semântica entre alertar e se queixar e prever que os adversários políticos de sua candidata a presidente Dilma Rousseff vão “baixar o nível”. Para o presidente, pelo que dá para entender, “baixar o nível” significa protestar de forma barulhenta contra a prática recorrente de um crime com a utilização de um poderoso instrumento do Estado, a Receita Federal.
Dizer que isso é “baixar o nível” é que é baixar o nível.
Enquanto isso, seguindo os trâmites normais, o jornal Folha de S. Paulo quis ter acesso ao processo que resultou na prisão de Dilma Rousseff durante o regime militar vigente de 1964 a 1985. O processo está em um cofre guardado na presidência no Superior Tribunal Militar. Como um pedido administrativo de acesso ao processo foi negado, o jornal impetrou mandado de segurança para obter na Justiça o direito de examinar o processo guardado por decisão do presidente do STM, Carlos Alberto Marques Soares. O plenário do Superior Tribunal Militar terá de julgar o mandado. É estranho que essa providência seja necessária para um órgão de comunicação obter acesso a um processo desse tipo.

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