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Postado em 31-08-2010
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 31-08-2010 11:13

Gilmar: “algo assustador”

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O jornalista político Ivan de Carvalho aborda nesta terça-feira, em sua coluna na Tribuna da Bahia, o tema da quebra criminosa do sigilo fiscal na Receita Federal. Para ele, a mídia na Bahia, tanto a eletrônica quanto a impressa, não deu ao assunto o espaço devido no último fim de semana e ontem.“É algo assustador e lamentável. Sobretudo quando ocorre em uma instituição profissionalizada e profissional como a Receita Federal” , diz Ivan no texto que Bahia em Pauta reproduz.

(VHS)

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OPINIÃO POLÍTICA

Banditismo político

Ivan de Carvalho

Abordo hoje o tema da quebra criminosa do sigilo fiscal na Receita Federal apenas porque a mídia, na Bahia, tanto a eletrônica quanto a impressa, não deu ao assunto o espaço devido no último fim de semana e ontem.

É possível que a movimentação criada com a passagem de Lula e Dilma pela Bahia e suas sequelas, bem como a implosão da Fonte Nova, hajam hipnotizado a mídia e posto sobre seus olhos escamas que a impediram de ver a entrevista do ministro Gilmar Mendes, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal.

Não imagino que a mídia baiana haja adotado a “estratégia” suicida do avestruz, embora uma parte da mídia brasileira já o tenha feito, mas somente uma parte. A parte da mídia brasileira que procede como o avestruz, o faz na defesa de seus interesses imediatos e se enquadraria perfeitamente naquela previsão de Lênin de que os capitalistas venderiam aos comunistas a corda com que estes os enforcariam.

Felizmente, além da parte da mídia que se mantém fiel à vigilância pela liberdade e ao dever de levar a seu público a informação com a dimensão que ela realmente tenha, há pessoas essenciais na conjuntura que resistem à correnteza, que remam contra ela, por entenderem que, remando a favor, só podem ajudar a nação a descer. A correnteza apenas desce, nunca sobe.

No caso da quebra de sigilo fiscal que desencadeou o novo escândalo na Receita Federal, um escândalo que, no entanto, evidentemente não se restringe a esse órgão, dois ministros do STF entraram na bola dividida, arriscando-se para preservar valores maiores do que eles. Talvez Ulysses Guimarães adaptasse a citação de que tanto gostava para “viver não é preciso, resistir é preciso”.

O primeiro dos ministros do STF a entrar no assunto foi Marco Aurélio de Mello, que integra atualmente também o Tribunal Superior Eleitoral. Ele classificou de “péssima” a quebra inconstitucional e criminosa do sigilo fiscal de quatro pessoas ligadas ao candidato a presidente José Serra e ao PSDB, assinalou que “num estado democrático há de se preservar certos valores” e completou afirmando que o valor coberto pelo sigilo é um valor maior. “No campo eleitoral, não há espaço para o golpe baixo”, declarou, observando que “não cabe bisbilhotice”. De acordo com Marco Aurélio, é “sintomático” que a quebra de sigilo tenha ocorrido “durante o período eleitoral”.

Linguagem mais contundente usou o ex-presidente do STF Gilmar Mendes, então já de posse de informações sobre a extensão bem maior das atividades ilegais de quebra de sigilo fiscal. O ministro afirmou que essa atividade é fruto de “banditismo político” e revela “paradigmas selvagens da política sindical”. Ele falou em entrevista à Folha de S. Paulo, publicada no domingo na Folha.com. Mendes criticou o aparelhamento político do Estado brasileiro, dizendo que é “uma anomalia que se normalizou”, isto é, de tão generalizada passou a ser vista como algo “normal”.

“Os funcionários públicos precisam entender que não estão a serviço de uma instituição partidária”, disse, advertindo que o episódio é típico de “partidos clandestinos que utilizavam dessas práticas como um instrumento de defesa contra um regime ditatorial”. E assinalou, com extrema precisão, o ministro Gilmar Mendes: “É algo assustador e lamentável. Sobretudo quando ocorre em uma instituição profissionalizada e profissional como a Receita Federal”, completando: “É preciso punir gravemente essa cultura de dossiês no país. Os partidos que se utilizaram disso têm que pedir desculpa. Têm que fazer um mea culpa. Porque isso é típico de partido na clandestinidade e não pode ocorrer em regime democrático”.

Nada a acrescentar.

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Comentários

rosane santana on 31 agosto, 2010 at 12:46 #

“DESPERTAR É PRECISO

Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, Já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, Já não podemos dizer nada”.

Vladimir Maiakóvski


Carlos Volney on 31 agosto, 2010 at 15:14 #

Com a intenção e pretensão de contribuir, alerto a cara desconhecida (por aínda não ter tido o prazer de conhecê-la) Rosane, de que o belo poema é de autoria de um brasileiro chamado Eduardo Alves da Costa. Todo mundo faz essa confusão porque o título do poema é NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI. Você poderá confirmar isso no Google.


Regina on 31 agosto, 2010 at 15:45 #

No Caminho, com Maiakóvski

Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!


danilo on 31 agosto, 2010 at 16:30 #

diante da gravidade do momento e do risco de supressão dos direitos individuais q o Brasil está vivendo pouco importa se o poema é de Maiakóvski, ou de Eduardo Alves da Costa, ou de Cuíca de Santo Amaro ou do maluco beleza da porta da Iguatemi.

lembrar o conteúdo deste poema é mais que oportuno. brinquem com esse pessoal e depois não reclamem…


luiz alfredo motta fontana on 31 agosto, 2010 at 16:59 #

“Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que haja falta de amor.”(Vladimir Maiakovski)

E por falar em Maiakóvski…

(e esquecendo pontuação)

Um dia chamaram a imprensa de mídia

e ela adorou

ganhou ares de moderna

Ivan é modesto

Estranha só o tratamento dado aos “heróis do fisco”

Esquece o ardor cívico com que a dita mídia louva o judiciário

Afinal, parafraseando a velha campanha:

-“liminar, um dia você (empresa jornalística) vai precisar de uma”

O pior é que eles, os pretores, são investidos com a tal vitaliciedade

Já imaginaram o quanto vai durar aquele Ministro vindo de Marília, SP ( a “Cidade Moça”, como diz o lema), que poderá assim, ser alcunhado de Ministro José Antonio Toffoli, “O Moço” ?

Como criticar sem temer pelo futuro?

Diverso fosse, a tal mídia não suportaria este excesso de feitos sob o manto do sigílo

A cada decretação de sigilo, e é usual, “a torto e direito”, a sociedade perde, afinal a publicidade necessária dos atos é mutilada, por seu turno, e vez , os jornalistas são condenados ao silêncio

Sob pena de retaliação processual

É o poder exercido nos escaninhos, sob a benção do segredo, sob os cuidados sombras

Mas…

Além do silêncio reverencial…

A cada edição, a toda hora e dia, um pretor é mimado com a comenda de herói nacional, ainda que ninguém saiba a razão, e tome ínclíto aqui e ali

Chamem o Maiakóvski!!!!


Carlos Volney on 31 agosto, 2010 at 18:39 #

É isso. Nada melhor que que cercar-se de brilhantes intelectuais e escribas para se iluminar. Obrigado, sincero, a Regina pelo socorro, valeu. Também, um blog de mestre Vitor Hugo só podia “hospedar” sumidades.


João Justiniano da Fonseca on 31 agosto, 2010 at 19:14 #

“Algo assustador”

“Quem tem bocas diz o que quer”. Pare-me mais assustador juízes da Corte Suprema manifestarem-se públicamente sobre assuntos que podem ser levados a seu julízo, ainda mais em momento de paixão política. Não poderiam ao menos esperar a investigação do fato denunciado? Não poderiam acionar o Ministério Público para a investigação antes se manifestarem? O Fisco até onde sei, é uma Instituição séria e responsável que nasceu com o Império e República mantém (já fui auditor fiscal). Alguma pessoa pode, eventualmente, desviar-se de suas atribuições e cometer pecados. Daí, que se faz necessário investrigar. Mas, para não ser sensurado, silencie o juiz por enquanto.


Olivia on 1 setembro, 2010 at 10:38 #

E esse sonhor (Gilmar Dantas, ops, Mendes) já tem muito precedente, e como tem.


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