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Postado em 29-08-2010
Arquivado em (Crônica, Gilson) por vitor em 29-08-2010 00:22

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CRÔNICA/DESPEDIDA

Dinamitando a História

Gilson Nogueira

A morte do amado Estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova, irá se transformar em um espetáculo midiático. Neste domingo, 29, assim que bananas de dinamite implodirem o que restou daquela praça de esportes, ou seja, seu lance de arquibancadas mais perto do céu, o Ibope vai fazer muita gente feliz. Depois, no lugar da Fonte Nova, o vazio, como o marco zero do absurdo.

E que ironia do destino, logo em um domingo, dia que, em passado nem tão distante, assim, ir à Fonte Nova carregava o mesmo sabor de uma feijoada completa, acompanhada de Coca Cola, e a magia de uma missa na Basílica do Bonfim.

Portanto, aproxima-se o momento do tiro fatal, em forma de aperto de um detonador, que irá calar, de vez, o grito de gol que não quis ir embora e que agonizava, ali, raquítico, faminto, tonto, esperançoso, no fosso úmido e fedorento, à beira do campo, já sem as traves, confiante em tomar forma, após a jogada do craque fantasma, capaz de virar o jogo, e, desse modo, não permitir o desmoronamento do templo maior de sua religião futebol.

Rasga-se, assim, com a implosão do último pedaço da Fonte Nova, uma página da história do desporto baiano. Explode-se uma espécie de cofre das mais ricas lembranças do povo da Boa Terra. Mais que isso, um relicário de proezas gigantescas dos jogadores de futebol da Bahia, em defesa das cores de sua seleção e de seus times, no campeonato local, e em disputas oficiais e amistosas com times de outras plagas.

Que saudade da zorra do Guarani, do Galícia, do Ypiranga, do São Cristóvão, do Botafogo, do Leônico, do meu Bahia mais Bahia que o Bahia de hoje. Que falta você vai fazer,minha Fonte Nova abençoada !!!

Ao som das dinamites pipocando, das palminhas de sempre, nessas ocasiões, e dos gritinhos da moda, encenados por quem não experimentou a sensação indescritível de assistir um Bahia e Vitória pelo buraco do portão do Xaréu da Fonte Nova e, com isso, dar-se por glorificado em ver, apenas, o jogador do seu time bater o corner e esperar o grito da torcida, você desaparece do mapa. Em seu lugar pretendem construir uma arena (argh!), com o nome de Nova Fonte Nova. Não gosto desse nome e morro um pouco com você, querida vizinha de muitos anos.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador de origem do Bahia em Pauta e, na juventude, também ex-morador da Rua do Genipapeiro, bairro da Saúde/Nazaré. A casa de sua família ficava a menos de 500 metros do portão de entrada da Fonte Nova.

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