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Postado em 21-08-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 21-08-2010 00:23

Torcida do Ínter: um exemplo

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ARTIGO DA SEMANA

SIMBOLOGIAS GAÚCHAS

Vitor Hugo Soares

A quarta-feira (16 ) foi um dia para não esquecer, e não me refiro como se verá adiante às primeiras apresentações dos candidatos nos programas do chamado horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, que nem foram tão marcantes assim. Salvo, evidentemente, uma ou outra exceção de brilho criativo na forma e de qualidade no conteúdo, para compensar as inúmeras decepções de praxe.
Um exemplo positivo – é preciso reconhecer por mérito de seus criadores – foi a primeira apresentação da candidata do PT, Dilma Rousseff, receita quase perfeita de jornalismo e propaganda em uma mesma peça. O lado negativo fica por conta da enorme frustração de expectativa, na forma e no conteúdo, causada pelo programa de Marina Silva, do Partido Verde, vendido previamente como cinematográfico avanço da propaganda política, mas que na prática se revela, até aqui, um formidável fiasco como cinema e como propaganda eleitoral.
De volta ao começo destas linhas, devo uma explicação: o que me prendeu até altas horas na quarta diante da tela da TV, na Bahia, foi o memorável espetáculo de gigantes – no gramado, na arquibancada e nas ruas -, produzido pelo duelo entre o Internacional, lá dos pampas gaúchos, e o mexicano Chivas Guadalajara, que levou o time brasileiro à conquista pela segunda vez da Taça Libertadores da América.
Coisa digna de narrativa de Nelson Rodrigues, se vivo estivesse o magistral cronista do Rio de Janeiro nascido em Pernambuco. Espetáculo talhado para “À Sombra das Chuteiras Imortais”, por exemplo, ou para uma daquelas odes fantásticas de grandes poetas ou mestres da literatura ao narrar epopéias dos conquistadores.
No Estádio Beira Rio, símbolo de um país naquela noite, um jogo eletrizante, daqueles capazes de dar enfarte até em quem não curte futebol. O visitante “Chivas” não parecia impressionado com a torcida nem com os prognósticos dos críticos de que os mexicanos haviam feito a longa viagem da América do Norte ao Rio Grande do Sul só para cumprir tabela.
Os craques do Guadalajara jogam apaixonadamente em honra da camisa que vestem. Entram firmes em todas as divididas, manejam a bola com classe quando podem, ou chutam para qualquer lado com disposição de jogadores de várzea, quando necessário. Até estão na frente do placar quando o juiz apita o final do primeiro tempo.
O problema é que do outro lado há ainda mais paixão, garra e entrega. Talento e profissionalismo também, que só com paixão, entrega e vontade não se conquista nada, no máximo se chega ao limiar do gozo incompleto. E os gaúchos viram o placar, ganham as faixas e levantam a taça de melhor time das Américas, pela segunda vez.
Há ainda a destacar o maravilhoso exemplo que vem das arquibancadas, do começo ao fim da partida carregada de símbolos. De fazer chorar de emoção mesmo quem está em Salvador, a milhares quilômetros de distância de Porto Alegre, e nem é torcedor do Inter. Principalmente, quando todas as vozes se juntam para entoar o sucesso nacional dos Mamonas Assassinas, transformado em empolgante hino do time gaúcho: “Você me deixa doidão”, canta a torcida unissonamente enlouquecida para seu time em campo.
Que espetáculo de criatividade, de paixão, garra, união e combate em busca de um objetivo! Quanta diferença, mal comparando, com o que se viu até esta semana na disputa presidencial e mesmo para governadores na maioria dos estados, a Bahia por exemplo! Nesse campo, a marca principal, quando faltam menos de dois meses para a votação no primeiro turno, tem sido o óbvio de um lado, e a indiferença do outro.
Entrei acordado pela madrugada adentro diante da TV na quarta-feira. Queria escutar as últimas notícias da campanha eleitoral por dever de ofício, mas principalmente tinha a esperança de rever as empolgantes imagens do Beira Rio transmitidas para a Bahia durante o jogo. E a expectativa não foi frustrada. No Jornal da Noite, da TV Globo, com William Waack no comando, a cena final foi a torcida do Inter a cantar “Mamonas”, enlouquecida de alegria, para o seu time bicampeão das Américas: “Você me deixa doidão”.
Que maravilha! Depois, antes deitar, penso com meus botões: uma gente e um País assim, capazes de produzir um espetáculo tão belo e tão carregado de simbologia como este no Rio Grande, não podem dar errado. Aproveito então para pedir ao Senhor do Bonfim da Bahia e ao meu Santo Antonio da Glória que os políticos não desmintam ou atrapalhem este caminho de esperança.

E agarro no sono e no sonho!

Vitor Hugo Soares é jornalista -E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Olivia on 21 agosto, 2010 at 10:14 #

Belíssimo artigo. Ainda teve a torcida do Colorado/Inter gritando o nome de Dunga no exato momento em que o jornalista Alex Escobar (da Grobo) adentrou o Estádio do Beira Rio, impagável!!!


João Henrique Coelho de Souza on 21 agosto, 2010 at 12:15 #

Vitor: parabéns por esta matéira. É de arrepiar. Me emocionei.
Tu escreve muito bem e soube descrever grandes sensações, não sendo tendencioso, malicioso.
Sou colorado e realmente tu soube expressar o que foi aquele jogo.
Abraços (ou como se diz aqui: um grande “quebra costela”.
João Henrique
MANO


Mariana Soares on 21 agosto, 2010 at 20:49 #

Que lindo artigo! Confesso que me levou às lágimas! Que os Deuses escutem os seus pensamentos e sonhos, meu irmão, e que este Pais dê certo de verdade e para todos, indistintamente!
Também vibrei quando escutei “DUNGA” da torcida colorada, pois aquele Alex Escobar , mauricinho global, não me desce a garganta…


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