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OPINIÃO/IMPRENSA

Jornalismo 171

Washington de Souza Filho

Fatos diversos têm demonstrado a falta de vínculo entre a realidade e decisões da Justiça brasileira. São freqüentes os acontecimentos, com a participação de criminosos de alta periculosidade, por exemplo, ocorridos depois da concessão de benefícios, baseados na legislação, sem uma cuidadosa avaliação da condição desses acusados. Em relação ao jornalismo, a referência é a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), no ano passado, que decidiu suspender a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, sob a alegação de inconstitucionalidade,

A história, recente, é bem conhecida, mas vale recordar. A partir de uma ação, movida pelo Sindicato das empresas de rádio e televisão de São Paulo, com base no artigo da constituição brasileira que trata do direito à liberdade de expressão, levantou-se a tese de que a exigência do diploma era uma forma de restrição ao exercício do jornalismo, além do fato da lei que regulamentava a profissão ter sido um ato da Junta Militar, que governava o País em 1969. A argumentação nunca correspondeu aos fatos, assim como a referência ao contexto político sempre representou, na verdade, a usurpação de uma reivindicação histórica dos jornalistas.

A formação ganhou outra conotação, a partir da exigência do diploma. No caso da Bahia, por exemplo, onde o curso de jornalismo foi implantado no fim da década de 50, na UFBA (Universidade Federal da Bahia), muitos profissionais em atuação, diversos deles consagrados, inverteram o caminho percorridos pelos jovens, interessados em uma oportunidade nas redações, e foram buscar a formação.

A formação em jornalismo é indiscutível, sempre dependente de necessárias correções. De um único curso, mantido pela UFBA, a quantidade aumentou para quase duas dezenas em todo o Estado, faz pouco mais de 10 anos. Um complicador, para quem considera a educação uma forma de negócio, interessado apenas no lucro. As dificuldades, porém, na área de educação têm sido enfrentadas.

Um fato, da cobertura policial dos meios de comunicação da Bahia, ocorrido na semana passada, é o elo para a esta consideração sobre a Justiça e as suas decisões. No caso do jornalismo, o seu exercício virou uma terra de ninguém, como é possível verificar o episódio da prisão de um cidadão, dito dono de um site, sob a acusação de extorsão. A existência de uma regulamentação, tentativa em curso no Congresso Nacional, teria impedido a ação de quem, de forma arrogante, disse aos jornalistas não considerá-los como colegas, ainda que usasse a profissão como se ela fosse para o benefício dele.

É natural que ele não tenha nenhuma consideração pelos jornalistas. Ser jornalista pressupõe condições estabelecidas pela formação, através de princípios morais e éticos. Da forma preconizada pelo jornalista Cláudio Abramo, no livro A Regra do Jogo, de que a ética de um jornalista não é diferente da que é exigida de qualquer cidadão, por ser uma condição essencial da atividade de um profissional.

A divulgação sucessiva do fato permitiu diversas denominações ao acusado. Uma delas, utilizada pelo Correio – por certo, para diminuir as sucessivas infelicidades em sua primeira página – sintetiza o que é a atuação dos muitos que se consideram jornalistas, porque pensam que podem ser, apenas por considerar que é uma profissão praticada sem limites.

O jornal usou em uma manchete a expressão “jornalista 171”. De certa forma, bastante acertada. O número é uma referência ao artigo do Código Penal que define o crime de estelionato. Infelizmente, para o jornalismo e a sociedade, para muitos, esta ainda é uma forma de querer ser jornalista, exatamente pela falta de qualquer limite.

Washington de Souza Filho é Jornalista, professor da Faculdade de Comunicação (UFBA), atualmente Coordenador do Colegiado de Graduação.

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Comentários

rosane santana on 15 agosto, 2010 at 15:08 #

Com todo respeito, colega e professor Washington de Souza Filho. Há muito jornalista 171, com diploma, na imprensa brasileira. Pululam! Por isso, este não é um bom argumento, em minha opinião, na defesa do diploma. saudações cordiais, rosane santana


luiz alfredo motta fontana on 15 agosto, 2010 at 15:18 #

Certeira a Rosane

De resto o de sempre

Confundem, especialmente a dileta classe de docentes, formação com graduação.

Ao mais, uma sugestão ao autor do equívoco:

Reflita sobre o conceito de estelionato, talvez reconheça o próprio, na tão usual modalidade de “estelionato intelectual”.


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