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Postado em 14-08-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 14-08-2010 00:05

Plinio Arruda: recado para a Globo

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ARTIGO DA SEMANA

BATALHAS NAS TVs

Vitor Hugo Soares

A chapa começa a esquentar no picadeiro e nos bastidores do grande circo da campanha presidencial, que entra em sua fase crucial neste agosto, quando é indispensável mostrar “quem de fato tem farinha para vender na feira”, como dizia o gaúcho Leonel Brizola em temporadas políticas mais empolgantes. O fato é que até já se registram as primeiras ameaças de incêndios e muto “deixa disso” na calda dos debates e sabatinas dos candidatos nas grandes redes de televisão.

Oba, saúda o jornalista que vive de fatos. Finalmente um pouco de sal na sopa insossa de retórica desenxabida servida até aqui aos senhores ouvintes e eleitores. A maioria, segundo os indicativos mais confiáveis, saturada de ouvir o mesmo na fala de pouco brilho, sofrível fluência verbal e praticamente nenhuma proposta nova ou relevante dos principais concorrentes ao posto principal de comando da nação, ao qual seu atual ocupante parece tão apegado.

Mesmo depois de oito anos no cargo, o presidente Lula chora de tirar o lenço toda vez que lembra que terá de desocupar o Palácio do Planalto até o fim do ano. Deu pito nos ministros esta semana e disse que não quer corpo mole antes de janeiro de 2011. Apesar da estafa visível no rosto de quem precisa governar e carregar no muque a campanha de Dilma Rousseff à sua sucessão, Lula parece nem pensar ainda em azeitar os molinetes para “voltar a pescar livremente”, seu sonho de “depois do poder”, dito por onde tem passado ultimamente.

Na Bahia, inclusive, onde José Serra, do PSDB, esteve ontem, uma sexta-feira, 13 de agosto. O tucano paulista desembarcou com tarrafa de pescador de votos, para lançar seu programa de governo para a área de segurança pública, que começa com a criação de um ministério específico para o setor.
Para observadores mais atentos, um aceno a mais, além da relevância que se espera do projeto em si, para tentar apaziguar seus aliados do DEM e, ao mesmo tempo, atender aos apelos mais conservadores do eleitorado da região Nordeste, onde sua candidatura derrapa perigosamente nas mais recentes pesquisas eleitorais de diferentes institutos.Quase me perdi, pois o que quero ressaltar mesmo é o novo e mais interessante momento da disputa eleitoral, patente no primeiro debate conduzido por Ricardo Boechat, na Rede Bandeirantes, e na sabatina de William Bonner e Fátima Bernardes, no Jornal Nacional da Rede Globo.

Como no escaldante e perigoso verão da Rússia, também no invernoso período eleitoral brasileiro começaram a atuar incessantemente, ao mesmo tempo, bombeiros e incendiários de todo tipo. Os primeiros com água jogada de carros e baldes; jatos de espuma lançados de helicópteros e até galhos de árvores batidos na tentativa de apagar o fogo que se espraia. Os segundos, munidos de galões ou litros de gasolina, pavio e fósforo, se esforçam para propagar ainda mais as chamas.

O debate da Band, apesar da reduzida audiência apurada pelos institutos, obteve nos dias seguintes uma surpreendente e extraordinária ressonância pelo país afora, ocupando farto e generoso espaço de repercussão informativa e opinativa nos jornais e revistas da chamada mídia impressa, mas principalmente nos meios eletrônicos – televisões, emissoras de rádio do país inteiro e blogs à frente.
A sabatina dos candidatos pelos normalmente circunspectos, mas, de repente – em alguns momentos – agressivo casal de âncoras William Bonner e Fátima Bernardes, do Jornal Nacional -, esquentou muito mais ainda o tempo na campanha esta semana.

A audiência multiplicada por 10 vezes em relação à concorrente do Morumbi, em São Paulo, deu mais eco e relevância a atos e palavras de Dilma Rousseff, do PT, Marina Silva, do Partido Verde, e José Serra, do PSDB, na Globo. Mais ressonância às palavras e amplitude às imagens naquilo que de melhor e pior fez e disse cada candidato na bancada de primeira classe da televisão. Até Lula protestou, em Minas Gerais, contra o tratamento dispensado à sua candidata no JN.

As conversas de reduzido brilho e interesse na forma e no conteúdo – tanto nas perguntas dos âncoras quanto nas respostas dos candidatos – foram sempre pontuadas por reprimendas severas, “lições” de bom comportamento, advertências e até cortes bruscos da imagem como na interrupção, por determinação de Bonner, das palavras finais de Serra em sua sabatina. As reações dos sabatinados foram diferentes e isso, sem dúvida, deu o molho das entrevistas. Forneceu igualmente o combustível para atear fogo no circo eleitoral.

Mas o auê, como dizem os baianos, não para por aí. A exclusão do candidato Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, da seleta bancada do JN , também ainda rende muito rebuliço nos partidos e na mídia. Afinal, Plínio de Arruda, tratado como um grande e em igualdade de condições com os demais no debate da BAND, foi quem mais surpreendeu e brilhou no estúdio do Morumbi, sob o comando discreto e sempre profissional do jornalista Ricardo Boechat. Virou até celebridade nas ruas, onde até então não passava de “ilustre desconhecido”

A ausência do velho cavalheiro das esquerdas de São Paulo, no tablado principal da Globo, além de causar desapontamentos em muita gente, contribui para aumentar a munição dos incendiários nos dias seguintes.
Sabatinado em casa durante três minutos pelo repórter Tonico Ferreira, o candidato do PSOL lavou a mágoa de quem se considerou tratado como “passageiro de segunda classe”, com o recado que mandou para o Jardim Botânico e foi levado ao ar no tempo extra cedido pela emissora, como condição imposta por Plínio para participar do programa. Um recado educado, diga-se, mas tão severo quanto algumas das reprimendas e lições de Bonner e Fátima nos felizes convidados à sabatina do JN, que acusou o golpe.

“Não é nada, não é nada, não é nada!”, diria a turma do Pasquim antigamente. Mas já é alguma coisa.

Vitor Hugo Soares é jornalista – E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

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